Conjunto Nacional

Pego-me sonhando dia a dia as coisas de meu pretenso futuro. Tudo é pressado futuro, tudo é contundente e sem sentido futuro. Corro e não alcanço. Rogam-me paciência, rogo-me coerência, os tapetes sob os pés se levantam e todas as louças caem por terra. Ao menos busco a alegria de escrever, nem isso consigo, nem isso a que me proponho estou sendo capaz de. A alegria do documentarista, do bibliotecário, a alegria do bibliófilo, do numismático, do matemático recreativo, tanto queria eu compartilhá-las. A paixão pelo correto, pelo bem-escrito, pelo estudado, pelo revisado, tudo isso bem poderia me animar. Mas me apaixono sem desmesura, e onde já se viu tal imbróglio?  Onde já se viu apaixonar-se temperadamente?  O mundo roda, seus problemas se acumulam a cada volta, como o novelo emaranhando-se entre o sulco do ioiô. Cada vez menos consigo representá-me-lo, o mundo se tornando cada vez mais indigesto e pálido a cada vez.

Assim ia eu pensando, nesses e noutros pensamentos insolúveis, quando me deparei com você, menina flor, luz de meus olhos, coisa mais lindíssima amor sincero e justo. Então nada mudou e, pra ser sincero, piorei. De minha pseudo-catarse fingida e doida doída passei a catatonia e dessa para uma sublime sem-vergonhice, calada segundos após por espasmos de consciência jesuíta, esta por seu turno aniquilada (mas jamais vencida) pela nova consciência metropolitana e libertária dos homens emancipados do seculo XXI, e que tanto nos apraz. Pedi açúcar com café e sal, misturei e enfiei goela adentro, olhei pra ela e ela quase olhou pra mim, abri saquinhos de catchup, esparramei na mesa o conteúdo, chamei dois garçons e pedi sobremesa, depois a salada e sete talheres de cores variadas. Ela já tinha então partido, mas ela chegou, linda como a luz da lua e sorridente, com um beição grande e vermelho de steak tártaro, e olhou pra mim, ou melhor à minha direção. Rasguei a almofada do banco com a faca, e novamente dominou-me catatonia triste e calada de qual já sou habitué, e peguei-me por acaso pensando bem morbidamente, ou algo assim? Em suicídio ou celibato, olhei novamente para ela e ela entrou em mim, entrou em mim em cada segundo de minha pele e em cada poro de minha existência, em cada iota de alma e nas pedras mais pontiaduras de meu crânio; mas quem me dera me fosse ao menos possível assim sentir-me, e já estaria satisfeito com ela e comigo. Como jamais tive espaço pra me apaixonar nesse mundo apertado e sem qualquer cumplicidade (por que deveria), ela se foi mas ela está ali, linda e abjeta como um pedaço de carne sobre um recém-nascido. Meu amor nascerá porventura do desespero mais infame? No final não terei mais escolhas. Meus sonhos serão os motores do cataclisma que espera o que resta de sã em minha consciência para seguir imaculada e despir minha memoria de qualquer objeto eventual nauseabundo, de adoração ou repudio? Ela está ali, no canto, onde meus óculos não alcançam, mas sim que ela não está ali no canto; ela está ali, no canto. Talvez fosse melhor eu calar-me, e seguir mesquinhamente meu trajeto até o que chamam costumeiramente de lar.

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