5040 (V)

dezembro 2, 2015

Diante do imenso painel de horários da estação central de Munique, decidi-me pelo próximo trem para Viena, que só partiria às sete horas da manhã. Tinha a noite inteira pela frente; a fome me corroía por dentro. Troquei alguns francos por marcos, comprei dois sanduíches e dois cafés. Sentei-me ao lado de Ludwig, que me aguardava numa fileira de bancos vazia, num dos cantos da estação.

– Já que fui convidado para sua casa, nada mais justo que oferecer-lhe este fausto banquete.

– Obrigado. Não vou recusar, mas vou comer mais tarde. Você tem seis horas até seu trem, não vai descansar um pouco?

– Não tenho sono, e mesmo que tivesse não iria conseguir dormir. Faz muito frio… Você costuma passar suas noites aqui?

– Não, eu geralmente durmo numa pensão do serviço social, que não fica muito longe. Mas hoje pretendo passar a noite ao seu lado, se não se importa. Não é sempre que tenho boa companhia.

– Oh não, não me importo. Será um prazer.

A estação ainda não estava vazia: um trem acabara de chegar, trazendo consigo dezenas de homens muito bem agasalhados que caminhavam a passos rápidos para a saída.

– Tenho muito tempo livre, sabe como é. Esses senhores apressados aí, vejo-os todos os dias. É interessante ver como vão todos num mesmo passo marcial, indo para suas casas ou para seus trabalhos, fazendo provavelmente o que se espera deles, sem nenhuma indagação estampada em seus rostos. Eu já pertenci a essa tropa, entendo-os perfeitamente. Mas hoje somos imiscíveis, como óleo e água. Não existimos mutuamente; não nos tocamos. Nossos olhares, quando se cruzam, carregam consigo um desconforto infinitesimal; tão logo se viram, o constrangimento se dissipa. Uma existência como a minha lhes incomoda, isso é claro, mas não a ponto de causar-lhes preocupação.

– Não deve ser fácil ser confrontado a essa realidade todos os dias…

– Sabe, já passei da fase de odiar o mundo e as pessoas. Não creia que lhe falo em tom amargurado; apenas constato como as coisas são. Meu orgulho ferido ficou lá atrás. Minha dor pela perda, também. Hoje tento apenas sobreviver e extrair da vida tudo o que eu conseguir. Mas se você quiser conhecer melhor os homens, ponha seu chapéu no chão e sente-se ao lado dele. O que você obtiver depois de um dia, eis quanto vale a Humanidade.

Fiquei imaginando Ludwig com um chapéu de pequenas abas: ele realmente se parecia com Umberto D., só lhe faltava o cachorro. Veio-me à mente a penível cena em que Umberto tenta pedir esmola em frente ao Pantheon, mas é impedido pela vergonha ao ver um conhecido.

– E como é que você arruma dinheiro?

– Meus filhos me enviam. Todo mês, sem falta, eu vou aos correios, falo meu nome e recebo 300 marcos. Não é muito, mas o suficiente para não precisar mendigar.

– Você fala com eles?

– Não. Eles pagam para não precisarem me ver ou falar comigo. Eles estão bem de vida, um trabalha num banco em Frankfurt, outro é dentista aqui mesmo. Não cai muito bem dizer a todos que seu pai é um andarilho, então eles dizem que eu morri. De certa forma, não deixa de ser verdade.

– Isso é muito cruel!

– Não os recrimino. Em certo sentido, quando escolhemos esta vida, renunciamos à outra. Morremos para aquele mundo. Somos espíritos vagando pelas estações, pelas ruas, tentando não incomodar muito os vivos. Somos uma raça de mansos diabinhos aos quais os anjos se privam de dedicar atenção, sem que isso lhes traga qualquer remorso à consciência. Sim, porque eles são anjos, não está vendo? Nossos mundos são tão distintos que não podem pertencer à mesma existência. Um deles é real; o outro é divino.

