Persona

junho 30, 2010

Sabe senhor, quando eu disse aquilo, não quis dizer de maneira alguma que desaprovo sua atitude, pelo contrário: faço votos de que sua empreitada lhe traga bons frutos. Também o senhor se engana se pensa (como é provável que sim) que lhe quero mal por ter conversado com Camila sem meu consentimento.

De qualquer modo, não vim aqui para isso, mas para transmitir-lhe um recado de que Emanuela me incumbiu: que se dirija imediatamente à casa de Giovani, para dele receber instruções, as quais sinceramente ignoro. Disse-me também que o tempo é curto e que já Frederico desconfia, o que pode levar o plano por água abaixo. Eis minha incumbência. Agora tenha a gentileza de me esclarecer certas coisas:

Quem é Giovani? E Frederico? Quem são Emanuela e Camila, ambas completamente desconhecidas mas que cujas lembranças – supõe-se – deveriam pulsar em minha memória de personagem?

E que é o senhor, qual o seu nome e quais as relações que eu deveria ter com Vossência?

E principalmente: quem sou eu e de que sou feito: de carne ou de vontade de um poeta louco?

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Charlinhos Matignon

junho 30, 2010

Até que enfim!

Depois de nove anos, Charlinhos Matignon acaba de lançar seu último livro “Vida é Bônus” publicado pelas Edições Castrador.  Charlinhos é surfista, médico sanitarista, poeta e escritor. Conte-nos Charlinhos qual é a ideia central de seu livro.

– Meu livro inspira-se nos clássicos gregos. Quero bascular as estruturas. Desde o princípio penso que o mundo é o que nós nos representamos, sabes?! De maneiras que não tive dificuldade para escrever este livro.

Charlinhos, o seu nome é considerado o grande expoente da literatura mundial ao lado de novos clássicos como Gomez de Atalaya, Burka Namadran e Gertrude Galiliu. Como é para você estar no Olimpo ao lado desses deuses?

– Veja, tudo isso é fruto de muito trabalho. O sucesso não tem odor. Encaro naturalmente as agruras da demência midiática. No mais, busco o prazer: sou hedonista, sabes?!

Conte-nos sobre seu affair com Cassandra Taylor.

– Cassandra é muito talentosa e tem muito carisma. Seu aparelho fotográfico é muito bem dotado.

Charlinhos, qual a sua cor predileta?

– Logicamente o azul Stravinsky.

Charlinhos, você tem computador portátil?

– Claro que tenho!

E telefone portátil?

– Claro que sim! Por quem você me toma?

Mudando de assunto, Charlinhos. Qual o futuro da literatura na sua opinião?

– A literatura será divertida, interessante e popular. É um fenômeno que se respalda cada vez mais. Tenho motivos para acreditar nisto.

Interessante… Charlinhos, as recentes descobertas de paleontólogos apontam para os profundos laços que nós, seres humanos, temos em relação a outros animais. Qual a sua opinião sobre esta polêmica?

–  Do ponto de vista ósseo, pode ser que sim. Mas não mais que isso. Acredito que entre nós e os animais há uma grande diferença que é a lucidez.

Charlinhos, como entender as recentes declarações depreciativas de Abraão Gorgógenes de Mello a respeito de seu trabalho?

– Abraão não tem mais o que fazer. Deveria é cuidar de sua própria vida e de seus problemas familiares que, aliás, não são poucos e dos quais eu sou causador.

Charlinhos, você tem hobbies??

– Surfar, ouvir músicas, praticar balonismo…

Balonismo???

– Sim, é um excelente esporte. Recomendo a todos. Também gosto de cricket.

Charlinhos, o que você sentiu no dia em que lhe enterraram vivo?

– Por favor, não quero falar sobre isso! Avisei no começo da entrevista.

Qual o lugar do mundo de que você gosta mais, Charlinhos?

