Palach

outubro 18, 2012

No âmago da neve eu renasci

Em profundo desespero morrerei

Renascerei infinitamente

Enquanto houver dor no mundo

 

Sou Palach

E minha história será escrita dez mil vezes

 

Nasci da manteiga e do choro das mães

Morri por escolha, em chamas

Como um pedaço de carne crua

Desamparado sobre a grelha

 

Sou Palach

E minha história será contada dez mil vezes

 

No centro da praça onde havia um ídolo

E antes disso dez mil histórias

Há hoje um metrônomo que marca

A cada instante o início dos tempos

 

Sou Palach

E minha história será esquecida dez mil vezes


Deus é escritor

outubro 18, 2012

Eis o que ficou dito a mim, mero servo do Senhor, naquela noite:

– A profissão mais próxima da obra do Deus é a do escritor. Isso digo porque creio que o exercício da escrita simula a experiência da criação absoluta. Os limites impostos pela arte de escrever, sejam eles de natureza ortográfica, semântica ou estilística, são para o escritor o que as limitações das leis físicas ou biológicas são para o Deus. Com uma sensível diferença, porém: estas próprias leis foram fundadas por Ele, ao contrário daquelas.

– Todo o restante é fruto da imaginação de ambos. E a imaginação é infinita, como é natural no caso do Deus; e beira o infinito – no caso do escritor.

– Da mesma forma que comparo o escritor ao Deus de sua história e de seu mundo, é permissivo dizer (a metáfora é biunívoca) que o Deus é o escritor do Universo. Ou seja, há um enredo, há uma história, há uma trama. Não há, por outro lado, começo, não há fim; não há portanto clímax ou anticlímax.

– Pois que o tempo da criação do Deus é infinito. Houve heresiarcas que  provaram ser o tempo cíclico. A discussão é inútil. Não pode ser cíclico nem anti-cíclico: é infinito e o infinito engloba todas as suas possibilidades, inclusive aquela, diminutiva, do tempo ter começo, e aquela outra, apocalíptica, do tempo ter fim.

– Mas o Deus não se dissocia de sua obra. Tampouco o Deus se dissocia das leis que Ele próprio criou para o pleno funcionamento das coisas postas no Mundo.

– Entretanto o Deus está em toda a parte e é infinitamente dimensional: é a circunferência de raio infinito cujo centro não está em lugar nenhum. Além disso, fato importante: Ele é maior do que a soma de todas as coisas do Universo.

– Não obstante, dentre todas as coisas possíveis, Ele criou-nos: nós, os homens (Existem infinitas coisas parecidas a nós ou a nós muito superiores que ele criou, está criando ou criará: disso tenho certeza). Nós, homens, escrevemos nossas histórias e assim imaginamos criar como cria o Deus. Mas, como somos mortais, escrevemos histórias que começam e terminam, que possuem clímax, intermezzos, prefácios e posfácios. Esperamos, vãmente, que as histórias do Deus sejam escritas da mesma maneira.

– Mas, como bem vos disse, o exercício da escrita apenas simula o exercício da criação do Deus. E simular significa a mesma coisa que dizer que um marionete é um ser humano. Não existem histórias de Deus, e sim a História do Deus.

– Aproximo-me assim de um ponto importante a respeito do que quero relatar-vos. A grande questão não-respondida reside no seguinte: o Deus, como omni-escritor da História, sendo ela infinita, já a escreveu completamente, tendo para isso um estoque infinito de História escrita? Sendo assim o presente nada mais é senão a reprodução quadro-a-quadro de um script pré-roteirizado? O futuro, desta feita, já está pré-definido? Teríamos então dois Universos: o potencial – o rascunho – e o em ato?

– Ou, ao contrário, o Deus é redator infinito da História infinita e acompanha com omnis (-ciência, -potência e -presença) a evolução infinitésima de cada átomo de cada canto do Universo? Nesse caso, cada instante presente é uma surpresa para criaturas da mesma forma que é para Ele, o criador. Com uma sutil diferença: o Deus, tendo acabado de criar o presente, tem prévia consciência (prévia porém omni, não nos esqueçamos) do que está acabando de criar. Mas, dessa maneira, mesmo sendo Ele criador da História, o Deus não tem como criar o futuro antes dele acontecer, já que está envolvido no processo de criação do presente de sua História.

– Não, e isso não é duvidar das possibilidades infinitas de Sua omnipotência. Prova Santo Agostinho: o passado é lembrança, o futuro é promessa, somente o presente existe como coisa real a ser pensada.

– Essa discussão é devidamente recalcada pelos homens através dos  antônimos fatalismo versus determinismo. Nada mais leviano (e nada mais humano) do que relegar o modus operandi do Deus a catálogos simplificadores. Pela exata razão de que “os desígnios do Senhor são impenetráveis” e que nenhuma outra questão filosófica (Camus discordaria disso) é tão angustiante quanto a ideia do infinito, o homem não se permite pensar que o Deus propõe para si e para o Universo que continuamente cria infinitas formas de agir, inutilizando assim qualquer tentativa de categorização.

– O homem sofreu por milênios ao transpor para o plano bidimensional aquilo que enxergava em três dimensões. Nem por isso deixou de enfeitar as cavernas de Lascaux e as basílicas de Constantinopla. Criou a técnica da perspectiva,  absorveu o fato de que inevitavelmente perde informação ao mutilar uma dimensão. Renasceu.

– Não tem percebido o homem, entretanto, de que tenta diminuir para as três dimensões de que dispõe o complexo multi-infinito-dimensional do qual é feita a matéria divina?

– Isso quando não é cegado pelas religiões, pródigas em transformar o Deus infinito em um deus unidimensional, garantidor do que chamamos de “Bem”, versus o não-deus, que chamamos de “Mal”. A criação desse deus pelo homem é em verdade bastante mesquinha, repousa sobre mais interesses do que poderíamos supor e não contempla (não quer/não pode contemplar) sequer a possibilidade dos infinitos caminhos da História do Deus.

Bom, a ideia do mundo como infinito é relativamente recente. Talvez porque até hoje seja extremamente difícil de compreender essa ideia.