Rue du Canivet

julho 29, 2014

Foi assim : no final de semana acordei cedo sábado às 11:00, comprei frutas e umas revistas pra ler no banheiro. Encontrei Jofre que me falou do show do Palhoça desta noite no parque norte as 20:00, falou que ia levar os amigos dele (que são também meus amigos), falou que precisava me mostrar uma musica dia desses, que era um blues e que começava assim: “Pássaro perdido, senta junto a mim e fala dos amoreeees…”. Prometi que iria na casa dele escutar o resto e levar minhas letras, que são na verdade poemas (ha também sonetos e outros ABAB de menor beleza) que jurei jamais mostrar pra ninguém. Em casa liguei o radio e a televisão, a belezoca ainda dormia, lavei a louça e molhei os cabelos. No radio se ouvia “Les étrangers au bout du monde, si differents…” e na tevê a série americana sobre palhaços em Las Vegas. Lavei a louça, enxuguei os cabelos e peguei o violão. Toquei sete musicas, três nacionais e quatro estrangeiras, a corda ré (D) desafinada do resto, porque é de nylon e as outras de aço inoxidável. Sequei os cabelos, a belezura ainda dormia, liguei pro Amaury que conhece o Jofre e os amigos dele e que é um amigo meu e mora a duas quadras e perguntei o que ele estava fazendo, se queria dar uma volta e tomar umas. Mesmo que não quisesse, não deu a entender e quis. Escovei os cabelos, limei os dentes e desci.

Amaury estuda medicina e sonha ser escritor. Leva consigo um bloco de notas quadriculado onde anota seus mais profundos pensamentos. Me mostrou um poema escrito todo em latim e que falava de uma menina diferente, dessas que não existem mais. Me pediu pra dar uma franca opinião e dai eu disse que o poema era bizarro mas a ideia muito boa. Sentamos na terazza do bar, o bar de sempre, o nosso bar, e contemplamos o infinito da rua estreita, os austeros edifícios modernistas, os postes soberanos, os condutores elétricos. Eu sou engenheiro elétrico. Pedimos duas claras, salgadinho de bacon e balas de hortelã. Bebemos de uma vez. Pedimos duas morenas e bebemos dum só golpe. Pedimos duas escuras e bebemos de um só gole. Dai pedimos vinho branco e amendoim. Pedimos vinho tinto e costelas. Então Satoshi apareceu na nossa mesa.

Satoshi! Quanto tempo! Senta ai! Satoshi é um amigo meu, que também é amigo de Amaury, conhece Jofre e os amigos dele (que também são nossos amigos). A profissão de Satoshi  não sei definir: ora cria slogans, ora esta dirigindo curtas; ora faz desenho industrial no computador, ora faz acompanhante de trilhas em fazendas no Pantanal. “Bico” é descrição muito curta e vaga para englobar tudo o que ele faz. Possui também conotação pejorativa e limitadora financeiramente. Satoshi não aceita certas palavras, eu acho.  Satoshi é muito mais que isso, segundo ele. Pedimos três garrafas de vinho noir e purê de mandioca.

Nossas opiniões são claramente conflitantes. Eles abusam da boa vontade alheia. Eu também abuso, mas eu sou eu, Amaury é Amaury e Satoshi é Satoshi. Para resumir em poucas palavras, posso dizer que : a) Amaury é idealista, b) Satoshi bem que gosta de uma dialética e c) eu sou um truísta (mas não truta). Nossos papéis não são todavia estáticos e nossa cuca não é estagnada, faça-me favor! Posso muitas vezes gerar conflitos lógicos, criar polêmicas lógicas e em entrar em parafusos lógicos! Satoshi sabe disso. Satoshi admira que eu contenha em mim mesmo meu eu-mesmo e o meu não-eu-mesmo.  Mas não engole as elucubrações de Amaury, e qualifica-as ébrias, excêntricas ou etéreas. Particularmente, gosto das opiniões de Amaury mais do que as de Satoshi, que considero rígidas, rugosas e rancorosas. E assim levamos.


Conjunto Nacional

julho 8, 2014

Pego-me sonhando dia a dia as coisas de meu pretenso futuro. Tudo é pressado futuro, tudo é contundente e sem sentido futuro. Corro e não alcanço. Rogam-me paciência, rogo-me coerência, os tapetes sob os pés se levantam e todas as louças caem por terra. Ao menos busco a alegria de escrever, nem isso consigo, nem isso a que me proponho estou sendo capaz de. A alegria do documentarista, do bibliotecário, a alegria do bibliófilo, do numismático, do matemático recreativo, tanto queria eu compartilhá-las. A paixão pelo correto, pelo bem-escrito, pelo estudado, pelo revisado, tudo isso bem poderia me animar. Mas me apaixono sem desmesura, e onde já se viu tal imbróglio?  Onde já se viu apaixonar-se temperadamente?  O mundo roda, seus problemas se acumulam a cada volta, como o novelo emaranhando-se entre o sulco do ioiô. Cada vez menos consigo representá-me-lo, o mundo se tornando cada vez mais indigesto e pálido a cada vez.

Assim ia eu pensando, nesses e noutros pensamentos insolúveis, quando me deparei com você, menina flor, luz de meus olhos, coisa mais lindíssima amor sincero e justo. Então nada mudou e, pra ser sincero, piorei. De minha pseudo-catarse fingida e doida doída passei a catatonia e dessa para uma sublime sem-vergonhice, calada segundos após por espasmos de consciência jesuíta, esta por seu turno aniquilada (mas jamais vencida) pela nova consciência metropolitana e libertária dos homens emancipados do seculo XXI, e que tanto nos apraz. Pedi açúcar com café e sal, misturei e enfiei goela adentro, olhei pra ela e ela quase olhou pra mim, abri saquinhos de catchup, esparramei na mesa o conteúdo, chamei dois garçons e pedi sobremesa, depois a salada e sete talheres de cores variadas. Ela já tinha então partido, mas ela chegou, linda como a luz da lua e sorridente, com um beição grande e vermelho de steak tártaro, e olhou pra mim, ou melhor à minha direção. Rasguei a almofada do banco com a faca, e novamente dominou-me catatonia triste e calada de qual já sou habitué, e peguei-me por acaso pensando bem morbidamente, ou algo assim? Em suicídio ou celibato, olhei novamente para ela e ela entrou em mim, entrou em mim em cada segundo de minha pele e em cada poro de minha existência, em cada iota de alma e nas pedras mais pontiaduras de meu crânio; mas quem me dera me fosse ao menos possível assim sentir-me, e já estaria satisfeito com ela e comigo. Como jamais tive espaço pra me apaixonar nesse mundo apertado e sem qualquer cumplicidade (por que deveria), ela se foi mas ela está ali, linda e abjeta como um pedaço de carne sobre um recém-nascido. Meu amor nascerá porventura do desespero mais infame? No final não terei mais escolhas. Meus sonhos serão os motores do cataclisma que espera o que resta de sã em minha consciência para seguir imaculada e despir minha memoria de qualquer objeto eventual nauseabundo, de adoração ou repudio? Ela está ali, no canto, onde meus óculos não alcançam, mas sim que ela não está ali no canto; ela está ali, no canto. Talvez fosse melhor eu calar-me, e seguir mesquinhamente meu trajeto até o que chamam costumeiramente de lar.