– Nova Iorque… adoro Nova Iorque, aqueles prédios enormes, a vida agitada ah adoro Nova Iorque. Adoro Paris também. E Roma também.

E o lugar de que você menos gosta, qual é Charlinhos?

– Ah, Cubatão. Cubatão é muito poluído, muito feio. Nunca fui e não gosto de Cubatão.

Obrigado pela entrevista, Charlinhos.

– Não tem de quê.


Outrora

junho 18, 2010

– Ora bem, vejamos: estávamos onde?

– Contava sobre a ida de seu sobrinho às Índias, meu senhor.

– Ah sim, bem me lembro! E que aconteceu depois?

– Alguém bateu à porta, meu senhor.

– Ah sim, é claro! E o que fiz após?

– Levantou-se de sua poltrona e andou em direção à porta, meu senhor.

– Sim, e o que fiz em seguida?

– Abriu a porta, meu senhor.

– E quem era?

– Era Afanázio, seu mestre de obras, a perguntar se deveria encomendar ou não 700 azulejos, 5 dúzias de achas, 7 lamparinas à graxa e 15 caixas de cerâmica para o piso.

– Ao que respondi…?

– Nada respondeu, senhor.

– O que fiz?

– Não se recorda, senhor?

– Não responda uma pergunta com outra. O que fiz?

– Golpeou-o, senhor.

– Como o golpeei?

– Com uma caneta-tinteiro, senhor.

– Estava onde, esta caneta?

– Sobre a escrivaninha, senhor.

– Pedi-lhe que me trouxesse esta caneta?

– Não, senhor. Foi o senhor mesmo buscá-la.

– Com calma ou apressadamente?

– Com calma.

– E então o golpeei.

– Isso.

– Mostrava eu ter razão para tal?

– Não senhor. Estava sempre amicável.

– Não estava zangado ou receoso?

– Senhor, não.

– Irridatiço, furioso?

– Sempre calmo, senhor.

– E após?

– Não se recorda, senhor? – pausa – Talvez não gostará do que vai ouvir, senhor.

– Ele morreu?

– Sim, ele morreu, senhor.

– Na hora?

– Quase que instantaneamente.

– Bem. E o que fiz após?

– Recitou, senhor.

– O que recitei?

– Odes a Dom Sebastião e toda a sorte de toadas populares.

– Interessante… Agradou-lhe?

– Não muito, senhor, para ser honesto.

– Digo, artisticamente, agradou-lhe esse recital?

– Sim, belíssimo. Esteve excelente, meu senhor. Que empostação!

– O que não agradou-lhe, então?

– Na verdade o que não me agradou foi ver-lhe recitar tão belas eloges ao lado de um corpo estendido ao chão, banhado em sangue. Tais cenas não combinavam muito bem, senhor.

– Não sabe apreciar um espetáculo. Mas então, como estava a contar, meu sobrinho enviou-me uma carta a dizer que se enganou de navio: está agora num negreiro, e só desembarca em Guadaloupe, o coitado. Enviou-me a missiva de Freetown, de onde pensou em escapulir. Foi aprisionado por piratas, o pobre! Sofreu horrores, segundo diz.

– Senhor: o senhor está flutuando.


Recordar é Morrer

junho 17, 2010

Lembrar de algum acontecimento é como retirá-lo de uma redoma sem ar. Ar é algo que oxida. Tudo, e oxida a vida. A lembrança é como um bichinho que com o tempo vai se decompondo, perdendo os traços, e mesmo a mais estarrecedora delas vai com o passar se tornando mais simpática, mais aceitável, até risível. Lembrar tira o objeto passado de seu estado vegetativo, inerte e pacífico e o traz para o mundo poluído, cheio de ruídos e sem qualquer sentido – o presente. Decerto que enfraquece o frágil fóssil mental. Pra que é que se lembra duma lembrança, senão com a intenção dolosa de matá-la?