Encarei Ludwig. Fazia sentido. Não era somente metáfora: era realmente isso. A indiferença daquele mundo à miséria deste só pode ter essa explicação.

– E é por isso que quando vejo qualquer ato de caridade espontânea, é como se testemunhasse um pequeno milagre, um presente dos céus, uma intervenção divina. Não estou falando sobre as moedas que as pessoas nos jogam automaticamente como se estivessem comprando o direito ao esquecimento, mas sobre atitudes como a sua, ao oferecer-me o maço de cigarros sem saber se eu iria devolvê-lo.

Entendi o recado e ofereci-lhe os penúltimos cigarros que eu possuía. Ele retirou um do maço, sorriu, eu peguei o último. Amassei o maço, acendi ambos e fumamos em silêncio, até Ludwig decidir rompê-lo:

– Gostaria de retribuir sua gentileza. Você parece ser um bom ouvinte. Se você me permitir, vou contar-lhe uma história que aconteceu comigo há muito tempo e que resume bem o que eu penso sobre a natureza humana. Essa história lhe pertencerá, e você julgará se ela merece ou não ter seu lugar em papel.

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5040 (IV)

dezembro 2, 2015

– Você parece preocupado.

Tirei os fones. Encarei finalmente o homem.

– Mas pode ficar tranquilo. Não há muito fiscais dispostos a controlar um trem vazio como esse no meio da noite de sábado, a três dias do Natal, com o frio que faz lá fora.

Seu inglês era excelente, embora dominado por forte sotaque alemão. Decerto ele não havia deixado de observar-me, mesmo durante o longo momento em que meus olhos tentavam escapar-lhe.

– Pode ficar descansado com relação à fronteira também. A polícia não tem muito interesse em nós.

Nós? Quem éramos, segundo ele, nós? Sorri levemente, demonstrando alívio e cortesia. O homem começou a remexer o interior da sacola plástica, retirando uma faca e uma cebola.

– Quer?

Ele cortou a cebola em fatias e as comia como se fosse uma maçã. Segurando uma delas com o dedão e a ponta da faca, ofereceu-me, apontando em minha direção.

– Não, obrigado.

– Tem certeza? Nada é melhor contra gripe do que um bom pedaço de cebola crua.

– Não estou com gripe.

– Mas pode pegar. E você sabe como é, pegar uma doença vivendo nas ruas, com o frio que faz, pode ser fatal.

– Não vivo nas ruas. Estou indo para a casa de minha namorada.

– Ah! Que beleza! E onde vive sua namorada?

– Ela vive na Hungria.

– E de onde você vem?

– De Paris.

– Então já está na metade do caminho. Bom! Permita-me perguntar: por que não tomou o trem direto para Budapeste na gare de l’Est?

– É que eu vim de carona até Basileia. Depois tomei uns trens e cá estou.

– Entendi. Retenção de custo, não é?

– Pode-se dizer que sim…

– Vou lhe dizer: não há humilhação nenhuma em fazer parte do que os alemães chamam de intranquilidade social. Estou nessa vida de andarilho há vinte anos. Posso dizer que não conseguiria mais voltar àquela minha velha vida nem que me lhe devolvessem de bandeja.

Abriu sua bolsa de couro e retirou duas grandes apostilas.

– Essa minha nova vida me permitiu alargar meus horizontes. Está vendo essas anotações? Estava hoje em Zurique num curso sobre Dr. Jung. Vou às aulas como ouvinte há mais de um ano. Em Viena, a cada quinze dias, assisto a palestras muito interessantes sobre Dr. Freud. Gosta de música clássica?

Com avidez, retirou da bolsa várias partituras e um pedaço de papelão com o desenho de teclas de piano.

– Em Munique, sou ouvinte de um curso de música clássica com um professor excelente. Veja, é assim que treino meu dedilhado. Entende? Faço o que gosto e não gasto um tostão. Tudo de que preciso consigo nas ruas, nos serviços sociais, nas igrejas. Não passo fome nem frio. Tenho amigos. Além disso, não se deve subestimar a compaixão humana: ela não conhece limites e aparece nas situações mais inesperadas. Mas permita-me que eu me apresente: chamo-me Ludwig Buckmoser.

