A cidade não permite

abril 20, 2012

(Até certo ponto, eu,

Rodeado de fantasmas,

Tentei evitar evocá-los

Mas fantasmas me comovem

e clamam por um recito

Não consigo deixar de ouvi-los…)

 

Vi Mário de Andrade caminhando

em seu 1° de maio festivo

Que impasse: passar pelo Gasômetro

até o Palácio da Indústria

e dali ao parque e ao porto

Desolação: aquele lugar nada mais é

que um monte de caminho sem destinos

 

A cidade não permite comiseração

 

Mas creio ter ouvido o grito do napolitano

Oferecendo “Batat’assad ô furn!”

Em plena 23 de maio congestionada

E nada me parece mais risível do que

Meditar sobre a Ponte das Bandeiras

 

A cidade não permite

 

Moro não muito distante

Do antigo matadouro da rua do Curtume

À noite não me deixam dormir

Os horríveis guinchos de porcos

 

Daqui vejo galpões abandonados

De onde antes estalavam alarmes, klaxones e grevistas

No Largo da Lapa ouvi aos violeiros

E ao Antônio Antonelli que jamais verei novamente

Encostei-me em uma árvore e profundamente

Chorei

Que desgosto! Que dor no peito tamanha!

Aqueles que ali nasceram e viram ao decorrer

da vida seu bairro mansamente morrer

não entendem a dor que eu senti

Uma perda difusa

De algo que não é meu

De algo que pertence a todos

E que não é de mais ninguém

 

A cidade não permite comiseração

 

O trem que ao passar degolava cabeças

Não vai mais para muito longe

Já não funda cidades

Nem rasga fazendas

 

Pergunte a Dona Veridiana

porque seus filhos e netos

apreciam tanto fumar pedra

Ou porque não é saudável

caminhar atrás da bela igrejinha

depois das onze horas da noite

 

Pergunte a Dona Bibi

porque seu escravo liberto encachaçava-se

e não saía de perto de sua antiga prisão

 

Pergunte a Dona Augusta:

Para onde foram todos os seus alforriados?

E todos os recém-chegados?

Os que não falavam uma palavra deste idioma?

Os que desembarcavam em Santos

e tinham da hospedaria da Moóca

a primeira impressão do novo mundo?

 

Não permite

 

Não há lugar para tantos fantasmas

Sobe a cada ano o chão cinco centímetros

acumulados em sua argila estão todos os ossos

e livros, artigos de jornal, brinquedos de madeira

e fotos amareladas

 

Os cemitérios estão cheios

Os protestos rechaçados

e todos os piqueteiros estão em casa

Pelas ruas desertas não ouso passar à noite

Cravejadas que estão de espíritos

Histórias não-finalizadas

E projetos ainda por se cumprir

Ademais é inútil, fugaz, co-miserável:

 

A cidade não permite

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