I am the Impossible (I)

I am the impossible!

Eu sou o impossível? Com essa frase e um macabro trítono em Lá, The Shinto Gods iriam abrir o concerto em poucos minutos. A formação da banda não poderia ser mais trivial: Stratocaster, baixo Fender basicão e uma bateria eletrônica Roland meio tosca. À frente, a goela de Guy Tavarèz desovaria um sotaque inglês melhor do que o meu. Guy Tavarèz, Adémar Cybard, Jerôme Moravie e Guillaume de Volpian, nenhum desses nomes parecia real. Mas eram. Em menos de um quarto de hora, os quatros franceses de Cluny dominariam completamente os dez mil pagantes do Tivoli Park. E deixariam as migalhas de um público extasiado e disperso para nós. Tinha sido assim em Roskilde, em Huskvarna e em Gotemburgo. Em Bercy, a julgar pela toada, ia ser ridículo; nos Eurockéenes iríamos passar vergonha. Dali em diante, era a glória para os froggies: muito provavelmente aquela era a última vez em que seriam banda de abertura. Passariam a lotar estádios sem precisar de bandas decadentes como a nossa.

Sobre nós… realmente preciso gastar meu latim? A última Rolling Stone nos descascou. Roger e eu mal nos falávamos. Delroy passava por um processo de divórcio complicadíssimo e se distraía muito; Garreth tentava abafar os erros de baixo carregando nos pratos como podia. Havia três anos eu escrevera minha última música; bebi tanto para compô-la que fui obrigado a internar-me em St. Maarten por duas semanas. Emerson, o bosta do produtor, achou que não seria prudente colocá-la em nosso último álbum. Resultado: fazíamos uma turnê só com covers e best hits. A música mais nova do nosso show tinha a idade da minha filha.

Por que ainda estávamos nessa? Por que tínhamos que pegar num batente tão pesado assim, depois de trinta anos? Não poderíamos simplesmente nos aposentar? Ou então apertar o ‘foda-se’ e ficar rodeando a América do Sul como moscas? Lá pelo menos o dinheiro vem a rodo e Delroy poderia errar à vontade… Durante o voo de Estocolmo a Copenhague o nosso Fat Old Enny veio sentar-se ao meu lado, me trouxe whisky cowboy e, como se já estivéssemos conversando, foi falando: “Se bem que depois tem Brigthon, Dublin, Liverpool. E não se esqueça que a turnê termina no Hyde Park, que é a nossa casa”. “Enny, você pode entender tudo do mundo da música, mas não conhece nada de futebol. Se conhecesse, deveria saber que não é alívio para nenhum time jogar em casa depois de perder de lavada fora dela”. “Entendi: estamos ‘Under Pressure‘”. “Exato: ‘Under Pressure‘ total!”. Rimos nervosos, da mesma forma que rira meu pai, milico, quando o Almirantado entregou o poder a Nehru.

Intrigado, instalei-me na coxia e dediquei-me a ver qual era a dos gauleses. Os urros da plateia misturados às batidas dos pés não deveriam surpreender-me, mas aquilo estava muito estranho. Não parecia um concerto de rock, e sim um desfile militar norte-coreano. Os gritos de “Shinto Gods! Shinto Gods!” faziam vibrar todo o palco e, quando eles entraram em cena, achei sinceramente que o mundo viria abaixo.

Surgiram vestindo capas de monges e máscaras kabuki. Refletores violetas focavam os músicos e todo o resto do palco era escuridão. Lembro-me de ter pensado em como odiaria começar um show dessa forma.  Os músicos se posicionaram, Tavarèz em silêncio tomou o microfone e fez uma genuflexão, escondendo-se do público com sua capa. A plateia silenciou. Fez-se uma pausa, grande demais para meus padrões, em que todos pareciam segurar a respiração. De repente, o estrondo: a banda entrou com tudo, em máximo volume, pesada mesmo, com uma levada meio techno de Moravie e Volpian, e os riffs endiabrados de Cybard. Meus olhos varriam todos os cantos, pareciam treinados pelo exército de Israel. Atrás, o imenso telão exibia uma imagem estática do que parecia ser uma deusa japonesa, com cores mutantes ao fundo. A frente, Tavarèz gritava, quase espanando: “I am the Impossible! I am the Impossible!” E era essa toda a letra da música.

Basbaque, fiquei olhando para a banda, tentando entender o que gerava tamanha excitação. Não estávamos nos anos 60, e nenhum deles era especialmente bonito, a não ser que se considere Thom Yorke um modelo de beleza.  Ok, eles têm essa levada meio dance, mas no Spotify eles populam a medonha categoria “Indie“.  E tem essa coisa dos deuses japoneses, dos riffs numa escala estranha, meu Deus! A guitarra de Roger comporta no máximo uma pentatônica, ele jamais faria solos assim. E quem de nós iria reclamar disso?

Quando Tavarèz entoou o início da segunda música, depois de extensos aplausos,  notei algo realmente bizarro.  Havia ao fundo uma espécie de som gutural que servia de cama à música e que não provinha da banda.  Parecia um mantra tibetano, quase metálico, vibrava em baixa frequência, e não parecia humano. Para mim, que estava próximo aos músicos,  era nítido que se balbuciava algo; ignoro se era audível da plateia. Vinha, provavelmente, de um sintetizador. Procurei-o na escuridão do palco e o encontrei, não sem esforço. Havia alguém tocando na penumbra, não era alguém da banda, embora se vestisse exatamente como eles.

Confesso que fiquei horrorizado  – eu, horrorizado! – quando consegui identificar, em meio ao bruaá, algumas palavras do mantra. Parecia dizer algo como:  “If you meet the Buddha, kill the Buddha.” E as frases se repetiam, cada vez mais sinistras, somente se trocava o objeto: “If you meet your parents, kill your parents. If you meet your relatives, kill your relatives.”  Enquanto isso, ao mesmo tempo, Tavarèz cantava (só) o seguinte refrão: “For the first time you will see clearly.” E a banda arremetia, infernal. Arrepiei, mas não devido à experiência estética, por si só inquietante. Estava em pânico.

Tinha que sair dali urgente. Fui ao camarim e abri uma gaveta onde havia escondido um cantil para essas horas de emergência. Entornei metade do conteúdo, acendi um cigarro e expirei, aliviado. Enny bateu à porta: “Onde você estava? Procurei você por toda a parte!”. “Enny, quem são esses caras?” “Eles são bons, não são?” “Como foi que os contratamos?” Enny me encarou, estranhando a pergunta: “Você sabe melhor do que eu a resposta! Foi você quem exigiu que eles nos acompanhassem!” “Como assim? Quando? Eu estava bêbado?” “Martin, vamos lá, deixe de brincadeira! Vá se preparar, temos um show a fazer.” E fechou a porta num estrondo.

Fazer um show não era para mim nenhuma novidade. Entro e saio de palcos com a naturalidade de um contador que prepara um balanço trimestral. Mas naquela noite eu estava particularmente tenso.  No backstage, pouco antes de anunciarem nossa entrada no palco, senti um gosto amargo na boca.  Repassamos a lista de músicas; tive a sensação de que todas as nossas canções eram inúteis e datadas. Nossos maiores hits falavam de coisas que já nem existiam mais. Quem, na Copenhague do século XXI, sabe o que significa “Rodesia“? Ou entende o que eu quero dizer quando grito “Hats off to the working class hero“? Será que realmente entendem o jogo de palavras “Coal in the cold“? Qual o sentido de cantar essas coisas hoje? Sei lá. Deram o sinal, olhei para Roger (que mal me encarava), acenei para Delroy e Garreth e entramos.

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