Outrora

junho 18, 2010

– Ora bem, vejamos: estávamos onde?

– Contava sobre a ida de seu sobrinho às Índias, meu senhor.

– Ah sim, bem me lembro! E que aconteceu depois?

– Alguém bateu à porta, meu senhor.

– Ah sim, é claro! E o que fiz após?

– Levantou-se de sua poltrona e andou em direção à porta, meu senhor.

– Sim, e o que fiz em seguida?

– Abriu a porta, meu senhor.

– E quem era?

– Era Afanázio, seu mestre de obras, a perguntar se deveria encomendar ou não 700 azulejos, 5 dúzias de achas, 7 lamparinas à graxa e 15 caixas de cerâmica para o piso.

– Ao que respondi…?

– Nada respondeu, senhor.

– O que fiz?

– Não se recorda, senhor?

– Não responda uma pergunta com outra. O que fiz?

– Golpeou-o, senhor.

– Como o golpeei?

– Com uma caneta-tinteiro, senhor.

– Estava onde, esta caneta?

– Sobre a escrivaninha, senhor.

– Pedi-lhe que me trouxesse esta caneta?

– Não, senhor. Foi o senhor mesmo buscá-la.

– Com calma ou apressadamente?

– Com calma.

– E então o golpeei.

– Isso.

– Mostrava eu ter razão para tal?

– Não senhor. Estava sempre amicável.

– Não estava zangado ou receoso?

– Senhor, não.

– Irridatiço, furioso?

– Sempre calmo, senhor.

– E após?

– Não se recorda, senhor? – pausa – Talvez não gostará do que vai ouvir, senhor.

– Ele morreu?

– Sim, ele morreu, senhor.

– Na hora?

– Quase que instantaneamente.

– Bem. E o que fiz após?

– Recitou, senhor.

– O que recitei?

– Odes a Dom Sebastião e toda a sorte de toadas populares.

– Interessante… Agradou-lhe?

– Não muito, senhor, para ser honesto.

– Digo, artisticamente, agradou-lhe esse recital?

– Sim, belíssimo. Esteve excelente, meu senhor. Que empostação!

– O que não agradou-lhe, então?

– Na verdade o que não me agradou foi ver-lhe recitar tão belas eloges ao lado de um corpo estendido ao chão, banhado em sangue. Tais cenas não combinavam muito bem, senhor.

– Não sabe apreciar um espetáculo. Mas então, como estava a contar, meu sobrinho enviou-me uma carta a dizer que se enganou de navio: está agora num negreiro, e só desembarca em Guadaloupe, o coitado. Enviou-me a missiva de Freetown, de onde pensou em escapulir. Foi aprisionado por piratas, o pobre! Sofreu horrores, segundo diz.

– Senhor: o senhor está flutuando.

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Popocatépetl

junho 11, 2010

Nunca tive dúvidas: o vulcão me chama.

Nem nunca tive dúvidas: um dia a hora – esta hora – chegaria.

E para ser sincero contigo, meu honorável inimigo, das engrenagens do tempo eu já conhecia esta data e esta hora: não era Água e Coelho, não era Grama e Serpente, nem era dia de entes rasteiros quaisquer, mas dia da Águia e do Jaguar, e a hora era a undécima, Sol em quase zênite.

Porque hás de convir que nossa vida aproxima-se do apogeu: eu vejo teu peito cheio de medalhas, tu vês minha coroa cheia de plumas. Nossos escudos sempre foram os mais brilhantes e, no meio de uma turba gigantesca de guerreiros em marcha veloz, a léguas de distância, eu te reconhecia e tu me reconhecias. Nós não nascemos príncipes, nós nos tornamos príncipes. Que mais precisaríamos provar aos deuses? Poucos são os homens que em nossa tenra idade chegaram onde nós já chegamos. Estou certo de que tudo o que advirá não passará de uma longa, tediosa e inescapável derrocada.

Honorável inimigo, nós já assistimos a muitas girândolas de homens-pássaros, nos jogos de Quetzacoátl jogamos juntos o caucho, já bebeste o chocolatl oferecido em minha casa e, lembro-me bem, por três vezes repetiste o maíz. Conheces meu pai, minha mãe, apresentei-te à minha mulher e meus filhos. Foste meu comparsa, meu amigo, meu confidente, e como eu admirava tua bravura, tua destreza, tua lealdade!

