5040 (V)

Diante do imenso painel de horários da estação central de Munique, decidi-me pelo próximo trem para Viena, que só partiria às sete horas da manhã. Tinha a noite inteira pela frente; a fome me corroía por dentro. Troquei alguns francos por marcos, comprei dois sanduíches e dois cafés. Sentei-me ao lado de Ludwig, que me aguardava numa fileira de bancos vazia, num dos cantos da estação.

– Já que fui convidado para sua casa, nada mais justo que oferecer-lhe este fausto banquete.

– Obrigado. Não vou recusar, mas vou comer mais tarde. Você tem seis horas até seu trem, não vai descansar um pouco?

– Não tenho sono, e mesmo que tivesse não iria conseguir dormir. Faz muito frio… Você costuma passar suas noites aqui?

– Não, eu geralmente durmo numa pensão do serviço social, que não fica muito longe. Mas hoje pretendo passar a noite ao seu lado, se não se importa. Não é sempre que tenho boa companhia.

– Oh não, não me importo. Será um prazer.

A estação ainda não estava vazia: um trem acabara de chegar, trazendo consigo dezenas de homens muito bem agasalhados que caminhavam a passos rápidos para a saída.

– Tenho muito tempo livre, sabe como é. Esses senhores apressados aí, vejo-os todos os dias. É interessante ver como vão todos num mesmo passo marcial, indo para suas casas ou para seus trabalhos, fazendo provavelmente o que se espera deles, sem nenhuma indagação estampada em seus rostos. Eu já pertenci a essa tropa, entendo-os perfeitamente. Mas hoje somos imiscíveis, como óleo e água. Não existimos mutuamente; não nos tocamos. Nossos olhares, quando se cruzam, carregam consigo um desconforto infinitesimal; tão logo se viram, o constrangimento se dissipa. Uma existência como a minha lhes incomoda, isso é claro, mas não a ponto de causar-lhes preocupação.

– Não deve ser fácil ser confrontado a essa realidade todos os dias…

– Sabe, já passei da fase de odiar o mundo e as pessoas. Não creia que lhe falo em tom amargurado; apenas constato como as coisas são. Meu orgulho ferido ficou lá atrás. Minha dor pela perda, também. Hoje tento apenas sobreviver e extrair da vida tudo o que eu conseguir. Mas se você quiser conhecer melhor os homens, ponha seu chapéu no chão e sente-se ao lado dele. O que você obtiver depois de um dia, eis quanto vale a Humanidade.

Fiquei imaginando Ludwig com um chapéu de pequenas abas: ele realmente se parecia com Umberto D., só lhe faltava o cachorro. Veio-me à mente a penível cena em que Umberto tenta pedir esmola em frente ao Pantheon, mas é impedido pela vergonha ao ver um conhecido.

– E como é que você arruma dinheiro?

– Meus filhos me enviam. Todo mês, sem falta, eu vou aos correios, falo meu nome e recebo 300 marcos. Não é muito, mas o suficiente para não precisar mendigar.

– Você fala com eles?

– Não. Eles pagam para não precisarem me ver ou falar comigo. Eles estão bem de vida, um trabalha num banco em Frankfurt, outro é dentista aqui mesmo. Não cai muito bem dizer a todos que seu pai é um andarilho, então eles dizem que eu morri. De certa forma, não deixa de ser verdade.

– Isso é muito cruel!

– Não os recrimino. Em certo sentido, quando escolhemos esta vida, renunciamos à outra. Morremos para aquele mundo. Somos espíritos vagando pelas estações, pelas ruas, tentando não incomodar muito os vivos. Somos uma raça de mansos diabinhos aos quais os anjos se privam de dedicar atenção, sem que isso lhes traga qualquer remorso à consciência. Sim, porque eles são anjos, não está vendo? Nossos mundos são tão distintos que não podem pertencer à mesma existência. Um deles é real; o outro é divino.

Encarei Ludwig. Fazia sentido. Não era somente metáfora: era realmente isso. A indiferença daquele mundo à miséria deste só pode ter essa explicação.

– E é por isso que quando vejo qualquer ato de caridade espontânea, é como se testemunhasse um pequeno milagre, um presente dos céus, uma intervenção divina. Não estou falando sobre as moedas que as pessoas nos jogam automaticamente como se estivessem comprando o direito ao esquecimento, mas sobre atitudes como a sua, ao oferecer-me o maço de cigarros sem saber se eu iria devolvê-lo.

Entendi o recado e ofereci-lhe os penúltimos cigarros que eu possuía. Ele retirou um do maço, sorriu, eu peguei o último. Amassei o maço, acendi ambos e fumamos em silêncio, até Ludwig decidir rompê-lo:

– Gostaria de retribuir sua gentileza. Você parece ser um bom ouvinte. Se você me permitir, vou contar-lhe uma história que aconteceu comigo há muito tempo e que resume bem o que eu penso sobre a natureza humana. Essa história lhe pertencerá, e você julgará se ela merece ou não ter seu lugar em papel.

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