É claro que nenhuma lembrança é inocente, ou não as teríamos tão bem encapsuladas em cantos remotos da mente. E isso faz com que, no momento em que a resgatamos, sejamos contaminados por ela, como o arqueólogo que, ao desentumbar uma múmia, seja atacado por uma gripe inerte há quatro milênios.

Francisco de Carvajal, conquistador espanhol, era homem crudelíssimo, conhecido como ‘o demônio dos Andes’. Por conta da guerra civil que liderou junto com Gonzalo Pizarro contra el Rey, foi sentenciado à pena de morte, seu corpo esquartejado e suas partes expostas em vários lugares do Perú. Garcilaso conta que uma criança, brincando com seus amigos, foi cutucar a carniça exposta de Carvajal e afundou demais o dedo na podridão. O pobre adoeceu, perdeu parte do braço e por pouco não morreu. Carvajal – e são assim muitas lembranças – conseguia fazer o mal mesmo depois de morto.


Se o que for pra se dizer fique aqui

junho 16, 2010

Se o que for pra se dizer fique aqui, então direi as coisas que me incomodam, aporrinham ou simplesmente ressoam, ou que carcomem o espírito, ou simplesmente direi as coisas, ou mais simples ainda, direi. Agora, é bom que se saiba que o dito, depois de dito, dito está, ressoa infinitamente no ar, e embora perca a força original com o passar dos séculos e milênios, continua vagando por aí, como as moléculas da saliva do César. O silêncio, no entanto, nem vagamente se desprende: é o vazio das coisas não-ditas e engolidas: não cria história nenhuma, nem eco, nem sombra, e nem sequer vazio.

A inoperância pouco simpática da minha cabeça depois de vinda a esperada idade adulta é algo que me tem feito pensar. No entanto, é incrível como certas coisas que antes me pareciam muito mais complexas perderam muito – metade – do sentido que tinham quando da cabeça hiperativa juvenil. É também incrível que certas coisas jamais pensadas ou proscritas de um pensamento anterior sobrevêm ao espírito atual de forma incrivelmente natural. Incrível? Só podem ser incríveis coisas dessas para uma cabeça pouco operante.

Sobre a primeira coisa incrível: é possível que muitos dos meus pensamentos complexos tenham se desestigmatizados com a vivência ou com a utilização de raciocínios resolvedores. Já para alguns casos é possível que inconscientemente adotei uma postura de esquecimento, de redução, de simplificação do problema pela fuga do pensar. Noutros casos, nem uma coisa nem outra: há coisas que parecem complexas e de fato são, não são resolvidas com lampejos de pensar nem com fuga e simplificação; pairam por aí, irresolvidas, pingentes pendentes de minha mente.

Sobre a segunda coisa incrível: os pensamentos mudam de foco e assunto conforme ganham (ou perdem) corpo, conforme os anos e a vivência vão pesando sobre eles. Deus!: nada de novo nisso, correto? Por que é que então às vezes penso nisso e me surpreendo? Eis talvez a resposta: é que como desconheço minha realidade e quem sou realmente, tendo a olhar para mim mesmo a partir dos meus pensamentos, da minha história interna, somatória distorcida de todos fatos pensados e agidos. Vejo-os mudando conforme vão-se os anos, e vejo-me mudando na mesma toada. Daí o incrível: que continuo não tendo controle dessa situação, como nem nunca tive.

Muita calma nessa hora: é possível ter controle sobre o que se muda em mim? Como quando eu era pequeno, e à noite na cama  ficava imaginando ser uma pessoa X (que era exatamente a pessoa que eu gostaria de ser), esperando que pela simples força do pensamento eu agiria como essa pessoa X, tão logo eu acordasse pela manhã. Mas eu acordava e continuava sendo eu mesmo, e a frustração não era menor do que quando eu tentava levitar meus brinquedos com um passe de mágica aprendido na televisão, e nada, absolutamente nada! acontecia. Como é que se muda a si mesmo por controle próprio? A física permite que isso ocorra?