Se eu tivesse exata consciência do que viria, talvez não teria hoje meus olhos tão embotados, nem meu coração desse jeito, em brasas. Tu não te lembras então daquela noite em que fomos ter com o sacerdote? Todos os maus presságios que ouvimos me deixaram com frio na espinha por duas semanas… Lembras-te do que falara sobre os perniciosos demônios barbudos vindos do oeste? Dos monstros de seis patas e duas cabeças? Das inúmeras traições que nos atingiriam de todos os lados, como um mar de flechas? Mas diz-me: mesmo antevendo o pior, seria possível adivinhar uma desgraça tamanha insensata e infinita como a que tem sido? Seria possível supor que o Sol pararia de girar sobre nossas cabeças, que nosso Imperador seria humilhado e trucidado como um cervo em sacrifício, que nosso povo seria liquidado e pisoteado por uma horda de loucos demônios, ávidos engolidores de metal?

No entanto minha imaginação, por mais fértil que fosse e por mais premunida que estivesse, jamais poderia conceber que tu um dia poderias juntar-se aos demônios, compactuar com eles em troca de promessas vazias e honrarias que não valem a saliva de uma serpente! E finalmente, que pudesses um dia pensar em me trair como hoje o fazes… Mas as obras divinas somente trabalham acima de nossa compreensão.

A flecha que atingiu a dama-vulcão Iztaccíhuatl e a fez adormecer hoje me atinge. Não ouso blasfemar-te. A hora aproxima-se do zênite e é exatamente neste dia que o que tem de ser feito deve ser feito. E que seja feito por tuas mãos, nobre príncipe. Da borda do imenso Popocatépetl que vela pela amada adormecida, eu saltarei do mundo dos vivos e entrarei em rasante no mundo dos ares infinitos.

E tu, honorável inimigo, tu ficarás aqui em cima, sobre o vulcão, e velarás pelo meu voo.


Tarefa: enigma

junho 10, 2010

A Marcelo incumbiu-se-lhe o chefe de tarefa advinda devidamente calcada em envelope de cor vermelha:

Favor: com quantos Teraflops se faz uma canoa?

Marcelo está e é um homem feliz: é empregado da ZydexCo, divisão de tarefas específicas.  No escritório em que trabalha, possui mesa em L e sobre ela retratos de sua mulher (belíssima) e filhos (meigos). Chega cantando: ‘Let me take you down ‘cos I’m going to…’. Ao aproximar-se de sua cadeira, avista envelope escarlate, examina-o antes de vorazmente rasgar-lhe o ventre com o extrator e retirar-lhe o conteúdo.

Examina com extrema atenção as letras formando signos e posteriormente significados.  Vê a frase surgido diante de seus olhos e extrai-lhe um sentido que se anuncia estranho. Vultos passam rapidamente por detrás de sua nuca: imediatamente vira-se: é Margareth, acompanhada de Menezes, que se dirige ao café.

– Favor? Sendo tarefa, e sou pago para fazê-la, devo fazer-lhe um favor? Ou é um favor que me faz o chefe em dar-me esta tarefa? E que é essa tarefa? Devo dizer-lhe obrigado, mesmo sentindo-me obrigado a fazer-lhe um favor que é, em verdade em verdade, tarefa – cuja retribuição (gratidão) já se encontra implícita e tácita (após milênios de luta entre patronato e proletariado) em meu hollerith?

– ‘Com quantos TERAFLOPS se faz uma canoa’. A expressão original da qual se deriva esta, aparentemente sem sentido, é geralmente relacionada a uma ameaça, uma espécie de safanão verbal que quer corrigir pela marra. Dirige-se geralmente a quem se quer fazer aprender, não por métodos educacionais construtivistas, mas por métodos mais, digamos assim, heterodoxos. Portanto, ou não cabe o apelo inicial, ou não cabe a ameaça.

Encaminha-se ao computador e pesquisa a palavra Teraflops. Confunde-se ainda mais.

– FLOPS não está no plural: é abreviação para FLoating point Operations Per Second. A sigla mais infame que já vi. No entanto fornece uma pista: FLoating é flutuante. Como uma canoa. Como vitórias-régias num lago.

– FLOPS  é um medida de velocidade computacional. Não se quer saber com quantos bytes se faz uma canoa, mas sim a que velocidade. Não faz sentido.

