5040 (IV)

– Você parece preocupado.

Tirei os fones. Encarei finalmente o homem.

– Mas pode ficar tranquilo. Não há muito fiscais dispostos a controlar um trem vazio como esse no meio da noite de sábado, a três dias do Natal, com o frio que faz lá fora.

Seu inglês era excelente, embora dominado por forte sotaque alemão. Decerto ele não havia deixado de observar-me, mesmo durante o longo momento em que meus olhos tentavam escapar-lhe.

– Pode ficar descansado com relação à fronteira também. A polícia não tem muito interesse em nós.

Nós? Quem éramos, segundo ele, nós? Sorri levemente, demonstrando alívio e cortesia. O homem começou a remexer o interior da sacola plástica, retirando uma faca e uma cebola.

– Quer?

Ele cortou a cebola em fatias e as comia como se fosse uma maçã. Segurando uma delas com o dedão e a ponta da faca, ofereceu-me, apontando em minha direção.

– Não, obrigado.

– Tem certeza? Nada é melhor contra gripe do que um bom pedaço de cebola crua.

– Não estou com gripe.

– Mas pode pegar. E você sabe como é, pegar uma doença vivendo nas ruas, com o frio que faz, pode ser fatal.

– Não vivo nas ruas. Estou indo para a casa de minha namorada.

– Ah! Que beleza! E onde vive sua namorada?

– Ela vive na Hungria.

– E de onde você vem?

– De Paris.

– Então já está na metade do caminho. Bom! Permita-me perguntar: por que não tomou o trem direto para Budapeste na gare de l’Est?

– É que eu vim de carona até Basileia. Depois tomei uns trens e cá estou.

– Entendi. Retenção de custo, não é?

– Pode-se dizer que sim…

– Vou lhe dizer: não há humilhação nenhuma em fazer parte do que os alemães chamam de intranquilidade social. Estou nessa vida de andarilho há vinte anos. Posso dizer que não conseguiria mais voltar àquela minha velha vida nem que me lhe devolvessem de bandeja.

Abriu sua bolsa de couro e retirou duas grandes apostilas.

– Essa minha nova vida me permitiu alargar meus horizontes. Está vendo essas anotações? Estava hoje em Zurique num curso sobre Dr. Jung. Vou às aulas como ouvinte há mais de um ano. Em Viena, a cada quinze dias, assisto a palestras muito interessantes sobre Dr. Freud. Gosta de música clássica?

Com avidez, retirou da bolsa várias partituras e um pedaço de papelão com o desenho de teclas de piano.

– Em Munique, sou ouvinte de um curso de música clássica com um professor excelente. Veja, é assim que treino meu dedilhado. Entende? Faço o que gosto e não gasto um tostão. Tudo de que preciso consigo nas ruas, nos serviços sociais, nas igrejas. Não passo fome nem frio. Tenho amigos. Além disso, não se deve subestimar a compaixão humana: ela não conhece limites e aparece nas situações mais inesperadas. Mas permita-me que eu me apresente: chamo-me Ludwig Buckmoser.

– Prazer, sou Teodoro.

– Prazer, Teodoro. Mas não vá crendo que esta é uma vida fácil, pelo contrário. Sofri muito, especialmente no começo. Eu tinha uma vida bastante confortável antes de me tornar habitante da rua. Eu tinha um bom trabalho, uma casa, um carro, uma família.

– E o que aconteceu?

– Eu trabalhava em uma empresa de eletrônica em Essen, era responsável pela arquitetura de placas industriais. Desenvolvia componentes com precisão de alguns micrômetros. Eu era muito bom nisso, parecia um relojoeiro suíço, um ourives de Antuérpia, só vendo. Mas, de uma hora para outra, perdi o controle do movimento das mãos. Elas começaram a tremer. Veja:

Esticou as mãos em minha direção. Havia de fato um tremor perceptível, mas não era maior que os habituais em mãos sadias.

– Não parece muito, mas é o suficiente para impossibilitar qualquer trabalho mais rigoroso na área. Em menos de uma semana, perdi meu emprego. No começo, tive o apoio de minha família, mas à medida que o tempo passava e que não encontrava recolocação (deve haver uma dezena de postos iguais ao meu em toda a Alemanha), minha mulher foi se tornando arisca. Certo dia, comunicou-me o desejo de divorciar-se. Posso dizer que não reprovei sua atitude: eu não era uma pessoa fácil. Assim, menos de três meses depois, já não tinha mais casa nem carro, e só podia ver meus filhos uma vez por semana. Eu era um homem acabado, destituído, com a moral destruída. Fui dormir em uma pensão. Lá, arquitetei meu suicídio, básico, envolvendo cadeira, lustre e corda. Felizmente, estava tão deprimido que não encontrei forças para pô-lo em prática. Mas tive-as suficiente para conseguir abandonar o quarto e todas as coisas que havia conseguido trazer de casa. Naquela noite dormi na rua, e nela durmo desde então. Mas olhe lá: eis que já estamos chegando a Munique! Bem-vindo, Teodoro! Acredito que, a menos que tenha feito uma reserva em um hotel, não se oporá ao meu convite para dormir em minha espaçosa e arejada casa, em pleno Hauptbahnhof!

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