– Prazer, sou Teodoro.

– Prazer, Teodoro. Mas não vá crendo que esta é uma vida fácil, pelo contrário. Sofri muito, especialmente no começo. Eu tinha uma vida bastante confortável antes de me tornar habitante da rua. Eu tinha um bom trabalho, uma casa, um carro, uma família.

– E o que aconteceu?

– Eu trabalhava em uma empresa de eletrônica em Essen, era responsável pela arquitetura de placas industriais. Desenvolvia componentes com precisão de alguns micrômetros. Eu era muito bom nisso, parecia um relojoeiro suíço, um ourives de Antuérpia, só vendo. Mas, de uma hora para outra, perdi o controle do movimento das mãos. Elas começaram a tremer. Veja:

Esticou as mãos em minha direção. Havia de fato um tremor perceptível, mas não era maior que os habituais em mãos sadias.

– Não parece muito, mas é o suficiente para impossibilitar qualquer trabalho mais rigoroso na área. Em menos de uma semana, perdi meu emprego. No começo, tive o apoio de minha família, mas à medida que o tempo passava e que não encontrava recolocação (deve haver uma dezena de postos iguais ao meu em toda a Alemanha), minha mulher foi se tornando arisca. Certo dia, comunicou-me o desejo de divorciar-se. Posso dizer que não reprovei sua atitude: eu não era uma pessoa fácil. Assim, menos de três meses depois, já não tinha mais casa nem carro, e só podia ver meus filhos uma vez por semana. Eu era um homem acabado, destituído, com a moral destruída. Fui dormir em uma pensão. Lá, arquitetei meu suicídio, básico, envolvendo cadeira, lustre e corda. Felizmente, estava tão deprimido que não encontrei forças para pô-lo em prática. Mas tive-as suficiente para conseguir abandonar o quarto e todas as coisas que havia conseguido trazer de casa. Naquela noite dormi na rua, e nela durmo desde então. Mas olhe lá: eis que já estamos chegando a Munique! Bem-vindo, Teodoro! Acredito que, a menos que tenha feito uma reserva em um hotel, não se oporá ao meu convite para dormir em minha espaçosa e arejada casa, em pleno Hauptbahnhof!


5040 (III)

dezembro 2, 2015

Em Ivry-sur-Seine, subúrbio ao sul de Paris, há um grande posto de gasolina onde centenas de caminhões abastecem antes de seguir viagem. Plantei-me logo depois de sua saída, segurando um papelão com os dizeres em letras máximas: EST.

Inúmeros os veículos que passaram e ignoraram minha vaga súplica. Cheguei a pensar se ao invés de “leste”, que era o que estava escrito na placa, os motoristas não estariam lendo a abreviatura de Estônia. Ao longo de duas horas infrutíferas, confrontado à recusa e ao desdém, resolvi ser mais objetivo e especifiquei minha direção; escrevi Hungrie do outro lado do papelão. Sem resultado. Tentei aproximar o destino e rabisquei Allemagne. Nada.

Decidi interpelar os motoristas que abasteciam, mesmo sob o risco de ser posto fora à força. Abordei um motorista que abastecia um caminhão com placa da Romênia. “Bom dia! Hungria?” “Não, Romênia”. Fiquei imaginando que outro caminho ele iria tomar. “Iugoslávia?” “Não, Romênia”. Fiquei confuso. No entanto, para minha surpresa, ele me disse: “Mas posso deixá-lo no próximo posto”. Subi.

Contei-lhe meu objetivo, e ele me segredou em francês bastante compreensível: “Para pegar carona, você tem que demandar por destinações próximas. Não seja ambicioso demais se você espera pela compaixão humana. Alguns não podem dar carona, outros podem e não querem, uns têm medo, outros têm preguiça. Seja compreensivo e paciente ou você se mortificará”.

