Nacht und Nebel

Remember! Souviens-toi! Esto memor!

Charles Baudelaire

Vasta é a obra, literária e cinematográfica, sobre o horror dos campos de concentração nazistas, um dos temas que Michel Laub, autor de “Diário da Queda”, ousou bravamente enfrentar. Logo depois de alguns anos de estupor do pós-guerra, em que a maioria dos europeus tentava achar o chão sob os pés e os sobreviventes lutavam para continuar vivos, surgiram os relatos de Primo Levi e o brevíssimo “Noite e Neblina” (tradução de “Nacht und Nebel”, as cores do infame uniforme dos prisioneiros dos campos de concentração nazistas) de Alain Resnais, obras que chocaram profundamente um público que ignorava o assunto ou que por algum tempo deixou-o em segundo plano, como se de certa forma a expiação promovida pelos Julgamentos de Nuremberg fosse suficiente para aplainar a consciência coletiva europeia.

Choca imaginar quanto tempo o mundo levou para dar-se conta do caráter único da tragédia de Auschwitz e dos outros campos de concentração nazistas. A perspectiva geral que se tinha até meados da década de 50 era a de que os presos em campos de concentração eram somente vítimas de guerra, e que sofreram da mesma maneira que soldados e civis envolvidos. Hoje está calcificada a ideia de que Auschwitz foi tudo, menos uma tragédia comum. Ninguém razoavelmente são contesta que Auschwitz é o maior horror que o homem conseguiu edificar contra a Humanidade e, portanto, contra si mesmo. Foi, em realidade, a culminação de uma política, de um desejo de exterminação objetiva e sistemática de um povo, alcançada graças à ação precisa, racionalista e inumana de burocratas (o mal banal de Hannah Arendt), perseguidores e executores. Foi uma barbárie arquitetada de forma técnica e racional em todas as suas dimensões e, exatamente nesse sentido paradoxal, soa como uma “impossibilidade mental e moral”.

Borges, em uma nota, compara o nazismo ao Inferno de Erígena: seu horror reside em sua irrealidade. “É inabitável; os homens podem morrer por ele, matar e ensanguentar por ele. Ninguém, na solidão central de seu eu, pode almejar que ele triunfe.” Ele nota que o estado de êxtase dos simpatizantes de Hitler diante das ocupações esconde na verdade um sentimento de terror. “Não pensou Freud que os homens dispõem de pouca informação acerca dos móveis profundos de sua conduta?”

É possível que esse mesmo mecanismo sugerido por Borges esteja na raiz do que se convencionou chamar de negacionismo ou revisionismo – este um eufemismo dos negacionistas que consiste em negar-se duplamente. O terror diante de realidade cruel pode ser tão insuportável que se torna mais atraente encontrar furos na história ou simplesmente rejeitá-la do que enfrentá-la. Na verdade, muitos dos povos que conviveram de perto com essa tragédia não permitem essa complacência e encaram o negacionismo do Holocausto como execrável má-fé e, em certos casos, como crime.

Aliados aos que negam e “revisam” o Holocausto, há os que contam com o tempo e a perspectiva histórica para diminuir-lhe o peso do trauma. A noção de que o distanciamento histórico fará Auschwitz cair na vala comum das tragédias humanas é motivo de dor e desespero para os já raros sobreviventes e para seus afortunados descendentes. A memória dos horrores do Holocausto é para os sobreviventes o principal legado que podem oferecer às futuras gerações. Muitos são os que, como Levi, Weisel, Appelfeld e tantos outros, transformaram suas sobrevidas num eterno relembrar-se, num esto memor incansável e repetitivo, talvez imaginando que esta seja a única arma de que dispõem para evitar que o horror dos campos de morte um dia se repita.

Diante desse contexto, como compreender os que, tendo sobrevivido ao inferno dos campos, buscaram esquecer o que passaram? Os que preferiram jamais falar a seus descendentes sobre o que sofreram? Os que, ao invés de relatar o que se lhes ocorreu nos campos, preferiram escrever 16 tomos de diário em forma de glossário sobre “como o mundo deveria ser”. Eis um dos dilemas de que o protagonista de “Diário da Queda” tem de dar conta. Seu avô, sobrevivente de Auschwitz, recusa-se a elaborar sobre seu passado, passa anos trancado em seu escritório escrevendo diários estéreis e dá fim à sua vida com um tiro.

O autor oferece-nos uma personagem muito diferente do sobrevivente Primo Levi: para o avô a palavra Auschwitz é tabu e não é citada uma única vez em seus 16 tomos; para Levi o tabu era não falar sobre Auschwitz. Levi elabora, o avô se cala; ambos, no entanto, se suicidam.

Entrevejo durante a leitura de “Diário da Queda” alguns pontos que fornecem luz a estas questões. Em alguns momentos do livro, o autor lança mão de um curioso recurso técnico: repete várias vezes a palavra Auschwitz em um mesmo parágrafo. Ao contar-nos o momento do suicídio do avô, ele vai além: embute Auschwitz entre parênteses no meio de orações aparentemente descorrelatas. Acredito que há aí muito mais do que um mero efeito literário que, de qualquer maneira, cumpre bem sua função no texto. O autor mostra por meio dessa repetição que o que nunca foi elaborado no texto do avô ressoa de forma dolorosa em cada frase escrita. Ele parece conhecer bem os ritos judaicos e seus principais livros sagrados. É possível que possa estar evocando raciocínios cabalísticos ao lidar com o diário hermético do avô, já que, bem sabemos, os ensinamentos da Cabala revelam-se precisamente a partir de uma leitura sobre o que não está escrito. Ora, o que ecoa nos textos do avô e que o autor parece querer explicitar é justamente a palavra jamais dita (Auschwitz), a história jamais contada (Auschwitz). O diário do avô traz em si toda a dor e tragédia explicitamente não ditas e, no entanto, reveladas em cada pausa ou em cada verbete do mundo ideal, onde o que deveria ser toma o lugar do que de fato é. Os 16 tomos, ao detalhar o mundo ideal, mostram o nível de desilusão do avô em relação ao mundo tal como ele é ou foi.

