Fim das Tardes – Selva Morale (IV)

Agora recebo no peito uma suave brisa atlântica. No cristalino, vindo das águas marinhas, um tratado completo sobre todos os possíveis tons de azul, muitos deles inimprimíveis em sistema CYMK. Nos tímpanos, o efeito Doppler das ondas batendo na areia da direita para a esquerda, misturado ao desvio para o grave do som das buzinas em direção oposta.

Vejo adiante, boiando sobre a linha do horizonte, um navio cargueiro chegando. Minto, não se parece em nada com um Panamax. Chega mais perto: não são pilhas de contêineres o que leva em seu convés. São velas, dezenas delas, grandes e pequenas. A embarcação aproxima-se. Há rubros emblemas inscritos nas velas. São Cruzes da Ordem de Cristo. Agora é perfeitamente visível: é uma caravela portuguesa. Descola-se da água. Sobrevoa as ondas que se chocam às pedras. Sobrevoa a praia e a procissão de índios que carregam o corpo de Anchieta, o rei Ubu. Lentamente flutua sobre a avenida Beira-Mar, sobre os vendedores de coco, de tapioca, sobre a meninada que brinca no parquinho. A caravela vem em minha direção e se chocará logo mais contra a varanda do prédio em que me encontro. Consigo distinguir, em meio a balbúrdia de barbados no convés, Vasco Fernandes Coutinho, o primeiro dono desta capitania. Ele acena e dá uma piscada. Chega tão perto que consigo ver seus lábios balbuciando: “É nóis!”…

Uma voz ansiosa interrompe a cena:

– E então? Quanto você acha que vale?

– Oi? Desculpe-me, me distraí. Essa vista é muito linda.

– É mesmo, não é? E tem essa brisa o dia inteiro. Tive que envidraçar a varanda.

– Essa vidraçaria eu conheço, é muito boa. Excelente acabamento.

– Fiz toda a reforma com um arquiteto muito bom.

– Você tem muito bom gosto. Isso valoriza bastante o apartamento.

– E então? Quanto você acha que vale?

A mesma pergunta em menos de um minuto! As pessoas em geral costumam ser mais discretas. Seu sotaque mineiro é bastante pronunciado. Zona da Mata? Juiz de Fora?

– Não sei, preciso avaliar todos os detalhes. Seu apartamento é muito bom, mas tenho que levar em conta a localização, o entorno, o prédio como um todo, entende?

É preciso que se diga: não sou corretor somente. Tenho carteira de avaliador de imóveis também, CRECI 0045869, e faço meus bicos por fora. Tem mês que chego a ganhar mais avaliando imóveis do que com a corretagem. Claro que sei quanto vale o apartamento, conheço o mercado. Mas também é claro que sei sobrevalorizar meus serviços.

– Olha, eu sei quanto vale, ok? Teve um corretor que disse que eu poderia pedir um milhão e meio nesse apartamento fácil, fácil.

– Ok, pode até ser, mas a senhora não precisa de um avaliador para dizer quanto o mercado paga, e sim quanto efetivamente vale, não é? Afinal, a senhora não quer vendê-lo, e sim colocá-lo no seu… processo, não é isso?

– Sim, é isso mesmo. Fuma?

– Aceito.

Ela, óculos escuros sobre o coque de cabelos enlourecidos, tira o maço de Marlboro vermelho da bolsa, saca um cigarro, oferece-me outro, acende ambos e se escora na sacada. Sigo-a, confuso. Por que aceitei esse cigarro tão naturalmente? Eu que conheço meu lugar; eu que faço do formalismo barreira e refúgio, cedo docilmente ao trato pessoal que ela impôs. Tratá-la por senhora não faz, de fato, o menor sentido: não deve ter mais do que trinta anos. Ela parece refletir e fala olhando para o mar:

– A gente tinha acabado de se casar quando meu marido comprou esse apartamento. Faz nove anos; a gente ainda se amava naquela época!

Para meus propósitos, a única informação útil em sua fala é o numeral nove. Retenho-o.

– Eu me lembro, na época, que ele pagou um milhão…

Obtenho então todas as informações necessárias para meu discreto cálculo. Todo o restante é procedimental. Considero juros de mercado. Anualizo. PV = 1.000.000, n = 9. i = 10% a.a. Ela quer dois milhões e trezentos; o mercado – ambos sabemos disso – não oferece mais do que um milhão e meio. A disparidade entre vontade e realidade é de oitocentos mil. Meu salário, evidentemente, não chega a um cêntimo disso – e ambos sabemos disso.

– Qual é seu nome mesmo? – ela pergunta.

Fizesse eu uso, por pudor literário ou anseio de anonimato, da tradição tipográfica novecentista, meu nome estaria resguardado sob os caracteres G***. Mas já estamos distantes quase duzentos anos de tais idiossincrasias e eu entendi perfeitamente o sentido de sua pergunta. Mostro-lhe displicentemente meu crachá exposto sobre o peito e respondo-lhe:

–   Você está sozinha aqui?

– Sim, meu marido está em C*********, não pôde vir. Você sabe, é ano eleitoral…

E então, à noite, tomo o banho mais demorado de minha vida, corto minhas unhas, ponho a jaca mais estilosa que possuo, dou um tapa num banza velho escondido na gaveta, encontro-a num barzinho qualquer da Rua da Lama, tomamos cinco garrafas de cerveja, vamos até o apartamento em litígio e trepamos até a exaustão.

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