Fim das Tardes – Selva Morale (III)

março 8, 2016

Agora estou sobre a terceira ponte, essa que, ao levantar-se com calma da Vila Velha, sobe uns 70 metros sobre o canal, curva-se e chega abrupta à capital. De posse do Uno, contemplo a paisagem, andando devagarinho pela pista rente à borda. Observo, da direita para a esquerda, o panorama inengolível de complexos objetos assim dispostos: a) Morro do Moreno; b) canal desembocando no vasto Oceano de Atlantis; c) alcateia de navios-sonda aguardando atracagem; d) ilhas do Boi e do Frade; e) Porto de Tubarão, a.k.a. Ucrânia; f) praia do Camburi; g) matilha de prédios das praias do Canto e Suá; h) caixote brutal e inacabado do Mendes da Rocha; i) tartarugas do projeto Tamar; j) canal de Santa Maria em direção ao centro e montante; k) cinco gigantes rochas graníticas que impedem o traçado retilíneo do canal; l) velho mosteiro colonial de inspiração cubista, evidência arquitetural contrária a cláusula cronológica. Não sem motivo, recebo no espelho luz alta do ônibus seletivo, acompanhada de perigosa aproximação à traseira.

Tenho compromisso em cinco minutos com Sr. Marchetti (pronuncia-se Marquéti). É ele quem detém a propriedade da fazenda em Aracruz. Nosso ponto de encontro é bastante insólito: curva da Iracema, quiosque número 2, mesa ao fundo. São onze da manhã, acabo de voltar de duas visitas frustadas enquanto esse homem tem a têmpera de convocar-me para reunião diante da praia, seguramente com copo de cerveja na mão.

Fato. Enquanto suo em bicas – debalde – dentro de um paletó preto de microfibra, Sr. Marchetti veste bermuda, mocassim e estranha camiseta polo com escritos indecifráveis. Completam o quadro os óculos escuros – decerto úteis diante da penumbra do salão – e o celular, inseparável de sua orelha mesmo ao cumprimentar-me; aliás, faz um salamaleque sem entusiasmo, com a mão esquerda desocupada dobrada ao meio, sem mover-se da mesa ou fazer menção de levantar-se. Eu, já acostumado a encontros descorteses, finjo ânimo e chacoalho sua mão à inglesa, talvez mais do que deveria. Seu olhar severo trai sabe-se lá que ojeriza, se a mim ou ao interlocutor do aparelho.

Não está só: há uma pessoa a sua frente, que me cumprimenta desinteressadamente. Há, no meio deles, um balde cheio de gelo e duas garrafas de cerveja. Sr. Marchetti finaliza a chamada, dirige-se a mim:

– Me deixa terminar essa conversa aqui com o Davi e eu já falo com você, pode ser? Vai conversando com o Alex ali, enquanto isso. Toma um gole?

Cedo. Não recuso um copo de cerveja com esse calor todo. Há atrás de mim um senhor, em pé, na mesa ao lado. Vestia uma camisa social verde água, sem gravata.

– O Marchetti ali me falou que você trabalha com imóveis…

– Pois é…

Então, para minha estupefação, Alex ri com todos os dentes, uma gargalhada de cachaça, com a língua frouxa e certo charme. É que o “Marchetti ali” acaba de fazer alguma piada interna, com voz propositalmente alta para chegar a seus ouvidos. Nesse momento percebo que a palavra escrita na sua camiseta polo não possuía nenhuma vogal. Seria alguma mensagem cifrada da Kabbala?

– Então, peço deculpas pelo camarada. Ele parece sério, mas você não o viu na lancha depois de 19 garrafas de cerveja no cocoruto. Alucina! Ele a-lu-ci-na!

Sr. Marchetti ri, como que esperada a resposta à blague. Eu, embora em chamas, permaneço em silêncio.

– Não sei se você está a par: a superintendência lançou uns lotes quase de graça na Serra; é barbada! Lembra da FUNAI durante Geisel? Pois é, mesmo naipe, mesmo presente!

Meu interesse pelo folder tendendo a zero – eu era só uma criança sob Geisel -, Alex passa a outro ataque:

– Você já deu uma olhada nesse projeto do porto em Presidente Kennedy? Nem Roterdã possui esse calado! Projetado pra escoamento via minerioduto e trem de carga. Multimodalidade assim, nem em Tubarão, meu filho!

