O rei está morto. Longa vida ao rei!

junho 3, 2014

Sob este anúncio ocorrem as sucessões monárquicas em vários reinos desde a Idade Média. Analisemos esta sentença e suas implicações. Vamos desprezar desde já qualquer interpretação metafórica, do tipo “ele vive em nossos corações”. Se lida secamente, sem contexto figurado e supondo-se distraidamente um único sujeito, evidencia um paradoxo lógico-temporal de proporções escandalosas. Torna a ressurreição um fenômeno banal a ponto de eclipsar o tema entre duas frases.  Sob esta ótica, bastaria trocar a ordem das frases e o efeito sobrenatural se desfaz; não sem, no entanto, resumir drasticamente a história do pobre monarca. Não me parece apropriado a uma lápide real abrigar o epitáfio “Viveu longamente e morreu.”

Existe uma variante desta frase que a torna ainda mais depreciativa, a depender de mesma interpretação desastrada. “O rei morreu. Viva o rei!” dá a entender que o infortúnio foi um excelente acontecimento, com a qual se saúda o ex-soberano. Péssima brincadeira. Permita-me dizer: pessoas já perderam suas cabeças por muito menos. Substituir o “Viva!” por “Vida Longa!” diminui – sem apagar-lhe subliminarmente – o efeito ambíguo.

Claro que o sujeito é um na primeira frase; outro, na segunda. Levando-se isso em consideração, mas ainda esquecendo-se do contexto, a proclamação é de um mau gosto atroz. A pessoa que assim a enunciar, que não a faça em voz alta. Precipitação angustiada, mesquinhez baixia, submissão doentia, interesses escusos, vilania: somente tais fatores poderiam levar à ignomínia de não esperar sequer o corpo real esfriar para anunciar o substituto. Até mesmo o tio de Hamlet esperou algum tempo antes de tomar-lhe a coroa.

Claro que esse tampouco é o sentido correto. A oração é pronunciada há séculos diante de súditos estropiados e rancorosos para que não haja dúvidas sobre a sucessão do rei falecido e para que não se constitua um período de interregno. O intervalo de tempo sem governança, eis o mal que se deseja evitar. O cataclisma do reino sem cabeça, da desordem, da anarquia, tudo isso é simplesmente dissolvido através do ditame.

Mas essa sentença tem uma grave falha, e é aí que o anarquista, o republicano, o cidadão comum enfim pode infiltrar-se, a despeito de qualquer ameaça física ou penal. Ela é pronunciada, escutada e entendida de forma sequencial, ou seja: fala-se de um rei morto, faz-se uma pausa (o ponto entre as frases), deseja-se vida longa e só ao final é que o novo rei é finalmente coroado (coroação implícita na frase mas bastante contestável, é bom que se diga). Ou seja, existe aí um período não-infinitesimal de sede vacante. Tempo mais do que suficiente para qualquer um levantar-se, declarar vago o trono e autoproclamar-se rei. O primeiro que assim fizer terá tanto poder moral para assumir o trono quanto o objeto indireto da segunda frase, ou, se assim desejar, referendar a vontade popular por um melhor sistema representativo. Afinal, baseado em quê pode-se afirmar que a ordem hereditária é melhor ou pior que a ordem do “cheguei primeiro”? Ainda mais se o herdeiro possuir porte atlético, não deverá temer que o desafiem em uma ligeira corrida até o trono.

Claro que não é assim que funciona. Um contrato de gaveta invalidaria facilmente o ato corajoso e impensado. Infelizmente existe todo um embasamento legal, um arcabouço jurisprudencial por detrás deste ato. Ademais, a grande maioria das monarquias do mundo cercam-se do sacramento constitucional. E tenho certeza que você, por amor a seu pescoço, não quererá botar em dúvida a sucessão na Arábia Saudita. O pronunciamento é um rito de passagem meramente simbólico e creio que não é feito há mais de um século (O Wikipedia informa-me que não, que houve ao menos duas ocasiões no século passado em que o pronunciamento foi feito, a última delas em 1952 na transferência de poder do rei Jorge VI para sua filha Elisabeth II. Claro que com a devida alteração no gênero do segundo sujeito).

Mas vamos supor por um delicioso momento que somente o pronunciamento é decisivo. E vamos supor também que o rei não precisa morrer, basta abdicar ao trono. Mudaríamos, sem grandes traumas, o anúncio para “O rei abdicou. Viva o rei!” E vamos supor inclusive que alguém, qualquer um da plateia interrompa o orador no meio da oração, dizendo, simplesmente: “Pode parar. Eu sou o rei. Cheguei primeiro.” Uma tomada de poder limpa, sem trauma ou golpe, mas não sem surpresa: “Putz, pior que é, ele falou antes que se anunciasse o novo rei. O trono é dele. Mal aí, Delfim.”

Adoraria estar vivo para ver uma cena dessa em Buckingham, em Copenhague, em Haia. “Cai a Casa de Orange. Meneer Van der Hoek, floricultor de Emmeloord, chegou primeiro.” Seria motivo de grande satisfação pessoal se acontecesse em Bruxelas, especialmente se a família real se auto-exilasse em Kinshasa. Mas, principalmente, seria presente dos céus e sinal de que Deus existe e não está sob jugo de nenhum homem sobre a Terra, se esta cena ocorresse no Palácio de Oriente, em Madrid.

Claro que não será assim. Mas já me contentaria se o último Bourbon caísse por referendo popular. Não será o mórbido regozijo dos que comemoram a queda de um facínora o motivo da minha festa, mas sim o sinal de que lentamente a Humanidade caminha para um mundo sem mitos e anacronismos, e liberta-se dos fantasmas que há milênios a oprime e cativa.

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