Fim das Tardes – Selva Morale (I)

Estou comprimido entre o mar ressacado e o que sobrou da restinga. Estou em pé fumando e observando as ondas furiosas, cuidando para que a areia molhada não suje meus sapatos pretos. Há barcos de pesca estacionados na boca da praia: quem é louco de ir pescar com o mar nesse estado?

Estou na praia de Manguinhos e é fim de tarde. Esse é meu refúgio há muito tempo; ninguém sabe disso. A praia está sempre deserta, nunca trouxe comigo pessoa alguma. Gosto daqui. É o único lugar na Terra em que consigo me sentir em paz. Minto: também gosto de observar o mar do alto das dunas de Guriri. A retidão daquela praia, que admiro da direita para a esquerda, me faz pensar nesse imenso infinito que é o Universo.

Sou corretor de imóveis. Vendo e alugo terrenos, casas, apartamentos. Ultimamente tenho pensado sobre a natureza dos produtos que negocio. Na verdade, tenho pensado sobre a natureza de todas as coisas. Os nomes, por exemplo. A toponímia. Gosto de analisar os nomes dos lugares, dos bairros, das ruas, dos edíficios. Gosto também das tardes caindo devagarinho, sem pressa, pra detrás do mar. Minha mente é um lugar selvagem.

Apago geralmente o cigarro na sola úmida de meu sapato. Equilibro-me na areia tombante da praia, busco a saída, aprecio novamente o mar. Às vezes acendo um novo cigarro e me apóio numa das canoas. Todos sabem que a cor desse mar é meio marrom, meio bege, mas ele é bem limpo. Lá atrás dele, quase perto da linha do horizonte, há uma faixa de água mais verdinha, quase azul. Talvez seja o reflexo do céu. Se o céu não fosse azul, talvez o mar fosse totalmente escuro.

Voltadas as costas para o mar, os olhos se enchem de terra. A terra onde o homem pisa é terra dividida. Acho que nunca pisei em chão que já não tivesse sido demarcado, loteado, topografado. Toda terra que eu conheço pertence a alguém, a algum ente físico, jurídico ou estatal. Mesmo o Mestre Álvaro, imponente maciço que vigia esta enorme planície, tem seus donos. Como é possuir uma montanha? Como sente-se a montanha ao ser pertencida?

Estou diante de casas bastante atraentes. Manguinhos é um bairro pacato, a violência é esparsa, as ruas são de areia e mantidas assim pela associação – que tem seus parceiros na prefeitura – para evitar especulação. Você tem aqui um espaço privilegiado a cinco minutos do centro da Serra. Posso lhe contar meu sonho? Pretendo um dia juntar grana suficiente para comprar uma casa dessas, a beira-mar, numa praia assim, semi-deserta. À noite contemplarei a praia escura, o mar sem luz, e minha visão fará a curva da Terra e chegará ao Continente do qual foram arrancados meus bisavós.

Meu carro é um Uno branco. Na verdade não é meu, uso-o, pertence a empresa. Saio pelas ruas de areia em busca da rodovia. Passo pelo grande empreendimento de lotes residenciais que comercializo, o Key Biscayne. Na verdade é uma extensa várzea terraplanada com um pequeno manguezal no meio, desses que dão nome ao bairro e que outrora populavam a região.

Estou em casa e é fim da tarde. A noite inunda de breu os cômodos. Estou sentado no sofá da sala, em silêncio, postergando a incandescência até o limite do incômodo. Adiarei meu jantar – frugal – até o limite da fome, bem como minha ida à cama – solteira – até o limite da estafa.

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