– Interessante…

Passeio pelo folder com o mesma vontade de potência de um filósofo schopenhaueriano. Engulo o resto de meu chopp. Alex encachaça-se, não se dá por vencido e aborda-me sobre meus possíveis clientes que necesitem de revisão contábil e fiscal. Você sabe, não está fácil pra ninguém. O Sol, esse eterno, brilha nos copos e felizmente Sr. Marchetti me chama. Sento-me ao lado de Davi, que preenche meu copo com espuma.

– E então? Trouxe os papéis?

– Sim, consegui. Esse José me enrolou um pouco e me passou documentação incompleta. Mas acabei conseguindo a escritura do imóvel graças a um parceiro meu no cartório.

– Deixe-me ver.

José, um Sibert de Santa Maria de Jetibá, possui belo terreno urbano em Cariacica com um frigorífico desativado. Propõe troca a limpo – sem grana – pela fazenda em Aracruz. Dispõe-se a incluir todos os ativos de seu terreno na troca.

– A princípio, não me interessa. Que é que eu vou fazer com uma fábrica parada? Além disso, tenho que pagar sua comissão. Pago o quê, se não há dinheiro, só escambo?

– Sr. Marchetti, se me permite dizer, refleti sobre isso. Meu parceiro também descobriu que esse José Sibert possui um pequeno lote urbano em Conceição da Barra, dez de frente, dez de fundo. Talvez seja interessante pedi-lo em contra-proposta…

– Rapaz, você não dá ponto sem nó, hein? E o que faz você pensar que ele aceitará a proposta?

– Sei lá, um sentimento… Imagino que ele já deve ter contrato com a papeleira, só lhe falta onde produzir o pinheiro. Produzir em Cariacica ele não consegue, o terreno é pequeno. Além disso, ele adorou sua propriedade, Sr. Marchetti! Está aberto a negociação.

Sr. Marchetti pensa; faz gesto de pensar ao menos. Olha para a papelada e encara Davi, demandando-lhe tácita opinião. Este, em silêncio, gesticula favoravelmente, torcendo a boca e o queixo para frente como um Marlon Brando.

– Lote em Conceição da Barra, hein? Bom, vamos ver esse terreno dele então. Mas vou te pedir um enorme favor – para nós dois!

Acende um cigarro, aproxima o corpo em minha direção como um gesto de boa vontade – quiçá o primeiro! e dispara:

– Talvez, para um melhor relacionamento, seja melhor deixarmos a imobiliária fora desse negócio, o que lhe parece? Eu serei grato, José – tenho certeza – também, e você ganhará um quinhão que jamais levaria por vias normais. Justo, não lhe parece, Davi?

Davi aquiesce, fazendo uso da segunda vértebra. Alex, lá detrás, acompanha o voto. Eu, como Champollion, até então entregue à decifração dos quatro caracteres impressos em alto relevo sobre a camiseta de Sr. Marchetti, sinto-me obrigado à reação:

– Beleza.

– Ótimo! E quando poderemos ver o terreno?

– Quando o senhor estiver disponível.

– Pode ser amanhã?

– Verificarei com o proprietário e retorno ainda hoje, Sr. Marchetti.

Saio pensativo e estranhamente leve. YHVH. Ípsilon, agá, vê, agá. Já vi isso em algum lugar. Mas onde? Dentro do Uno branco, ligo o ventilador no máximo na tentativa de expulsar o mormaço acumulado. No semáforo, assisto passivamente a um menino negro fazendo acrobacias com bolas de tênis.

Anúncios

Fim das Tardes – Selva Morale (II)

março 2, 2016

Agora estou sentado diante de minha escrivaninha, no escritório. Diante de mim há uma tela plana de computador; o sistema está aberto e vejo minha agenda para hoje: Davi em Laranjeiras às 09:30, sala comercial para aluguel. César em Carapina às 10:30, sala comercial para compra. Maria de Lourdes em Barcelona às 12:30, casa em condomínio fechado para compra. José em Aracruz às 14:30, terreno para compra. Pedro em Carapina às 17:30, casa para aluguel (a confirmar).