Passamos por um posto, e mais outro. Olhei para ele, sem compreender. “Posso deixá-lo em Saint Louis, na tríplice fronteira”. Agradeci-o profundamente, mesmo sem saber exatamente onde ficava a cidade.

Era final da tarde quando chegamos; já havia escurecido. O romeno me deixou numa avenida à borda de um rio que mais tarde descobri ser o Reno. “Não posso ir adiante. Você está vendo aquela passarela? Atravesse-a, e você estará na Suiça”.

Entendi ali que ele não queria arriscar a ter problemas com a imigração. Agradeci-o e segui andando, o frio na espinha. Atravessei a passarela e estava em Basileia. Não havia controle algum. Caminhei alguns quilômetros em busca da auto-estrada indicada nos paineis. Ao chegar, perdi qualquer ilusão: não teria a menor chance de conseguir carona àquela hora; as margens da estrada eram um extenso deserto sem vida humana, os carros passavam muito velozes e sequer me notariam. E ademais havia o frio, insuportável.

A estação de trem não era muito longe; caminhei mais alguns quilômetros e me refugiei. Havia um trem que sairia para Zurique em alguns minutos. Não titubeei, entrei no último dos vagões. Fiquei no hall entre as cabines, à espreita do controlador. Durante toda a viagem, ele não apareceu.

Eram dez horas da noite quando cheguei a Zurique Hauptbahnhof, a estação central. Tão logo cheguei, pulei em outro trem quase vazio, dessa vez para Constança. Dali tomaria a conexão até Munique. Na Alemanha, imaginava eu, talvez tivesse mais sorte como caronista. Na Suíça, em todo caso, era inimaginável.

A estação em Constança, a céu aberto, estava completamente vazia. Havia neve nos trilhos. Esperei mais de meia hora pelo trem de Munique. Perto da hora estimada de sua chegada, algumas almas apareceram e instalaram-se diante da linha amarela. Eu, em parte por frio e em parte por receio de encontrar algum fiscal, retive-me com discrição embaixo da marquise, fumando um de meus últimos cigarros.

Um senhor de idade aproximou-se e fez o gesto universal: dois dedos ao ar, o indicador e o médio, na horizontal, próximos à boca. Peguei meu maço de Lucky Strike e entreguei a ele. O homem, decerto surpreso com meu desprendimento, encarou-me, retirou um cigarro dos quatro que ainda restavam, entregou-me o maço e fez o outro gesto universal: a mão fechada com o polegar ao alto, movendo discretamente a falange. Entreguei-lhe meu próprio cigarro aceso ao invés do isqueiro, pois ventava. Ele aquiesceu balançando a cabeça, acendeu o seu com o meu e devolveu-me-lo, acenando com a cabeça. Afastou-se vagarosamente, deixando uma viva neblina de fumaça atrás de si. Pude contemplá-lo à vontade: tinha o cabelo e o bigode completamente brancos. Cobria a cabeça com uma touca preta, vestia um grande casaco forrado com algumas blusas embaixo e portava luvas de lã com os dedos abertos. Carregava uma sacola plástica de mão e uma bolsa de couro com a alça atravessando-lhe o peito. Era um andarilho, um errante ou, segundo o gosto burocrático dos franceses por acrônimos, um SDF, um sans domicile fixe.

O trem se aproximava, finalmente. Dirigi-me ao último vagão, e instalei-me perto da porta. Estava vazio. Olhava pela janela a cada instante, aterrorizado pela possibilidade de surgir um controlador e me expulsar do trem; seguramente morreria de frio naquela estação deserta.

Pouco antes do fechamento das portas, o homem do cigarro entrou no vagão e sentou a duas fileiras da minha, do outro lado do corredor, de frente para mim. Ele me encarava inquisitivo; eu tentei desviar-me de seu olhar procurando meu walkman na mochila. Apertei os fones em meus ouvidos e pus-me a escutar Crystal Silence em loop. Geralmente essa música me bastava para entrar em estado melancólico induzido. Mas ali, diante do olhar daquele senhor e da fragilidade de minha situação, não conseguia encontrar minha calma, nem tampouco pensar em Ulrika, meu amor, meu destino, meu terminus.


