Areia

Cônsul-adjunto em Khartoum, boa tarde. Passaporte, por favor. Aqui está. Pode prosseguir.

(Não era bem essa a função que eu imaginava ocupar quando prestei a academia. Mas quem quer viver em Estocolmo tem que comer um pouco de areia.)

“Things to do in Juba”, estava escrito no folder que me entregaram ao sair da alfândega. “Suicídio”, respondi sem som, os dentes cerrados. O plano era encontrar o adjunto belga e dali irmos a um campo de refugiados. Cinquenta quilômetros, cinco horas e meia. Vários postos de controle. De meu relatório dependia liberação de verba UNHCR/ACNUR com cooperação do MRE. Dele também dependia minha transferência. Veríamos.

Patrick tinha contatos na região, falava algumas palavras em dinka e arranhava outros dialetos locais. Era magro, tinha ares de profeta. Bronzeado, vivia na África há mais de 30 anos. Passava-me a sensação de que iria desabar em choro a qualquer instante. Perguntou-me se já estive em Djenne. Não.

Chegamos ao campo de madrugada. Várias pessoas nos aguardavam. Fomos bem recebidos. Impossível ver coisa alguma naquele breu. Dentro de uma tenda da UN ofereceram-nos barrinhas e água tratada. Contaram-nos em que condições estavam os refugiados e tudo o que precisavam. Não consegui dormir. Patrick soluçava. Ouvimos alguns gritos de crianças. Era quase aurora quando cochilei.

Sonhei um sonho comprido, cheio de personagens. Vi a mim mesmo pilotando um carro em alta velocidade numa linda estrada. Parecia o sul de Minas Gerais. Havia muito verde. Parei numa cidade pequenina, todos me receberam: havia festa na praça da Matriz. Ofereceram-me cachaça, broa de milho e pipoca. Batiam amistosamente em minhas costas e instigavam-me a entrar na Igreja Matriz. Olhei para ela: já não era igreja e sim imensa mesquita feita em adobe. Sua porta estava aberta; pude ver que estava vazia. No altar ao fundo, entretanto, havia um homem gordo, vestido de branco e que esperava por mim. Pressenti com angústia que eu seria oferecido em sacrifício. As mãos em minhas costas já não afagavam; empurravam. Ao meu redor gritos tomaram o lugar das salvas. Adentrei a mesquita e o portão fechou-se atrás de mim. Acordei.

Quinze minutos pareceram muitas horas. Ao sair da tenda já era dia. Inacreditável visão me aguardava: vi corredores infinitos de tendas, a savana inclemente ao fundo, milhares de pessoas zumbindo como abelhas, mulheres carregando latas enormes na cabeça, homens sem rumo ou sentados sem ação. Crianças, muitas crianças. Ao longe alguém me acenava, convidando-me para ir ao seu encontro. Era Patrick. Vestia turbante e demorei a reconhecê-lo.

Mostrou-me o ambulatório médico. Mostrou-me os alojamentos, o estoque de mantimentos, o QG das forças armadas da UN. Tirei fotos. Conversei com médicos, voluntários, religiosos, o tom era monótono e invariavelmente o mesmo: necessitavam de ajuda urgente, especialistas, veículos, remessas mais regulares de víveres e remédios. Conhecia os procedimentos, não era a minha primeira visita em campos; prometi um relatório contundente e dedicação pessoal nos trâmites processuais. Patrick olhava-me duramente, como quem quisesse extrair uma confissão. Diplomata, sempre soube como agir diante disso: tergiversei.

Ao final do tarde, Patrick convidou-me para uma volta nos arredores do campo. O calor tinha baixado um pouco graças ao vento incessante. Olhei para o oeste: o Sol estava enorme, vermelho, havia uma pesada nuvem no horizonte. Chuva?

– Claro que não! É uma tempestade de areia que se aproxima. Ouça: você claramente não entende o que está acontecendo aqui, não é?

(Soixante, septante, huitante, nonante. Quando criança aprendi que os belgas contavam dessa maneira, e não do modo aritmético e gaulês do qual os franceses tanto se orgulham. Essa diferenciação me bastava para creditar-lhes estima. Só mais tarde vim a saber que o rei daquele pequeno país havia feito coisa muito pavorosa no Congo. Bom, seus vizinhos do sul fizeram coisa parecida, e também os do norte, os do leste, e muito mais os vizinhos de além-mar. Nessa história ninguém se safa.)

– Sim, entendo sim. Vejo aqui um campo de refugiados em terrível situação que necessita de todo o apoio do mundo inteiro…

– Sua visão é míope. Você então não percebe que o mundo do qual você fala não existe mais? Esse – e apontava em direção ao campo – esse é o mundo! Esse é o mundo e o futuro do mundo! Aquele mundo do qual você fala não é real, as pessoas que compõem aquele mundo não são reais, são espectros, são fantasmas, são deuses. Somente essas daqui estão vivas. Todo o restante é uma antiga lenda.

Pensei em Estocolmo, em Cordisburgo, nas pontes do Brooklyn. Tudo se tornava irreal. Estava confuso. Patrick não me parecia tão magro quanto no dia anterior. O vento soprava furiosamente.

– Ando por estas terras há muito tempo. Seu relatório não terá efeito algum, e você sabe por quê? Porque não haverá quem o leia! Por que todos os que estão lá são espíritos, e nós que estamos aqui somos os únicos vivos! Lá é o mundo dos que já se foram, o Além!

– Isso é ridículo! Você verá: tem muita gente boa trabalhando nisso, eu mesmo me empenharei para fazer essa ajuda acontecer, eu te garanto…

– Vão! Tudo isso é vão. Entenda: eu, você, esses senhores com quem você conversou, todos somos mensageiros do outro mundo. Trazemos conforto, palavras amigas, orações. Nada real vem do lado de lá.

– E as curas? E os médicos? E os remédios? Então isso não é real?

– O que você chama de cura eles aqui chamam de ‘pequenos milagres’, ‘presentes dos céus’.  Em sua sabedoria, não há distinção entre o mundo de onde viemos e o reino dos céus. E eles estão corretos: não há mesmo. Não se engane mais, Youssouf. Tudo o que você viveu até agora não passa de ilusões.

Fazia sentido. Não era somente metáfora: era realmente isso. A indiferença daquele mundo a esta miséria, a esta infinita danação só pode ter essa explicação. São mundos tão distintos, tão distantes e imiscíveis que não podem pertencer à mesma existência. Um deles é real; o outro é divino.

– Se você conseguir de fato compreender isso, deve entender que você ficará aqui, mensageiro do além. Você é objeto de sacrifício dos deuses, assim como eu. Somos necessários: só assim os deuses conseguem suportar suas vidas no Além sem precisar pensar nesses homens daqui, criaturas imperfeitas vivendo de misérias nesse deserto interminável de dor. Somos daemons, Youssouf. Somos anjos caídos. Somos Azazel e Behemoth. Mandaram-nos para cá e quebraram nossas asas.

Veio a noite: fomos engolidos pela imensa nuvem de areia.

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