5040 (II)

Em meus anos de Paris, troquei mais de endereço do que em todo o restante da minha vida: Gobelins, Alésia, République, Mouffetard.  A sublocação, sempre rateada, era a única maneira viável de manter-me na cidade, já que minha situação, irregular desde a chegada, não me permitia possuir um desses dossiers com os quais os franceses costumam mesurar um indivíduo.

Trabalhava ocasionalmente, o suficiente para conseguir me manter; a esse princípio me ative. Muitas vezes, o que ganhava servindo em um restaurante pela manhã, gastava à noite num bar vizinho. Nas minhas folgas ia à biblioteca, lia nas praças, comprava livros de bolsos de segunda mão, ia ao cinema no Odéon. Escrevia calhamaços colossais a Martina, que você conheceu quando foi me visitar em B.B.A.A. Mas o que eu gostava mesmo era andar a esmo pela cidade, adorava me perder pelas ruas, tomar ônibus até o terminus, vagar horas pelas periferias, parar em um café e tomar uma aguardente.

Fiz amigos. Tive-os às pampas, e me cercava deles. Se minha Paris não era uma festa, como a de Hemingway no entre-guerras, era sem dúvida uma boa noitada de bar. Nos bares conheci conterrâneos, futuros colocatários, pretensos artistas, estudantes, estrangeiros. Pau, catalão, era meu parceiro de xadrez e Stouts. Havia Guillaume, de Rouen, que muita vez me abrigou em seu sofá na Madeleine, depois de noites em claro. Havia Amir Pachá, iraniano amante de literatura, que bebia vinho até cair e sempre brindava à Omar Khayyam. E havia também Ulrika.

Apesar do nome de procedência germânica, Ulrika era húngara. Conheci-a num bar na Butte-aux-Cailles onde costumava jogar xadrez com Pau. Conversamos trivialidades, mas não me lembro do quê. Mas me lembro exatamente do que pensei quando ela riu de alguma coisa que eu falei: Martina não receberia mais minhas cartas.

Começamos a namorar. Ela estudava psicologia na Denis Diderot e morava longe, em Villejuif, em uma casa de família. Víamos-nos quase todos os dias depois de seu curso. Frequentávamos o Jardin des Plantes, o Montsouris, fazíamos longas caminhadas ao longo do Sena, de Bercy até a Ilha Saint Louis. Às vezes, para desarranjo de meu colocatário, ela vinha dormir em casa… Estávamos apaixonados, éramos felizes juntos.

Um dia, já era final de novembro, ela me disse que iria voltar à Hungria, mas que estaria de volta em dois meses.

Ouvi-a em silêncio; a notícia, entretanto, feriu-me como uma navalhada em minha carne. Era-me inaceitável passar tanto tempo sem ela. Decidi – mas não a informei – que iria vê-la no Natal. Nossa despedida na Gare de l’Est foi dilacerante. Eu sei, dois meses não pareciam muito, mas tente imaginar minha angústia diária em sua ausência! Amir Pachá dizia, ao entornar um Beaujolais de 5 francos, que eu parecia o Karamanlis de Perec, aquele que preferia desertar a guerra de Argélia a deixar os braços daquela pour qui son coeur bat.

Naquele mês de dezembro, passei a trabalhar dois turnos para juntar uma grana, mas as passagens de trem de fim de ano eram apavorantemente caras. Meu dinheiro não era suficiente para viajar, ficar uns dias em Gyor e retornar. Meus amigos, igualmente duros, apoiaram com reservas minha ideia: viajaria de carona até onde conseguisse, e tomaria trens onde o controle fosse menos rigoroso. Assim decidido, empacotei umas roupas, desejei boas festas a meu colocatário e me atirei na estrada em direção do Sol que mal havia despertado.

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