5040 (II)

dezembro 2, 2015

Em meus anos de Paris, troquei mais de endereço do que em todo o restante da minha vida: Gobelins, Alésia, République, Mouffetard.  A sublocação, sempre rateada, era a única maneira viável de manter-me na cidade, já que minha situação, irregular desde a chegada, não me permitia possuir um desses dossiers com os quais os franceses costumam mesurar um indivíduo.

Trabalhava ocasionalmente, o suficiente para conseguir me manter; a esse princípio me ative. Muitas vezes, o que ganhava servindo em um restaurante pela manhã, gastava à noite num bar vizinho. Nas minhas folgas ia à biblioteca, lia nas praças, comprava livros de bolsos de segunda mão, ia ao cinema no Odéon. Escrevia calhamaços colossais a Martina, que você conheceu quando foi me visitar em B.B.A.A. Mas o que eu gostava mesmo era andar a esmo pela cidade, adorava me perder pelas ruas, tomar ônibus até o terminus, vagar horas pelas periferias, parar em um café e tomar uma aguardente.

Fiz amigos. Tive-os às pampas, e me cercava deles. Se minha Paris não era uma festa, como a de Hemingway no entre-guerras, era sem dúvida uma boa noitada de bar. Nos bares conheci conterrâneos, futuros colocatários, pretensos artistas, estudantes, estrangeiros. Pau, catalão, era meu parceiro de xadrez e Stouts. Havia Guillaume, de Rouen, que muita vez me abrigou em seu sofá na Madeleine, depois de noites em claro. Havia Amir Pachá, iraniano amante de literatura, que bebia vinho até cair e sempre brindava à Omar Khayyam. E havia também Ulrika.

Apesar do nome de procedência germânica, Ulrika era húngara. Conheci-a num bar na Butte-aux-Cailles onde costumava jogar xadrez com Pau. Conversamos trivialidades, mas não me lembro do quê. Mas me lembro exatamente do que pensei quando ela riu de alguma coisa que eu falei: Martina não receberia mais minhas cartas.

Começamos a namorar. Ela estudava psicologia na Denis Diderot e morava longe, em Villejuif, em uma casa de família. Víamos-nos quase todos os dias depois de seu curso. Frequentávamos o Jardin des Plantes, o Montsouris, fazíamos longas caminhadas ao longo do Sena, de Bercy até a Ilha Saint Louis. Às vezes, para desarranjo de meu colocatário, ela vinha dormir em casa… Estávamos apaixonados, éramos felizes juntos.

Um dia, já era final de novembro, ela me disse que iria voltar à Hungria, mas que estaria de volta em dois meses.

Ouvi-a em silêncio; a notícia, entretanto, feriu-me como uma navalhada em minha carne. Era-me inaceitável passar tanto tempo sem ela. Decidi – mas não a informei – que iria vê-la no Natal. Nossa despedida na Gare de l’Est foi dilacerante. Eu sei, dois meses não pareciam muito, mas tente imaginar minha angústia diária em sua ausência! Amir Pachá dizia, ao entornar um Beaujolais de 5 francos, que eu parecia o Karamanlis de Perec, aquele que preferia desertar a guerra de Argélia a deixar os braços daquela pour qui son coeur bat.

Naquele mês de dezembro, passei a trabalhar dois turnos para juntar uma grana, mas as passagens de trem de fim de ano eram apavorantemente caras. Meu dinheiro não era suficiente para viajar, ficar uns dias em Gyor e retornar. Meus amigos, igualmente duros, apoiaram com reservas minha ideia: viajaria de carona até onde conseguisse, e tomaria trens onde o controle fosse menos rigoroso. Assim decidido, empacotei umas roupas, desejei boas festas a meu colocatário e me atirei na estrada em direção do Sol que mal havia despertado.


