As Temáticas

julho 7, 2010

Dito por não dito, as ditosas santas deusas do paraíso obliterado clamam por justiça. Os homens, em exercício de eterna vingança prometeica, esforçam-se por ignorá-las, mas em vão! Elas estão acordadas, acesas e inflamadas, como castas sereias de odes entoadoras as quais o canto de mil yaras não abafaria. Eu vejo sucintamente os homens em reunião:

– Qual é a pauta do dia?

Tarde não tardará a resposta das aladas. As temáticas sobrevoam o campo das arenas e têm a seu favor a decrépita vaidade humana. O verbo se economiza para dar vazão à lisa enxurrada de ideias patinantes. Eu vejo canastramente os homens sábios em torno de uma mesa de pesquisas:

– Qual é a pauta da noite?

Contentes ou não, seguem as ictiófagas a realizar sua missão. Pairam dextrógiras entre as rudes solitárias mentes, sedentas de confundir-lhes as flamas, perecer os fetos das ideias e carcomer o que lhes restava da certeza. Contentes ou não, posto que entre a presa e o predador (falha das origens do Universo?) sempre haverá um traço de afeição. Eu entrevejo causticamente os homens numa sala sem saída:

– Qual é a pauta da vida?

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Persona

junho 30, 2010

Sabe senhor, quando eu disse aquilo, não quis dizer de maneira alguma que desaprovo sua atitude, pelo contrário: faço votos de que sua empreitada lhe traga bons frutos. Também o senhor se engana se pensa (como é provável que sim) que lhe quero mal por ter conversado com Camila sem meu consentimento.

De qualquer modo, não vim aqui para isso, mas para transmitir-lhe um recado de que Emanuela me incumbiu: que se dirija imediatamente à casa de Giovani, para dele receber instruções, as quais sinceramente ignoro. Disse-me também que o tempo é curto e que já Frederico desconfia, o que pode levar o plano por água abaixo. Eis minha incumbência. Agora tenha a gentileza de me esclarecer certas coisas:

Quem é Giovani? E Frederico? Quem são Emanuela e Camila, ambas completamente desconhecidas mas que cujas lembranças – supõe-se – deveriam pulsar em minha memória de personagem?

E que é o senhor, qual o seu nome e quais as relações que eu deveria ter com Vossência?

E principalmente: quem sou eu e de que sou feito: de carne ou de vontade de um poeta louco?


Recordar é Morrer

junho 17, 2010

Lembrar de algum acontecimento é como retirá-lo de uma redoma sem ar. Ar é algo que oxida. Tudo, e oxida a vida. A lembrança é como um bichinho que com o tempo vai se decompondo, perdendo os traços, e mesmo a mais estarrecedora delas vai com o passar se tornando mais simpática, mais aceitável, até risível. Lembrar tira o objeto passado de seu estado vegetativo, inerte e pacífico e o traz para o mundo poluído, cheio de ruídos e sem qualquer sentido – o presente. Decerto que enfraquece o frágil fóssil mental. Pra que é que se lembra duma lembrança, senão com a intenção dolosa de matá-la?

É claro que nenhuma lembrança é inocente, ou não as teríamos tão bem encapsuladas em cantos remotos da mente. E isso faz com que, no momento em que a resgatamos, sejamos contaminados por ela, como o arqueólogo que, ao desentumbar uma múmia, seja atacado por uma gripe inerte há quatro milênios.

Francisco de Carvajal, conquistador espanhol, era homem crudelíssimo, conhecido como ‘o demônio dos Andes’. Por conta da guerra civil que liderou junto com Gonzalo Pizarro contra el Rey, foi sentenciado à pena de morte, seu corpo esquartejado e suas partes expostas em vários lugares do Perú. Garcilaso conta que uma criança, brincando com seus amigos, foi cutucar a carniça exposta de Carvajal e afundou demais o dedo na podridão. O pobre adoeceu, perdeu parte do braço e por pouco não morreu. Carvajal – e são assim muitas lembranças – conseguia fazer o mal mesmo depois de morto.


