Fim das Tardes – Selva Morale (III)

Agora estou sobre a terceira ponte, essa que, ao levantar-se com calma da Vila Velha, sobe uns 70 metros sobre o canal, curva-se e chega abrupta à capital. De posse do Uno, contemplo a paisagem, andando devagarinho pela pista rente à borda. Observo, da direita para a esquerda, o panorama inengolível de complexos objetos assim dispostos: a) Morro do Moreno; b) canal desembocando no vasto Oceano de Atlantis; c) alcateia de navios-sonda aguardando atracagem; d) ilhas do Boi e do Frade; e) Porto de Tubarão, a.k.a. Ucrânia; f) praia do Camburi; g) matilha de prédios das praias do Canto e Suá; h) caixote brutal e inacabado do Mendes da Rocha; i) tartarugas do projeto Tamar; j) canal de Santa Maria em direção ao centro e montante; k) cinco gigantes rochas graníticas que impedem o traçado retilíneo do canal; l) velho mosteiro colonial de inspiração cubista, evidência arquitetural contrária a cláusula cronológica. Não sem motivo, recebo no espelho luz alta do ônibus seletivo, acompanhada de perigosa aproximação à traseira.

Tenho compromisso em cinco minutos com Sr. Marchetti (pronuncia-se Marquéti). É ele quem detém a propriedade da fazenda em Aracruz. Nosso ponto de encontro é bastante insólito: curva da Iracema, quiosque número 2, mesa ao fundo. São onze da manhã, acabo de voltar de duas visitas frustadas enquanto esse homem tem a têmpera de convocar-me para reunião diante da praia, seguramente com copo de cerveja na mão.

Fato. Enquanto suo em bicas – debalde – dentro de um paletó preto de microfibra, Sr. Marchetti veste bermuda, mocassim e estranha camiseta polo com escritos indecifráveis. Completam o quadro os óculos escuros – decerto úteis diante da penumbra do salão – e o celular, inseparável de sua orelha mesmo ao cumprimentar-me; aliás, faz um salamaleque sem entusiasmo, com a mão esquerda desocupada dobrada ao meio, sem mover-se da mesa ou fazer menção de levantar-se. Eu, já acostumado a encontros descorteses, finjo ânimo e chacoalho sua mão à inglesa, talvez mais do que deveria. Seu olhar severo trai sabe-se lá que ojeriza, se a mim ou ao interlocutor do aparelho.

Não está só: há uma pessoa a sua frente, que me cumprimenta desinteressadamente. Há, no meio deles, um balde cheio de gelo e duas garrafas de cerveja. Sr. Marchetti finaliza a chamada, dirige-se a mim:

– Me deixa terminar essa conversa aqui com o Davi e eu já falo com você, pode ser? Vai conversando com o Alex ali, enquanto isso. Toma um gole?

Cedo. Não recuso um copo de cerveja com esse calor todo. Há atrás de mim um senhor, em pé, na mesa ao lado. Vestia uma camisa social verde água, sem gravata.

– O Marchetti ali me falou que você trabalha com imóveis…

– Pois é…

Então, para minha estupefação, Alex ri com todos os dentes, uma gargalhada de cachaça, com a língua frouxa e certo charme. É que o “Marchetti ali” acaba de fazer alguma piada interna, com voz propositalmente alta para chegar a seus ouvidos. Nesse momento percebo que a palavra escrita na sua camiseta polo não possuía nenhuma vogal. Seria alguma mensagem cifrada da Kabbala?

– Então, peço deculpas pelo camarada. Ele parece sério, mas você não o viu na lancha depois de 19 garrafas de cerveja no cocoruto. Alucina! Ele a-lu-ci-na!

Sr. Marchetti ri, como que esperada a resposta à blague. Eu, embora em chamas, permaneço em silêncio.

– Não sei se você está a par: a superintendência lançou uns lotes quase de graça na Serra; é barbada! Lembra da FUNAI durante Geisel? Pois é, mesmo naipe, mesmo presente!