– Tera é prefixo para fator 1012 em decimal ou 240 em binário, que é 1.099.511.627.776,  que é um trilhão e uns quebrados. Mas em grego ‘tera’ significa ‘monstro’ e lembra ‘tetra’, ou seja, quatro, e isso tudo tem sentido, já que 1012 = 103.4 = 10004, a quarta potência de 1000. Lembro-me também que na notação SI 1000 é escrito ‘kilo’ ou ‘k’. De qualquer forma, parece-me a variável numérica do enigma.

– Lembro-me de Aristóteles: todas as coisas são em potência e em ato. Ora, a canoa é quarta potência de algo: que algo? De alguma coisa que derivou-se em ato por quatro vezes consecutivas. A canoa é a madeira em ato (por milhares de anos e em várias culturas, é da madeira que se origina a canoa), que é a árvore em ato, que é a semente em ato, que é a primeira potência, ou seja, semente1 = semente, ou então: ela é ato dela mesma.  Assim, a canoa é o quarto ato da semente, ou vice-versa: a semente é a canoa em quarta potência.

– 1000 sementes? Ora, são inúmeras as espécies de árvores que dão origem a madeiras próprias para a fabricação de canoas. Não se está falando disso, suponho.

– ‘Tera’ não me sai da cabeça: há um monstro que se esconde por detrás desse enigma e que quer aparecer (monstrum – latim para mostrar-se). Mas não é um monstro animal, catalogado pela criptozoologia, pois nasce de uma semente, que nada mais é que um óvulo vegetal. Devo, portanto, recorrer à criptobotânica. O Ya-te-veo, por exemplo, é uma árvore mítica da América Central que, dizem, chega a engolir pessoas inteiras vivas…

Nesse ponto, Menezes e Margareth voltam do café e passam rapidamente atrás de Marcelo, que se assusta. Frio na espinha de Marcelo. Cumprimentos circunspectos com olhares.

– Trouxe o guarda-chuva, Marcelo? Vai cair um toró violento…

Limita-se Marcelo a sorrir vagamente. Os dois continuam apressados, deixando atrás de si um rastro de odor de cigarro.

– Um monstro vegetal que flutua? Não faz o menor sentido. Uma semente que produza monstros flutuantes… Monstros flutuantes podem ser monstros de fumaça, de delírios, de sonhos. Sim, é isso: não se está falando de monstros imaginários que nascem de sementes,  mas do imaginário que produza monstros… a partir de sementes??

Relâmpago. Um clarão invade o escritório. Trovão. Marcelo assusta-se: crê ter descoberto de que se trata a carta, mas não quer acreditar.

– Centeio. 1000 grãos de centeio intoxicados pelo fungo Claviceps purpurea – também causador de envenenamento por ergotismo ou Fogo de Santo Antão bastam para gerar uma dose mortal da substância alucinógena mais potente já gerada pelo homem: a dietilamida do ácido lisérgico, ou LSD.

Marcelo vasculha o lixo e dele retira o que sobrou do envelope escarlate. Dentro dele encontra um mini-envelope também escarlate colado internamente. Rasga-o com fúria e descobre uma grande quantidade de selos adesivados com desenhos impressos. Examina os selos mais atentamente e num deles vê a figura de Aristóteles, noutro uma vasta plantação de que supõe ser morangos, noutro a imagem de Santo Antão. Nos demais vê a logomarca inconfudível que leva diariamente em seu crachá. Levanta-se e corre à sala do chefe, que o recebe calmamente:

¿Que pasá?

– Que merda é essa? – grita, jogando os selos sobre a mesa de mármore.

No és nada, no és nada. En verdad, en verdad, os digo: ¡ese mundo és todo mio!

– Nada quero dele!

¡Eso no és para vos! Nada conoces de los secretos de esta Compañía. Yo ya, yo. Y de aquí me voy hacia otros paraderos. Tendrás mucho tiempo para entender los diseños de este mundo y comprender que todo está escrito y explicado en alguna parte, sólo debes saber leer todo lo que llega a tus ojos.

Pega apressadamente os selos e começa a colá-los em sua nuca. Faz pausa, joga-se em sua poltrona e fita Marcelo.

Tu, tu te quedas em mi lugar. Yo, ya, yo, de aquí me voy hacia… no sé, que sé yo? Adiós, adiós, mi hijo, mi dulce hijito, muchas gracias….

Marcelo paralisa-se enquanto vê o chefe, já apagado, flutuando junto com sua poltrona, uns quinze centímetros do chão.