5040 (I)

dezembro 2, 2015

Quem já foi Córdoba poderá dizer que não há lugar mais aprazível que o Parque Sarmiento para matear e botar o papo em ordem; era ali que Teodoro e eu nos encontrávamos quase todos os dias, nos finais de tarde. Teodoro havia viajado o mundo e não tinha muito mais o que fazer senão frequentar a biblioteca, flanar pelas ruas e rememorar-se. Eu, por força de uns documentos oficiais que demoravam a sair, estava impedido de sair do país e de fazer qualquer coisa que envolvesse minha profissão. De maneira que matávamos tempo. Embora bastante enojado com a coisa toda, estava conformado e, pra dizer bem a verdade – agora que tanto tempo já passou – não reclamava. Era estranhamente bom não possuir futuro, era reconfortante ter sua companhia, e acredito que a minha lhe era passável.

Talvez seja útil contar como o conheci, ao menos para o intuito deste relato. Estudamos juntos em um colégio de padres em Córdoba. Ele era genial. Relacionava-se com todos, inclusive comigo, que era extremamente tímido e retraído. A generosidade inicial foi tornando-se amizade das boas, dessas que só existem na juventude. Eu tinha facilidade com matemática e o ajudava a resolver seus exercícios; em troca ele me explicava grego e filosofia, que eu custava a absorver. Ríamos muito, das coisas mais banais. Nossa galhofa era um desafio à instituição que nos oprimia; nossa amizade era um alento e uma resposta aos muros que nos sufocavam.

Bom, nos formamos, ele foi estudar Literatura em B.B.A.A., eu achei um trabalho numa empresa de contabilidade, fiz curso técnico e fiquei em Córdoba. Víamo-nos de vez em quando, o tempo foi passando, eu segui minha vida, ele seguiu a dele. No terceiro ano da faculdade abandonou-a e mudou-se para a França, nunca entendi com que meios. De vez em quando ele me mandava postais de lugares incríveis, que me marcavam o espírito pelo estranhamento que me provocavam. Confesso que fui me distanciando, talvez por não encontrar palavras para responder-lhe à altura das dele, que dele vinham tão naturalmente. Correspondíamo-nos cada vez mais raramente, até que um dia percebi que não recebia cartas suas fazia mais de um ano. Oficialmente, para mim, nossa amizade havia acabado.

Toquei minha vida: casei-me, separei-me, sem filhos. Consegui, ao longo dos anos, juntar uma bolada. Realmente não vem ao caso falar sobre esses assuntos. Um dia, depois de anos sem notícias, bate à minha porta Teodoro. Abraçamo-nos efusivos, ele me disse que voltou para ficar uns tempos em Córdoba, que cansou do mundo e que precisava de um lugar pra ficar. Como prezasse (e prezo) por minha privacidade, ofereci-lhe a casa de minha mãe, vazia desde que se foi, a duas quadra da minha. Esta oferta, de caráter implicitamente provisório, durou dois anos.

Num desses nossos encontros no parque, enquanto eu curtia uma cuia nova, perguntei-lhe se, com tudo o que viveu, viu e ouviu, não cogitava escrever um livro de memórias ou mesmo uma recolta de contos. Teodoro respondeu-me:

– Confesso que já pensei muito sobre isso. Mas não sei se quero debruçar-me em uma aventura literária.  Sinto nos ombros o peso incomensurável de tudo o que foi escrito antes de mim. Quando ando pelos corredores da biblioteca contemplando os títulos daqueles milhares de livros, sinto abafar-se em mim qualquer ambição prosaica. Tantos já escreveram tanto, com tanto talento, que soa redundante, absurdo, extravagante escrever qualquer coisa válida hoje em dia.

– E suas lembranças? Por mais que existam livros de memórias, as suas são únicas e intransferíveis. Você tem excelente material dentro de si mesmo.