Meu interesse pelo folder tendendo a zero – eu era só uma criança sob Geisel -, Alex passa a outro ataque:

– Você já deu uma olhada nesse projeto do porto em Presidente Kennedy? Nem Roterdã possui esse calado! Projetado pra escoamento via minerioduto e trem de carga. Multimodalidade assim, nem em Tubarão, meu filho!

– Interessante…

Passeio pelo folder com o mesma vontade de potência de um filósofo schopenhaueriano. Engulo o resto de meu chopp. Alex encachaça-se, não se dá por vencido e aborda-me sobre meus possíveis clientes que necesitem de revisão contábil e fiscal. Você sabe, não está fácil pra ninguém. O Sol, esse eterno, brilha nos copos e felizmente Sr. Marchetti me chama. Sento-me ao lado de Davi, que preenche meu copo com espuma.

– E então? Trouxe os papéis?

– Sim, consegui. Esse José me enrolou um pouco e me passou documentação incompleta. Mas acabei conseguindo a escritura do imóvel graças a um parceiro meu no cartório.

– Deixe-me ver.

José, um Sibert de Santa Maria de Jetibá, possui belo terreno urbano em Cariacica com um frigorífico desativado. Propõe troca a limpo – sem grana – pela fazenda em Aracruz. Dispõe-se a incluir todos os ativos de seu terreno na troca.

– A princípio, não me interessa. Que é que eu vou fazer com uma fábrica parada? Além disso, tenho que pagar sua comissão. Pago o quê, se não há dinheiro, só escambo?

– Sr. Marchetti, se me permite dizer, refleti sobre isso. Meu parceiro também descobriu que esse José Sibert possui um pequeno lote urbano em Conceição da Barra, dez de frente, dez de fundo. Talvez seja interessante pedi-lo em contra-proposta…

– Rapaz, você não dá ponto sem nó, hein? E o que faz você pensar que ele aceitará a proposta?

– Sei lá, um sentimento… Imagino que ele já deve ter contrato com a papeleira, só lhe falta onde produzir o pinheiro. Produzir em Cariacica ele não consegue, o terreno é pequeno. Além disso, ele adorou sua propriedade, Sr. Marchetti! Está aberto a negociação.

Sr. Marchetti pensa; faz gesto de pensar ao menos. Olha para a papelada e encara Davi, demandando-lhe tácita opinião. Este, em silêncio, gesticula favoravelmente, torcendo a boca e o queixo para frente como um Marlon Brando.

– Lote em Conceição da Barra, hein? Bom, vamos ver esse terreno dele então. Mas vou te pedir um enorme favor – para nós dois!

Acende um cigarro, aproxima o corpo em minha direção como um gesto de boa vontade – quiçá o primeiro! e dispara:

– Talvez, para um melhor relacionamento, seja melhor deixarmos a imobiliária fora desse negócio, o que lhe parece? Eu serei grato, José – tenho certeza – também, e você ganhará um quinhão que jamais levaria por vias normais. Justo, não lhe parece, Davi?

Davi aquiesce, fazendo uso da segunda vértebra. Alex, lá detrás, acompanha o voto. Eu, como Champollion, até então entregue à decifração dos quatro caracteres impressos em alto relevo sobre a camiseta de Sr. Marchetti, sinto-me obrigado à reação:

– Beleza.

– Ótimo! E quando poderemos ver o terreno?

– Quando o senhor estiver disponível.

– Pode ser amanhã?

– Verificarei com o proprietário e retorno ainda hoje, Sr. Marchetti.

Saio pensativo e estranhamente leve. YHVH. Ípsilon, agá, vê, agá. Já vi isso em algum lugar. Mas onde? Dentro do Uno branco, ligo o ventilador no máximo na tentativa de expulsar o mormaço acumulado. No semáforo, assisto passivamente a um menino negro fazendo acrobacias com bolas de tênis.

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