Fim das Tardes – Selva Morale (V)

outubro 18, 2016

 Agora, da janela de meu apartamento, dou de cara com a espessa névoa de fumaça que encobre a quase totalidade do Mestre Álvaro. Quem não o conhecesse não distinguiria sua silhueta em meio ao fumacê. A origem deste fenômeno está no que chamam de turfa, esse monte de planta em decomposição à espera de virar, daqui a milênios, carvão. Há, entre o conjunto habitacional em que habito e a enorme montanha, uma planície pantanosa e devoluta. Na época seca, os gases dali advindos criam ambiente propício para combustões espontâneas. Qualquer bituca de cigarro ou vela de despacho podem fazer estragos monumentais. Há dias vejo de minha janela os bombeiros se movimentando. O que podem fazer, os coitados? Meros esguichos de água nada podem contra essa imensidão em brasa, essa terra ardente que se comunica diretamente com os fogos subterrâneos dos infernos.

Quando o vento vem do mar, vai-se ao menos a fumaça, mas cria-se um impasse. Afinal, o que é melhor: respirar o refugo tóxico da queima da turfa ou o ar carregado de pó de hematita proveniente do Porto de Tubarão? Confesso que não sei a resposta. No entanto, inalo-a todos os dias. Tomo um café preto, um pedaço de pão seco e parto.

De posse do Uno branco, sigo em direção a Cariacica pela rodovia estadual. Abro a janela, pronto para fumar, mas inundo meu carro de compostos sulfídricos e desisto. No posto de gasolina lá está o SUV de Sr. Marchetti. Dou-lhe sinal de luz, ele passa a me seguir. Vamos juntos até o terreno de Sr. Sibert, que nos aguarda. A vicinal que nos leva até lá é longa e cheia de buracos. Há barracos, terrenos baldios, pequenos comércios, pontos de ônibus, algumas indústrias, uma capelinha da época colonial em ruínas. Chegamos.

A porteira está aberta, entramos e estacionamos ao lado do carro de Sr. Sibert. Comprimento Sr. Marchetti, que me orienta, a boca pequena:

– Não comente nada sobre o terreno de Conceição da Barra.

Sr. Sibert chega. Salamaleques curtos e usuais. Dispõe-se a nos mostrar a propriedade: quadradão de 5.000 m2 em aclive, alguns muros de arrimo nas encostas, caminhos parcialmente britados. Poucas árvores espalhadas pela propriedade. Mato alto. Abandono de pelo menos seis meses. E principalmente, no meio de tudo: o matadouro.

Eis imóvel com alto pé-direito, todo em alvenaria, cor branca. Precisa de muitos reparos, é verdade, mas parece operacional. Interior produtivo azulejado, nos pisos e nas paredes até 2,60m. Teto com isolamento térmico. Maquinários para abate, mesas de corte e esteiras de içamento bastante depreciados mas em condição de serviço. Ambientes frigorificados. Imensas câmeras de congelamento em chão de cimento queimado e paredes com isolamento. Mezzanino com escritório para 10 pessoas.

– Quantos porcos o Senhor costumava abater aqui, Sr. Sibert?

– Olha, dá pra abater uns 500 por dia. Se converter para abate bovino, aí vira fácil uns 200 animais por dia.

Enquanto conversam, analiso uma mancha no chão. Aproximo-me, cutuco. Está dura e me parece irremovível. É sangue encrostado. Percebo agora que há manchas parecidas com essa em vários locais. As paredes do abate, por exemplo, possuem dezenas delas. Creio tê-las visto pulsando, como se fossem lesmas vivas.

– Essa parede possui viga?

– Não, isso é só tijolo. As vigas estão bem espaçadas, eu mesmo verifiquei isso durante a construção. Dá pra abrir tudo. Se o Senhor quiser quebrar as paredes, só precisa verificar as fiações e o encanamento.

– Isso me anima. De repente isso aqui vira um Centro Logístico. Quantas docas?

– Quatro. Tem espaço pra mais. E o Senhor viu o tamanho do pátio…

As manchas, vejo-as amolecendo: tornam-se líquido viscoso e escorrem para o canal de esgoto central. O canal abarrota-se de vermelho; transborda a gosma para o piso. Olho para cima, para a esteira de içamento. Vejo ganchos, e nos ganchos porcos soltando guinchos horríveis, pavorosos. Não deve haver na Terra som tão dilacerante.

