Outrora

– Ora bem, vejamos: estávamos onde?

– Contava sobre a ida de seu sobrinho às Índias, meu senhor.

– Ah sim, bem me lembro! E que aconteceu depois?

– Alguém bateu à porta, meu senhor.

– Ah sim, é claro! E o que fiz após?

– Levantou-se de sua poltrona e andou em direção à porta, meu senhor.

– Sim, e o que fiz em seguida?

– Abriu a porta, meu senhor.

– E quem era?

– Era Afanázio, seu mestre de obras, a perguntar se deveria encomendar ou não 700 azulejos, 5 dúzias de achas, 7 lamparinas à graxa e 15 caixas de cerâmica para o piso.

– Ao que respondi…?

– Nada respondeu, senhor.

– O que fiz?

– Não se recorda, senhor?

– Não responda uma pergunta com outra. O que fiz?

– Golpeou-o, senhor.

– Como o golpeei?

– Com uma caneta-tinteiro, senhor.

– Estava onde, esta caneta?

– Sobre a escrivaninha, senhor.

– Pedi-lhe que me trouxesse esta caneta?

– Não, senhor. Foi o senhor mesmo buscá-la.

– Com calma ou apressadamente?

– Com calma.

– E então o golpeei.

– Isso.

– Mostrava eu ter razão para tal?

– Não senhor. Estava sempre amicável.

– Não estava zangado ou receoso?

– Senhor, não.

– Irridatiço, furioso?

– Sempre calmo, senhor.

– E após?

– Não se recorda, senhor? – pausa – Talvez não gostará do que vai ouvir, senhor.

– Ele morreu?

– Sim, ele morreu, senhor.

– Na hora?

– Quase que instantaneamente.

– Bem. E o que fiz após?

– Recitou, senhor.

– O que recitei?

– Odes a Dom Sebastião e toda a sorte de toadas populares.

– Interessante… Agradou-lhe?

– Não muito, senhor, para ser honesto.

– Digo, artisticamente, agradou-lhe esse recital?

– Sim, belíssimo. Esteve excelente, meu senhor. Que empostação!

– O que não agradou-lhe, então?

– Na verdade o que não me agradou foi ver-lhe recitar tão belas eloges ao lado de um corpo estendido ao chão, banhado em sangue. Tais cenas não combinavam muito bem, senhor.

– Não sabe apreciar um espetáculo. Mas então, como estava a contar, meu sobrinho enviou-me uma carta a dizer que se enganou de navio: está agora num negreiro, e só desembarca em Guadaloupe, o coitado. Enviou-me a missiva de Freetown, de onde pensou em escapulir. Foi aprisionado por piratas, o pobre! Sofreu horrores, segundo diz.

– Senhor: o senhor está flutuando.

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One Response to Outrora

  1. Que construção!
    Uau. Adorei Haroldo.

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