Tento rememorar o sonho que tive à noite. Eu era um Deus e reescrevia o Gênesis. Mantive-me fiel à proposta hebdomadária da criação; ao contrário do hebreu, eu era um Deus atento às minúcias da física quântica e da astrofísica e menos afeito a alegorias. No primeiro dia não havia nada, todas as coisas do Universo cabiam no espaço de um átomo; explodi-as. No segundo dia tudo era uma imensa sopa de partículas sub-atômicas; deixei-as fervilhar. No terceiro dia criei os átomos simples, fiz surgirem os primeiros aglomerados de matéria. No quarto dia criei as estrelas, as primeiras constelações, as galáxias, e Eu vi que não era nem bom nem mau. No quinto dia fiz nascerem os sistemas planetários, e mais especificamente esse do qual me ocupo. A Terra – bem como todos os outros planetas – nasceu nesse dia, e era uma bola amorfa de fogo. No sexto dia expulsei da Terra suficiente matéria para compor a Lua, endureci a crosta da Terra e sobre essa crosta fiz nascer grossa camada de água e, mais acima, de ar. E somente no sétimo dia fiz da crosta terrestre palco da vida, palco das inúmeras evoluções e mutações das espécies, de extinções e involuções. Finalmente, quase no fim desse dia, criei o homem em tudo a mim dessemelhante e lhe disse: “És livre. Vai e anda por toda essa terra que te pertence.” Não me lembro se realmente falei isso em meu sonho.

Mas lembro-me de ter deixado claro – eu enquanto Deus –  que a terra pertencia aos homens. Nesse ponto eu acordei, não sem o amargo sentimento de ter compactuado no último segundo com o Deus  bíblico, o da imagem e semelhança, o do “crescei e multiplicai-vos”, o do “espalhai-vos sobre a terra abundantemente”. Com o uti possidetis assim entranhado no pensar, como pode o homem achar que não é dono de tudo o que há para pisar?

Tomo o Uno para chegar aos meus compromissos. Sobre estes, uma estatística pessoal: menos de 5% de minhas visitas transformam-se em contratos assinados. Está um pouco abaixo da média, mas não chega a ser escandaloso; há corretores em pior situação que a minha: Abigail, Abraão e Albuquerque não atingiram nem 3%. Esses não sobrevivem muito tempo. Mas que fazer? É sempre possível responsabilizar a crise, essa dúbia e cruel devastadora de lares e sonhos.

Meus três primeiros encontros foram infrutíferos. O último do dia havia sido cancelado. Dirijo-me a Aracruz pela BR-101. Almoço rapidamente num posto à beira da estrada. Rebato o buffet com leite queimado. José – possível cliente – deseja conhecer um terreno que está em nosso portifólio há mais de dois anos. O terreno tem 20 hectares, margeia a estrada secundária que dá acesso à BR e à cidade, é metade plano e metade acidentado. Tem um riachinho que beira o outro lado. Toda a mata legal, no entanto, se encontra na área mais íngreme do terreno, o que te deixa a melhor parte para cultivo ou criação.

– Tem mina d’água?

– Ô! E abundante! No meio da mata.

– E a mata legal? Chega aos 10%?

– Não vou mentir pro senhor: 6%. Mas o senhor conhece a cidade… Aqui a fiscalização é mais tranquila…

Todo corretor depara-se, cedo ou tarde, com algum dilema moral advindo de assimetria de informações. Vai de seu escrúpulo (ou necessidade) revelar ao cliente o que não lhe interessa. Esse lindo lote, aparentemente fértil, é estéril. Nem café, nem mamão, nem pimenta, nem mesmo braquiária, nada que se plante ali cresce e floresce, nada vinga, apesar da vizinhança reconhecidamente produtiva. Tenho por mim que ali viviam aimorés; foram dizimados; seus corpos foram deixados no chão, sem cova cristã. Aquele pedaço de mundo é amaldiçoado.

– Tá ótimo, tá bom até demais. Vou plantar eucalipto mesmo… Se essa nova lei sair e floresta plantada passar a computar como reserva legal, eu tô é feito!

Sem dúvida, é uma boa ideia plantar eucalipto nesse terreno: não há cultura que exaura mais o solo. Aqueles paus nus e tesos esgotarão da terra seus últimos recursos, e junto deles sua história ignóbil. Não se dizia que depois da guerra o pão sempre vem com gosto de sangue? E o trigo parece brotar com mais vigor? Da mesma forma, um armário feito de MDF vendido nas casas Dadaulto conterá a alma de algum aimoré morto enquanto dormia.

