Fim das Tardes – Selva Morale (II)

Agora estou sentado diante de minha escrivaninha, no escritório. Diante de mim há uma tela plana de computador; o sistema está aberto e vejo minha agenda para hoje: Davi em Laranjeiras às 09:30, sala comercial para aluguel. César em Carapina às 10:30, sala comercial para compra. Maria de Lourdes em Barcelona às 12:30, casa em condomínio fechado para compra. José em Aracruz às 14:30, terreno para compra. Pedro em Carapina às 17:30, casa para aluguel (a confirmar).

Tento rememorar o sonho que tive à noite. Eu era um Deus e reescrevia o Gênesis. Mantive-me fiel à proposta hebdomadária da criação; ao contrário do hebreu, eu era um Deus atento às minúcias da física quântica e da astrofísica e menos afeito a alegorias. No primeiro dia não havia nada, todas as coisas do Universo cabiam no espaço de um átomo; explodi-as. No segundo dia tudo era uma imensa sopa de partículas sub-atômicas; deixei-as fervilhar. No terceiro dia criei os átomos simples, fiz surgirem os primeiros aglomerados de matéria. No quarto dia criei as estrelas, as primeiras constelações, as galáxias, e Eu vi que não era nem bom nem mau. No quinto dia fiz nascerem os sistemas planetários, e mais especificamente esse do qual me ocupo. A Terra – bem como todos os outros planetas – nasceu nesse dia, e era uma bola amorfa de fogo. No sexto dia expulsei da Terra suficiente matéria para compor a Lua, endureci a crosta da Terra e sobre essa crosta fiz nascer grossa camada de água e, mais acima, de ar. E somente no sétimo dia fiz da crosta terrestre palco da vida, palco das inúmeras evoluções e mutações das espécies, de extinções e involuções. Finalmente, quase no fim desse dia, criei o homem em tudo a mim dessemelhante e lhe disse: “És livre. Vai e anda por toda essa terra que te pertence.” Não me lembro se realmente falei isso em meu sonho.

Mas lembro-me de ter deixado claro – eu enquanto Deus –  que a terra pertencia aos homens. Nesse ponto eu acordei, não sem o amargo sentimento de ter compactuado no último segundo com o Deus  bíblico, o da imagem e semelhança, o do “crescei e multiplicai-vos”, o do “espalhai-vos sobre a terra abundantemente”. Com o uti possidetis assim entranhado no pensar, como pode o homem achar que não é dono de tudo o que há para pisar?

Tomo o Uno para chegar aos meus compromissos. Sobre estes, uma estatística pessoal: menos de 5% de minhas visitas transformam-se em contratos assinados. Está um pouco abaixo da média, mas não chega a ser escandaloso; há corretores em pior situação que a minha: Abigail, Abraão e Albuquerque não atingiram nem 3%. Esses não sobrevivem muito tempo. Mas que fazer? É sempre possível responsabilizar a crise, essa dúbia e cruel devastadora de lares e sonhos.

Meus três primeiros encontros foram infrutíferos. O último do dia havia sido cancelado. Dirijo-me a Aracruz pela BR-101. Almoço rapidamente num posto à beira da estrada. Rebato o buffet com leite queimado. José – possível cliente – deseja conhecer um terreno que está em nosso portifólio há mais de dois anos. O terreno tem 20 hectares, margeia a estrada secundária que dá acesso à BR e à cidade, é metade plano e metade acidentado. Tem um riachinho que beira o outro lado. Toda a mata legal, no entanto, se encontra na área mais íngreme do terreno, o que te deixa a melhor parte para cultivo ou criação.

– Tem mina d’água?

– Ô! E abundante! No meio da mata.

– E a mata legal? Chega aos 10%?

– Não vou mentir pro senhor: 6%. Mas o senhor conhece a cidade… Aqui a fiscalização é mais tranquila…

Todo corretor depara-se, cedo ou tarde, com algum dilema moral advindo de assimetria de informações. Vai de seu escrúpulo (ou necessidade) revelar ao cliente o que não lhe interessa. Esse lindo lote, aparentemente fértil, é estéril. Nem café, nem mamão, nem pimenta, nem mesmo braquiária, nada que se plante ali cresce e floresce, nada vinga, apesar da vizinhança reconhecidamente produtiva. Tenho por mim que ali viviam aimorés; foram dizimados; seus corpos foram deixados no chão, sem cova cristã. Aquele pedaço de mundo é amaldiçoado.

– Tá ótimo, tá bom até demais. Vou plantar eucalipto mesmo… Se essa nova lei sair e floresta plantada passar a computar como reserva legal, eu tô é feito!

Sem dúvida, é uma boa ideia plantar eucalipto nesse terreno: não há cultura que exaura mais o solo. Aqueles paus nus e tesos esgotarão da terra seus últimos recursos, e junto deles sua história ignóbil. Não se dizia que depois da guerra o pão sempre vem com gosto de sangue? E o trigo parece brotar com mais vigor? Da mesma forma, um armário feito de MDF vendido nas casas Dadaulto conterá a alma de algum aimoré morto enquanto dormia.

– Aceita permuta? Tenho um terreno em Cariacica com um frigorífico desativado…

– Posso propor ao proprietário sua oferta. Se o senhor puder me enviar a escritura desse terreno para que eu dê uma olhada…

Despedimo-nos. Volto pela estrada secundária. Quinhentos metros antes de entrar na BR, entrevejo o belo mosteiro budista. Por um momento penso em entrar; sempre quis conhecer. Parece bem guardado. Penso melhor: está tarde, talvez outro dia.

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