– O Senhor deve ter percebido o pé-direito. Dá para colocar estoque vertical em quase todo o piso. Eu já antevia a possibilidade de conversão deste prédio.

– No que fez muito bem. Nunca se sabe o dia de amanhã.

Vejo cenas de esquartejamento mecânico, porcos degolados com canivetes elétricos, carcaças penduradas pela perna esvaindo-se em cachoeira rubra. Quantos litros de sangue possui um porco? Vão passando dezenas deles sobre minha cabeça. Sangue respinga em minha camisa e em minha calça. O cheiro é potente, a náusea me engole, vejo de repente a boca que beijei ontem, a boca de carne de Sílvia, o corpo de carne de Sílvia, vejo o vácuo, sinto premente o vômito…

Saímos do prédio. Sr. Marchetti tapeia as costas de Sr. Sibert, camaradando:

– Pois é, Sr. Sibert. O Senhor tem um bom patrimônio nas mãos… É uma pena vê-lo assim, em abandono… Interessa-me, a princípio interessa-me, mas o Senhor há de convir que há muitas benfeitorias a fazer aqui para torná-lo atrativo… Meu terreno, o Senhor sabe, está prontinho para o que o Senhor quiser plantar. Não consigo fazer essa troca a limpo, como o Senhor sugeriu. Além disso, como pagaríamos a comissão do nosso amigo aqui? A menos que, sei lá…

– A menos que o quê?

E então Sr. Marchetti abraça o interessado Sr. Sibert e o leva para longe de meus ouvidos, enquanto cochicha no dele. Vejo-os conversando, vejo-os gesticulando e movendo as bocas, mas nada disso me interessa. Só consigo enxergar agora uma única boca, uma grande boca feita de carne moída. Ainda ouço os guinchos dos porcos, mas abafados pelo isolamento acústico do prédio, que julgo eficiente. Um pequeno córrego de sangue forma-se a partir do canto do prédio e segue o caminho de brita até a entrada do terreno. O córrego torna-se torrencial e encharca meus sapatos. Petrifico. Minhas meias estão secas. Penso novamente em Sílvia.

Voltam abraçados.

– G***, quando poderemos ver a papelada?

– A papelada? Como assim?

– Meu amigo José Sibert aqui e eu fechamos negócio! E aí, em quanto tempo teremos a papelada?

– Costuma levar de duas a três semanas para a liberação de documentação em todos os cartórios, Sr. Marchetti. É o procedimento padrão.

– Mas nós não somos clientes do tipo ‘padrão’, não é mesmo, G***?

Pisca-me discretamente com o olho que o nariz esconde de Sr. Sibert.

– Claro que no seu caso, eu conseguirei para o começo da semana que vem. Os do Sr. Sibert já tenho todos, faltam somente as certidões do cartório de Santa Teresa, que saem amanhã, não é isso, Sr. Sibert?

– É exato!

– Excelente! Até lá, creio que podemos assinar um pré-acordo de intenções. O que me diz, G***?

– Da nossa parte, não vejo problema algum. Posso providenciar isso para essa semana mesmo.

– Ótimo! Vamos comemorar! E aí, José, onde é que tem boteco nessa piromba?

Despedimo-nos. Antes de partir, Sr. Marchetti cochicha em meu ouvido:

– Você é demais, meu rapaz! Joguei um verde e nem precisei falar mais nada, ele mesmo ofereceu o terreno! Tá tudo correndo bem… Consiga aquelas documentações com seu amigo do cartório e o terreno será seu. Sobretudo, não envolva a imobiliária nesse negócio. E não comente nada ao Sibert, ouviu bem? Vai dar tudo certo!

Na volta para a Serra, a fumaça espessa-se; conduzo lentamente. No rádio comentam o pânico das comunidades vizinhas ao incêndio. Um brigadista sustenta a hipótese de ação criminosa com fins especulativos. Todo ano é assim, penso. Ao meu lado esquerdo o gigante maciço com nome de mestre paira sobre gases. Ao meu lado direito vai um ônibus carregando na rabeira quatro meninos de bicicleta. Um deles, de garupa, filma a algazarra. Todos parecem muito felizes.