– Aceita permuta? Tenho um terreno em Cariacica com um frigorífico desativado…

– Posso propor ao proprietário sua oferta. Se o senhor puder me enviar a escritura desse terreno para que eu dê uma olhada…

Despedimo-nos. Volto pela estrada secundária. Quinhentos metros antes de entrar na BR, entrevejo o belo mosteiro budista. Por um momento penso em entrar; sempre quis conhecer. Parece bem guardado. Penso melhor: está tarde, talvez outro dia.


Fim das Tardes – Selva Morale (I)

março 2, 2016

Estou comprimido entre o mar ressacado e o que sobrou da restinga. Estou em pé fumando e observando as ondas furiosas, cuidando para que a areia molhada não suje meus sapatos pretos. Há barcos de pesca estacionados na boca da praia: quem é louco de ir pescar com o mar nesse estado?

Estou na praia de Manguinhos e é fim de tarde. Esse é meu refúgio há muito tempo; ninguém sabe disso. A praia está sempre deserta, nunca trouxe comigo pessoa alguma. Gosto daqui. É o único lugar na Terra em que consigo me sentir em paz. Minto: também gosto de observar o mar do alto das dunas de Guriri. A retidão daquela praia, que admiro da direita para a esquerda, me faz pensar nesse imenso infinito que é o Universo.

Sou corretor de imóveis. Vendo e alugo terrenos, casas, apartamentos. Ultimamente tenho pensado sobre a natureza dos produtos que negocio. Na verdade, tenho pensado sobre a natureza de todas as coisas. Os nomes, por exemplo. A toponímia. Gosto de analisar os nomes dos lugares, dos bairros, das ruas, dos edíficios. Gosto também das tardes caindo devagarinho, sem pressa, pra detrás do mar. Minha mente é um lugar selvagem.

Apago geralmente o cigarro na sola úmida de meu sapato. Equilibro-me na areia tombante da praia, busco a saída, aprecio novamente o mar. Às vezes acendo um novo cigarro e me apóio numa das canoas. Todos sabem que a cor desse mar é meio marrom, meio bege, mas ele é bem limpo. Lá atrás dele, quase perto da linha do horizonte, há uma faixa de água mais verdinha, quase azul. Talvez seja o reflexo do céu. Se o céu não fosse azul, talvez o mar fosse totalmente escuro.

Voltadas as costas para o mar, os olhos se enchem de terra. A terra onde o homem pisa é terra dividida. Acho que nunca pisei em chão que já não tivesse sido demarcado, loteado, topografado. Toda terra que eu conheço pertence a alguém, a algum ente físico, jurídico ou estatal. Mesmo o Mestre Álvaro, imponente maciço que vigia esta enorme planície, tem seus donos. Como é possuir uma montanha? Como sente-se a montanha ao ser pertencida?

Estou diante de casas bastante atraentes. Manguinhos é um bairro pacato, a violência é esparsa, as ruas são de areia e mantidas assim pela associação – que tem seus parceiros na prefeitura – para evitar especulação. Você tem aqui um espaço privilegiado a cinco minutos do centro da Serra. Posso lhe contar meu sonho? Pretendo um dia juntar grana suficiente para comprar uma casa dessas, a beira-mar, numa praia assim, semi-deserta. À noite contemplarei a praia escura, o mar sem luz, e minha visão fará a curva da Terra e chegará ao Continente do qual foram arrancados meus bisavós.

Meu carro é um Uno branco. Na verdade não é meu, uso-o, pertence a empresa. Saio pelas ruas de areia em busca da rodovia. Passo pelo grande empreendimento de lotes residenciais que comercializo, o Key Biscayne. Na verdade é uma extensa várzea terraplanada com um pequeno manguezal no meio, desses que dão nome ao bairro e que outrora populavam a região.

Estou em casa e é fim da tarde. A noite inunda de breu os cômodos. Estou sentado no sofá da sala, em silêncio, postergando a incandescência até o limite do incômodo. Adiarei meu jantar – frugal – até o limite da fome, bem como minha ida à cama – solteira – até o limite da estafa.