Dupla culpa

– Ah, meus sublimes amigos, adorados anjos afastados, sou grato por tê-los conhecido. Mas vejo-os dilacerados por dúvidas. Ah, a culpa! Ah, remorso e insegurança eternas!

– Sabe o que mais nos dói, mestre? O fato de estarmos aqui, sob esse Sol clemente, sob esse céu de azul tão puro, a contemplar o mar calmo e gigante cujo reflexo dá-lhe um azul ainda mais claro e profundo, como se isso ainda fosse possível! Estarmos aqui enche-nos de culpa.

– Podem me explicar o porquê?

– Assim que pousamos os olhos nesse regalo divino ou sentimos o calor do Sol da tarde tocando nossos ombros, sentimos uma leve sensação de felicidade. E é aí que nos lembramos de todos aqueles que não puderam ou não podem sentir esse maravilhamento. E é aí que nos advém a culpa como uma chuva de chumbo.

– Impecável!

– Deixamos nossas casas, nossos familiares, nossa amada terra para virmos a este pequeno paraíso. Mas sabemos que o mundo é implacável, duro e infernal.

– Não poderiam ser mais precisos.

– E temos todo o tempo que queremos. Podemos fazer o que quisermos, ninguém, nada nos afeta. Os inimigos, deixamo-los para trás. Os incômodos cotidianos quase inexistem.

– Bom para vocês!

– Levamos uma vida frugal, saudável. Temos tudo de que precisamos. O Sol é clemente e nos acaricia…

– Começam a ficar repetitivos.

– Mas basta vir o final da tarde, as primeiras estrelas, basta diminuir o trânsito de carros e pessoas que vemos de nossa sacada para adentrarmos numa espiral de culpabilidade que nos martiriza profundamente.

– Sentem culpa por estarem bem enquanto tantos vão tão mal?

– Exatamente!

– E vocês gostariam que não estivessem tão bem ou que os outros não estivessem tão mal?

– Gostaríamos que todos estivéssemos bem. Nós e o restante da Humanidade.

– Minha pergunta não foi devidamente respondida. Percebam que fiz referência à conjução adversativa “ou”, e não à conjunção aditiva “e”.

– A verdade é que é bom estar bem.

– Então sua auto-punição está ligada a um profundo ódio pelo restante da Humanidade!

– Como assim?

– Se os outros não existissem, não haveria sofrimento; e se não houvesse sofrimento no mundo vocês não estariam sofrendo pela culpa de estarem gozando. Logo a culpa por sua culpa é do restante da Humanidade! Não me admira que a odeiem tanto!

– Mas nós não odiamos a Humanidade! Na verdade nós gostaríamos que todos estivessem bem, felizes, e justamente porque não estão é que nos sentimos culpados por estarmos.

– Sua culpa é essencialmente feita de suas relações com os outros. Ela cessa de existir no momento em que os outros cessam de existir.

– Mestre, o senhor nos toma por desalmados! Como pretende o senhor que queiramos a inexistência dos outros para que nos sintamos livres de culpa?

– Não falei isso. Simplesmente digo que a culpa é uma ideia baseada em outra ideia: a do sofrimento dos outros. Enquanto sejam humanos, terão complacência e comiseração por seus iguais, não?

– Claro! Como qualquer outro ser humano minimamente esclarecido.

– Logo, é normal que a culpa advenha pelo simples fato de que, sendo humano, sinta-se compaixão pelo que lhe resta da Humanidade (a exceção de si próprio).

– Isso é correto, mestre!

– Mas, ao mesmo tempo, torna-se não-digno de piedade aquele que se excetuar do restante da Humanidade.

– Por quê?

– Ora, pelo que vemos, quem sente culpa sente-a em contrapartida ao restante dos homens; logo não vê em si mesmo objeto da mesma compaixão a ser oferecida aos demais. Diferencia-se ao adotar sozinho a culpa que deveria ser coletiva. Não é assim que ensinam as religiões? Que existe uma culpa coletiva, o pecado original pelo qual pagamos todos, nossas ascendências e descendências, inclusive as crianças que mal sabem falar?

– Ô se é!

– Mas vocês se afastam dessa culpa coletiva ao assumir para si mesmo a dor dos homens. Não podem estar bem porque o mundo vai mal. Na verdade, vocês dão por demais crédito a si mesmos como depositários da dor do mundo. Pergunto-me se vocês não são tão somente grandes ególatras ao acreditar na demasiada importância de suas existências em detrimento das demais.

– …

– Eis o que são: ególatras, vaidosos e prepotentes.

– Então, sentir comiseração é um egoísmo?

– Se a sua compaixão pelo outros não recair sobre as suas próprias condições, sim. Se sua comiseração pela Humanidade não se estender a si mesmos, não há muita distância entre o que sentem e o ódio.

– Mestre, estamos perplexos.

– Peguemos um exemplo: vocês acham que todos os homens do mundo estão mal nesse momento?

– Não.

– Devem haver outros que, assim como vocês, estejam vivendo um bom momento sobre a Terra, sem grandes preocupações, sem incômodos, sem problemas a resolver enfim…

– Sim, existem.

– E vocês não sentem compaixão por esses seres?

– Por que deveríamos?

– Porque eles também, assim como vocês, são finitos, têm os dias contados, são os filhos imperfeitos de Deus, e também vivem num mundo imperfeito, e também são pura carne.

– Isso é fato.

– Se isso é fato, também é fato que vocês pertencem à mesma condição e, logo, são objetos do mesmo sentimento. Sem a compaixão por todo ser terrestre, unida de veritável auto-compaixão, toda culpa não é nada além de tormento narcicista.

– Mestre, sentimo-nos culpados de sentirmos culpa.

– Ah não! Aí não! Dupla culpa não é dupla negação, e sim duplo narcisismo! Lembrem-se: nada somos a não ser a poeira dos astros. Aproveitem o calor deste que se digna iluminar-nos diuturnamente e tenham um bom dia!

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