Se o que for pra se dizer fique aqui

junho 16, 2010

Se o que for pra se dizer fique aqui, então direi as coisas que me incomodam, aporrinham ou simplesmente ressoam, ou que carcomem o espírito, ou simplesmente direi as coisas, ou mais simples ainda, direi. Agora, é bom que se saiba que o dito, depois de dito, dito está, ressoa infinitamente no ar, e embora perca a força original com o passar dos séculos e milênios, continua vagando por aí, como as moléculas da saliva do César. O silêncio, no entanto, nem vagamente se desprende: é o vazio das coisas não-ditas e engolidas: não cria história nenhuma, nem eco, nem sombra, e nem sequer vazio.

A inoperância pouco simpática da minha cabeça depois de vinda a esperada idade adulta é algo que me tem feito pensar. No entanto, é incrível como certas coisas que antes me pareciam muito mais complexas perderam muito – metade – do sentido que tinham quando da cabeça hiperativa juvenil. É também incrível que certas coisas jamais pensadas ou proscritas de um pensamento anterior sobrevêm ao espírito atual de forma incrivelmente natural. Incrível? Só podem ser incríveis coisas dessas para uma cabeça pouco operante.

Sobre a primeira coisa incrível: é possível que muitos dos meus pensamentos complexos tenham se desestigmatizados com a vivência ou com a utilização de raciocínios resolvedores. Já para alguns casos é possível que inconscientemente adotei uma postura de esquecimento, de redução, de simplificação do problema pela fuga do pensar. Noutros casos, nem uma coisa nem outra: há coisas que parecem complexas e de fato são, não são resolvidas com lampejos de pensar nem com fuga e simplificação; pairam por aí, irresolvidas, pingentes pendentes de minha mente.

Sobre a segunda coisa incrível: os pensamentos mudam de foco e assunto conforme ganham (ou perdem) corpo, conforme os anos e a vivência vão pesando sobre eles. Deus!: nada de novo nisso, correto? Por que é que então às vezes penso nisso e me surpreendo? Eis talvez a resposta: é que como desconheço minha realidade e quem sou realmente, tendo a olhar para mim mesmo a partir dos meus pensamentos, da minha história interna, somatória distorcida de todos fatos pensados e agidos. Vejo-os mudando conforme vão-se os anos, e vejo-me mudando na mesma toada. Daí o incrível: que continuo não tendo controle dessa situação, como nem nunca tive.

Muita calma nessa hora: é possível ter controle sobre o que se muda em mim? Como quando eu era pequeno, e à noite na cama  ficava imaginando ser uma pessoa X (que era exatamente a pessoa que eu gostaria de ser), esperando que pela simples força do pensamento eu agiria como essa pessoa X, tão logo eu acordasse pela manhã. Mas eu acordava e continuava sendo eu mesmo, e a frustração não era menor do que quando eu tentava levitar meus brinquedos com um passe de mágica aprendido na televisão, e nada, absolutamente nada! acontecia. Como é que se muda a si mesmo por controle próprio? A física permite que isso ocorra?

Vem a mente algo: e se as coisas que vão mudando em mim não me pertencerem de fato? Pois que se não me pertencem, não tenho controle sobre elas. Mas que fazer então do âmago, esse que não muda em mim, esse que é o que é? Desse tenho menos controle ainda, ele é o que é  quase que independente de mim. Quase, porque ele é o que é, ok, mas o é em mim. Bom, pensando dessa maneira não mexo em nada porque nada é meu mesmo, e posso quebrar algum cristal com meu jeito estabanado… No entanto, exatamente esse “quase” infunda o argumento: sendo o âmago “quase independente” de mim, já não pode sê-lo, pois se há algo que pode depender de mim para ser o que é (e que simplesmente é), pode não ser ente separado de mim e, portanto, pode depender de mim, de meus pensamentos e de minha ações para ser o que é.

Então será justamente o contrário? Se as coisas que vão mudando de fato me pertencem, pois que são externas a mim? E se são externas a mim, acessórios ou aparatos do que sou realmente, tenho condições de alterar suas condições e mesmo configurar sua existência, como itens de série que incluo num orçamento? Nem o “âmago” – o que é o que é – me parece tão imutável assim desse ponto de vista, já que seu limite é indefinível e parece que se completa justamente pela ação das coisas exteriores. De forma que tudo não muda: tudo é mutável, e pode formar-se ou deformar-se por minha própria ação. Minha ação, e de ninguém mais. Bom, ao menos no que diz respeito a mim, o mesmo.