– Sim, mas trata-se de um material amorfo e perigoso; a partir do momento em que trazemos à tona uma lembrança adormecida, ela torna-se ficção. Lembrar-se de algum acontecimento é como retirá-lo de uma redoma sem ar. Ar, como você sabe, é algo que oxida. Lembrar-se tira o objeto passado de seu estado vegetativo, inerte e pacífico e o traz para o mundo poluído, cheio de ruídos e sem qualquer sentido – o presente. Decerto que enfraquece o frágil fóssil mental. Pra que é que se lembra duma lembrança, senão com a intenção dolosa de matá-la?

– Eu, sinceramente, aprecio com gosto esses seus instintos assassinos.

Passei-lhe a cuia, após dar a primeira puxada. Sempre fui bom mateador, e isso significava assumir todo o ritual de preparo e serviço. Ficamos um tempo em silêncio, até Teodoro decidir rompê-lo:

– Bom, sabe que uma lembrança vem rondando minha mente, especialmente à noite, na cama. Relatarei a você, e você julgará se a esta história merece ou não ter seu lugar em papel.


Coincidência

novembro 29, 2015

No calçadão da praia, vi dois garotos e uma garota andando de skate. A menina vinha atrás, um pouco atrapalhada, com uma mochila nas costas.

Depois de dois minutos, outro grupo em skate passou por mim, com a mesma configuração: dois rapazes à frente, uma moça logo atrás.

Acendi um cigarro e aguardei mais dois minutos: outro grupo utilizando o mesmo transporte, na mesma disposição espacial e genérica.

Olhei para o relógio e marquei: um minuto e cinquenta segundos até o próximo grupo passar. Exatamente igual aos anteriores. A menina quase caindo mas rindo, feliz. Estavam todos felizes.

Esperei pelo quinto grupo, mas este não apareceu. Fiquei olhando para o lado esquerdo do calçadão cinco minutos, dez minutos, meia hora. O Sol baixava, brilhava em minha direção e em por causa disso ceguei meus olhos.


Dupla culpa

setembro 25, 2015

– Ah, meus sublimes amigos, adorados anjos afastados, sou grato por tê-los conhecido. Mas vejo-os dilacerados por dúvidas. Ah, a culpa! Ah, remorso e insegurança eternas!

– Sabe o que mais nos dói, mestre? O fato de estarmos aqui, sob esse Sol clemente, sob esse céu de azul tão puro, a contemplar o mar calmo e gigante cujo reflexo dá-lhe um azul ainda mais claro e profundo, como se isso ainda fosse possível! Estarmos aqui enche-nos de culpa.

– Podem me explicar o porquê?

– Assim que pousamos os olhos nesse regalo divino ou sentimos o calor do Sol da tarde tocando nossos ombros, sentimos uma leve sensação de felicidade. E é aí que nos lembramos de todos aqueles que não puderam ou não podem sentir esse maravilhamento. E é aí que nos advém a culpa como uma chuva de chumbo.

– Impecável!

– Deixamos nossas casas, nossos familiares, nossa amada terra para virmos a este pequeno paraíso. Mas sabemos que o mundo é implacável, duro e infernal.

– Não poderiam ser mais precisos.

– E temos todo o tempo que queremos. Podemos fazer o que quisermos, ninguém, nada nos afeta. Os inimigos, deixamo-los para trás. Os incômodos cotidianos quase inexistem.

– Bom para vocês!

– Levamos uma vida frugal, saudável. Temos tudo de que precisamos. O Sol é clemente e nos acaricia…

– Começam a ficar repetitivos.

– Mas basta vir o final da tarde, as primeiras estrelas, basta diminuir o trânsito de carros e pessoas que vemos de nossa sacada para adentrarmos numa espiral de culpabilidade que nos martiriza profundamente.

– Sentem culpa por estarem bem enquanto tantos vão tão mal?

– Exatamente!

– E vocês gostariam que não estivessem tão bem ou que os outros não estivessem tão mal?

– Gostaríamos que todos estivéssemos bem. Nós e o restante da Humanidade.