Não me parece ser trivial o fato do autor citar tantas vezes Primo Levi ao longo do texto. Primo Levi é conhecido principalmente pelo seu “É isso um homem?”, mas escreveu muitas obras, autobiográficas e ficcionais, e cito em especial alguns de seus contos encerrados em “A Tabela Periódica”. Primo Levi, engenheiro químico, escreveu “A História de um Átomo de Carbono”. Uma leitura diagonal traz um conto anódino; é, entretanto, tarefa dificílima lê-lo sem trazê-lo à luz de seu relato em “É Isso um Homem?”. Auschwitz está presente em toda a sua literatura, seja como tema, seja como sombra. Levi uma vez afirmou que necessitava da Química para poder dar certa ordem ao mundo. Esse expediente não contrasta muito com o utilizado pelo avô em seu glossário do mundo ideal. O final trágico de sua vida demonstra, de certa maneira, que a literatura não deixava de ser um expediente, um subterfúgio para fazer adormecer (ou elaborar) traumas jamais realmente superados.

O autor não se limita a expor esse dilema. Há, por sua vez, o papel do pai do protagonista e a forma como ele encara a história do avô. O protagonista resume as memórias de seu avô na frase “como o mundo deveria ser”, e as memórias de seu pai em “como as coisas foram de fato”. Existe de fato uma contraposição entre as duas maneiras de lidar com o mundo, e o autor deixa claro o quanto são opostas. Há também a história do próprio protagonista, o filho, que tenta lidar com fatos mal resolvidos de sua adolescência.

O que o autor chama de “inviabilidade da experiência humana em todos os tempos e lugares” é o elemento central dessa narrativa. Existe algo em comum entre as três gerações: tanto o avô, quanto o pai e o filho sofreram traumas durante a sua juventude. O avô com Auschwitz, o pai com o suicídio do avô e o filho (o protagonista) com a história de seu amigo João, todos são de alguma forma marcados por um evento traumático e o elaboram à sua maneira. É interessante observar que cada geração herda da precedente uma história, um trauma e uma resposta, e consequentemente uma maneira de lidar com o mundo.

Ao mesmo tempo em que o avô responde a seu trauma com um idealismo fantasioso, presenteia o filho (o pai do protagonista) com o grande evento traumático de sua vida, ao cometer suicídio. Já o pai, diante desse grande evento traumático, responde com pragmatismo, “conseguindo ir adiante”. Ao mesmo tempo, justamente para conseguir ir adiante, calcifica algumas ideias, chora sozinho e “nunca demonstra fraqueza”.

Diante desse histórico de eventos traumáticos na família, como se predispõe o protagonista a encarar o seu próprio trauma, que ele identifica como o principal catalisador de sua obsessão alcoólica? Em primeiro lugar, ele demonstra em toda a narrativa que não há para ele uma observância de proporções entre os três eventos traumáticos. Existe, ao contrário, uma cumplicidade e uma profunda correlação entre Auschwitz, o suicídio e João. Os três eventos, tendo criado cicatrizes tão profundas nas três personagens, também portaram consigo mecanismos de defesas distintos para cada uma delas. Nesse sentido, embora o horror de Auschwitz e o horror de ver o suicídio do próprio pai não sejam nem de longe proporcionais aos horrores do bullying escolar em suas causas, são comparáveis em suas consequências, pois seus resultados permanecem nas vidas das personagens para sempre e deixam marcas inapagáveis e que se perpetuam pelas gerações.

Ao contrapor constantemente fatos sobre si, sobre seu pai e sobre seu avô, o protagonista busca entender a si próprio e aos motivos que o impulsionam a agir. Cria um movimento dialético que busca abarcar visões conflitantes (tese e antítese) dentro de uma ideia maior (síntese), de onde enfim poderá reconhecer-se e ressurgir. De certa forma o narrador, ao colocar-se em diálogo consigo próprio, reforça o espírito platônico de aproximar ideias individuais às ideias universais.

O intuito e o formato de sua narração tornam-se claros nos últimos parágrafos, quando descobrimos o destinatário do que até então era somente um diário. É surpreendente e ao mesmo natural perceber que todo o texto lido até então toma o formato de uma missiva ao filho que irá nascer. Quiçá tem o narrador a esperança de que seu filho, auxiliado pelo distanciamento das gerações e pelo seu labor confessional, “comece do zero” a sua própria vida e sua própria busca, conhecendo os fatos e tirando suas próprias conclusões, “sem carregar o peso” do passado. Quiçá tem o narrador a esperança de que seu filho não esquecerá o passado revelado a tanto custo, não recusará seu passado nem tampouco o negará, como negam os que, diante da inviabilidade da experiência humana em todos os tempos e lugares, não querem ou preferem não ver.

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