5040 (I)

Quem já foi Córdoba poderá dizer que não há lugar mais aprazível que o Parque Sarmiento para matear e botar o papo em ordem; era ali que Teodoro e eu nos encontrávamos quase todos os dias, nos finais de tarde. Teodoro havia viajado o mundo e não tinha muito mais o que fazer senão frequentar a biblioteca, flanar pelas ruas e rememorar-se. Eu, por força de uns documentos oficiais que demoravam a sair, estava impedido de sair do país e de fazer qualquer coisa que envolvesse minha profissão. De maneira que matávamos tempo. Embora bastante enojado com a coisa toda, estava conformado e, pra dizer bem a verdade – agora que tanto tempo já passou – não reclamava. Era estranhamente bom não possuir futuro, era reconfortante ter sua companhia, e acredito que a minha lhe era passável.

Talvez seja útil contar como o conheci, ao menos para o intuito deste relato. Estudamos juntos em um colégio de padres em Córdoba. Ele era genial. Relacionava-se com todos, inclusive comigo, que era extremamente tímido e retraído. A generosidade inicial foi tornando-se amizade das boas, dessas que só existem na juventude. Eu tinha facilidade com matemática e o ajudava a resolver seus exercícios; em troca ele me explicava grego e filosofia, que eu custava a absorver. Ríamos muito, das coisas mais banais. Nossa galhofa era um desafio à instituição que nos oprimia; nossa amizade era um alento e uma resposta aos muros que nos sufocavam.

Bom, nos formamos, ele foi estudar Literatura em B.B.A.A., eu achei um trabalho numa empresa de contabilidade, fiz curso técnico e fiquei em Córdoba. Víamo-nos de vez em quando, o tempo foi passando, eu segui minha vida, ele seguiu a dele. No terceiro ano da faculdade abandonou-a e mudou-se para a França, nunca entendi com que meios. De vez em quando ele me mandava postais de lugares incríveis, que me marcavam o espírito pelo estranhamento que me provocavam. Confesso que fui me distanciando, talvez por não encontrar palavras para responder-lhe à altura das dele, que dele vinham tão naturalmente. Correspondíamo-nos cada vez mais raramente, até que um dia percebi que não recebia cartas suas fazia mais de um ano. Oficialmente, para mim, nossa amizade havia acabado.

Toquei minha vida: casei-me, separei-me, sem filhos. Consegui, ao longo dos anos, juntar uma bolada. Realmente não vem ao caso falar sobre esses assuntos. Um dia, depois de anos sem notícias, bate à minha porta Teodoro. Abraçamo-nos efusivos, ele me disse que voltou para ficar uns tempos em Córdoba, que cansou do mundo e que precisava de um lugar pra ficar. Como prezasse (e prezo) por minha privacidade, ofereci-lhe a casa de minha mãe, vazia desde que se foi, a duas quadra da minha. Esta oferta, de caráter implicitamente provisório, durou dois anos.

Num desses nossos encontros no parque, enquanto eu curtia uma cuia nova, perguntei-lhe se, com tudo o que viveu, viu e ouviu, não cogitava escrever um livro de memórias ou mesmo uma recolta de contos. Teodoro respondeu-me:

– Confesso que já pensei muito sobre isso. Mas não sei se quero debruçar-me em uma aventura literária.  Sinto nos ombros o peso incomensurável de tudo o que foi escrito antes de mim. Quando ando pelos corredores da biblioteca contemplando os títulos daqueles milhares de livros, sinto abafar-se em mim qualquer ambição prosaica. Tantos já escreveram tanto, com tanto talento, que soa redundante, absurdo, extravagante escrever qualquer coisa válida hoje em dia.

– E suas lembranças? Por mais que existam livros de memórias, as suas são únicas e intransferíveis. Você tem excelente material dentro de si mesmo.

– Sim, mas trata-se de um material amorfo e perigoso; a partir do momento em que trazemos à tona uma lembrança adormecida, ela torna-se ficção. Lembrar-se de algum acontecimento é como retirá-lo de uma redoma sem ar. Ar, como você sabe, é algo que oxida. Lembrar-se tira o objeto passado de seu estado vegetativo, inerte e pacífico e o traz para o mundo poluído, cheio de ruídos e sem qualquer sentido – o presente. Decerto que enfraquece o frágil fóssil mental. Pra que é que se lembra duma lembrança, senão com a intenção dolosa de matá-la?

– Eu, sinceramente, aprecio com gosto esses seus instintos assassinos.

Passei-lhe a cuia, após dar a primeira puxada. Sempre fui bom mateador, e isso significava assumir todo o ritual de preparo e serviço. Ficamos um tempo em silêncio, até Teodoro decidir rompê-lo:

– Bom, sabe que uma lembrança vem rondando minha mente, especialmente à noite, na cama. Relatarei a você, e você julgará se a esta história merece ou não ter seu lugar em papel.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: