Entre Andradas e Ouro Fino

novembro 22, 2012

Como o que me mantém desperto é o caminho

E em meu sonho flutuo sobre a imensidão das estradas

Eu digo:

 

O Sol batendo impiedoso em meu rosto

é escolha minha

O azul do céu confundindo-se com a torpeza dos morros

é escolha minha

E no entanto cada passo – cada pegada – cada parada

não respondo por estas

 

Presenciei as vãs investidas de uma borboleta

enamorada de uma pedra

(Meus passos enchiam de cores a paisagem

saturada de paleta)

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Besançon

novembro 8, 2012

Eu, tal como eu era já não existo mais. Desde quando passei por debaixo da ponte pelo caminho que leva ate a fonte da represa. Ou foi antes? Ou foi depois? Foi um dia em que senti um vazio completo. Era um dia de verão. Pleno verão. Um dia em que nada estava em minha frente. Somente acendi cigarro e vi velhinhos jogando a petanca. Pedi cerveja e sentei-me na terraca do bar. Era uma ponte, era um rio, um caminho, torres velhas e um morro íngreme atrás de mim. Eu bebia o mousse com vigor. Eu estava relaxado, o dia de pleno sol. Nada acontecia e eu tinha a certeza de que nada precisava acontecer. Era eu quem fazia acontecer. Como era louco ter uma certeza! Quanto caos pode ocorrer em quatro paredes! Ou nos limites de uma cidade que era o meu universo. Mas eu não estava preso; eu viajava. Quando quisesse. E nessas viagens pulava de um universo a outro. Tudo era fresco, tudo era pio. Ainda não estava infectado pela melancolia que me acometeria, por exemplo, na dura rosa da Basiléia, numa noite de quase inverno. A cerveja era boa e o tabaco me remetia aos ciganos da Andaluzia que eu não conhecia. O sol se escondia atrás do morro e era pleno dia e seria dia por muito tempo ainda. Era um dia vazio e eu gostava desse vazio.

Descobri mais tarde que o que eu sentia naquela tarde poderia ser interpretado como felicidade. A melancolia que a acompanhava posteriormente entraria facilmente no pacote. Felicidade, posta desse jeito soa como uma incrível combinação de fatores quase impossível de ser completada. E de fato ela nunca é completa. É o desejo de que ela se complete que torna a ilusão palatável, quase tangível. E depois, quando os fatores que desembocam na felicidade se desbotam, quando mesmo a ilusão mais opulenta se desfacela impotente diante da falta do objeto objetivo real, instala-se a melancolia, mórbido vinculo que guardo com o paraíso perdido, chave torta da porta entreaberta que se trancou.

Uma noite eu estava em uma festa em plena garganta da cidade, e resolvi sair. Andei pelas escuras ruas, escuras como eu gostava, passei pela antiga igreja e pelo pórtico romano e resolvi subir a cidadela. Subia a passos lentos, com um cigarro aceso entre os dedos (Naquela época eu ainda conseguia subir ladeiras fumando). As luzes iam rareando, o caminho mais curvo e íngreme, a mata ia se adensando e logo escuridão completa se formou. Era noite sem lua. Eu olhava para os lados e não tinha vontade nem de prosseguir nem de voltar. Fiquei imóvel por alguns instantes. Abri a braguilha e reguei longamente uma arvore e as plantas que estavam em volta. Assim que acabei, senti um frio na espinha e decidi voltar. A mata parecia ameaçadora, mas eu não tinha medo. Numa fresta entre arvores percebi as luzes da cidade, o arco romano, a cúpula da velha igreja. Voltava vagarosamente, sem vontade de cigarro, sem vontade de voltar à festa, sem vontade de nada. Já naquela momento meu destino estava selado, mas como eu seria capaz de adivinhar?