– Minha pergunta não foi devidamente respondida. Percebam que fiz referência à conjução adversativa “ou”, e não à conjunção aditiva “e”.

– A verdade é que é bom estar bem.

– Então sua auto-punição está ligada a um profundo ódio pelo restante da Humanidade!

– Como assim?

– Se os outros não existissem, não haveria sofrimento; e se não houvesse sofrimento no mundo vocês não estariam sofrendo pela culpa de estarem gozando. Logo a culpa por sua culpa é do restante da Humanidade! Não me admira que a odeiem tanto!

– Mas nós não odiamos a Humanidade! Na verdade nós gostaríamos que todos estivessem bem, felizes, e justamente porque não estão é que nos sentimos culpados por estarmos.

– Sua culpa é essencialmente feita de suas relações com os outros. Ela cessa de existir no momento em que os outros cessam de existir.

– Mestre, o senhor nos toma por desalmados! Como pretende o senhor que queiramos a inexistência dos outros para que nos sintamos livres de culpa?

– Não falei isso. Simplesmente digo que a culpa é uma ideia baseada em outra ideia: a do sofrimento dos outros. Enquanto sejam humanos, terão complacência e comiseração por seus iguais, não?

– Claro! Como qualquer outro ser humano minimamente esclarecido.

– Logo, é normal que a culpa advenha pelo simples fato de que, sendo humano, sinta-se compaixão pelo que lhe resta da Humanidade (a exceção de si próprio).

– Isso é correto, mestre!

– Mas, ao mesmo tempo, torna-se não-digno de piedade aquele que se excetuar do restante da Humanidade.

– Por quê?

– Ora, pelo que vemos, quem sente culpa sente-a em contrapartida ao restante dos homens; logo não vê em si mesmo objeto da mesma compaixão a ser oferecida aos demais. Diferencia-se ao adotar sozinho a culpa que deveria ser coletiva. Não é assim que ensinam as religiões? Que existe uma culpa coletiva, o pecado original pelo qual pagamos todos, nossas ascendências e descendências, inclusive as crianças que mal sabem falar?

– Ô se é!

– Mas vocês se afastam dessa culpa coletiva ao assumir para si mesmo a dor dos homens. Não podem estar bem porque o mundo vai mal. Na verdade, vocês dão por demais crédito a si mesmos como depositários da dor do mundo. Pergunto-me se vocês não são tão somente grandes ególatras ao acreditar na demasiada importância de suas existências em detrimento das demais.

– …

– Eis o que são: ególatras, vaidosos e prepotentes.

– Então, sentir comiseração é um egoísmo?

– Se a sua compaixão pelo outros não recair sobre as suas próprias condições, sim. Se sua comiseração pela Humanidade não se estender a si mesmos, não há muita distância entre o que sentem e o ódio.

– Mestre, estamos perplexos.

– Peguemos um exemplo: vocês acham que todos os homens do mundo estão mal nesse momento?

– Não.

– Devem haver outros que, assim como vocês, estejam vivendo um bom momento sobre a Terra, sem grandes preocupações, sem incômodos, sem problemas a resolver enfim…

– Sim, existem.

– E vocês não sentem compaixão por esses seres?

– Por que deveríamos?

– Porque eles também, assim como vocês, são finitos, têm os dias contados, são os filhos imperfeitos de Deus, e também vivem num mundo imperfeito, e também são pura carne.

– Isso é fato.

– Se isso é fato, também é fato que vocês pertencem à mesma condição e, logo, são objetos do mesmo sentimento. Sem a compaixão por todo ser terrestre, unida de veritável auto-compaixão, toda culpa não é nada além de tormento narcicista.

– Mestre, sentimo-nos culpados de sentirmos culpa.

– Ah não! Aí não! Dupla culpa não é dupla negação, e sim duplo narcisismo! Lembrem-se: nada somos a não ser a poeira dos astros. Aproveitem o calor deste que se digna iluminar-nos diuturnamente e tenham um bom dia!