Vem a mente algo: e se as coisas que vão mudando em mim não me pertencerem de fato? Pois que se não me pertencem, não tenho controle sobre elas. Mas que fazer então do âmago, esse que não muda em mim, esse que é o que é? Desse tenho menos controle ainda, ele é o que é  quase que independente de mim. Quase, porque ele é o que é, ok, mas o é em mim. Bom, pensando dessa maneira não mexo em nada porque nada é meu mesmo, e posso quebrar algum cristal com meu jeito estabanado… No entanto, exatamente esse “quase” infunda o argumento: sendo o âmago “quase independente” de mim, já não pode sê-lo, pois se há algo que pode depender de mim para ser o que é (e que simplesmente é), pode não ser ente separado de mim e, portanto, pode depender de mim, de meus pensamentos e de minha ações para ser o que é.

Então será justamente o contrário? Se as coisas que vão mudando de fato me pertencem, pois que são externas a mim? E se são externas a mim, acessórios ou aparatos do que sou realmente, tenho condições de alterar suas condições e mesmo configurar sua existência, como itens de série que incluo num orçamento? Nem o “âmago” – o que é o que é – me parece tão imutável assim desse ponto de vista, já que seu limite é indefinível e parece que se completa justamente pela ação das coisas exteriores. De forma que tudo não muda: tudo é mutável, e pode formar-se ou deformar-se por minha própria ação. Minha ação, e de ninguém mais. Bom, ao menos no que diz respeito a mim, o mesmo.


Quintana

junho 16, 2010

Muita vez me entretenho em reconstruir de memória a nossa antiga casa paterna. Deixo-me estar no caramanchão, com sua mesa de pedra apanhando o sol coado pelas trepadeiras. Quanto aos longos corredores, será melhor que os evoque de noite, quando, no escuro do quarto, fico a imaginar que a noite de agora está cobrindo ainda a velha casa.

Sim! nesta época de grandes transformações arquitetônicas, a nossa alma teimosa continua morando nessas casas fantasmas.

Reconstruíram a cidade antiga, mas esqueceram-se de reconstruir as nossas almas. Daí, a instabilidade contemporânea.

Porque não somos contemporâneos de nós mesmos.

Porque, hoje, só podemos dizer com saudade aquele belo verso de Sainte-Beuve:

“Naître, vivre et mourir dans la même maison…”

Mário Quintana – A Vaca e o Hipogrifo


Popocatépetl

junho 11, 2010

Nunca tive dúvidas: o vulcão me chama.

Nem nunca tive dúvidas: um dia a hora – esta hora – chegaria.

E para ser sincero contigo, meu honorável inimigo, das engrenagens do tempo eu já conhecia esta data e esta hora: não era Água e Coelho, não era Grama e Serpente, nem era dia de entes rasteiros quaisquer, mas dia da Águia e do Jaguar, e a hora era a undécima, Sol em quase zênite.

Porque hás de convir que nossa vida aproxima-se do apogeu: eu vejo teu peito cheio de medalhas, tu vês minha coroa cheia de plumas. Nossos escudos sempre foram os mais brilhantes e, no meio de uma turba gigantesca de guerreiros em marcha veloz, a léguas de distância, eu te reconhecia e tu me reconhecias. Nós não nascemos príncipes, nós nos tornamos príncipes. Que mais precisaríamos provar aos deuses? Poucos são os homens que em nossa tenra idade chegaram onde nós já chegamos. Estou certo de que tudo o que advirá não passará de uma longa, tediosa e inescapável derrocada.

Honorável inimigo, nós já assistimos a muitas girândolas de homens-pássaros, nos jogos de Quetzacoátl jogamos juntos o caucho, já bebeste o chocolatl oferecido em minha casa e, lembro-me bem, por três vezes repetiste o maíz. Conheces meu pai, minha mãe, apresentei-te à minha mulher e meus filhos. Foste meu comparsa, meu amigo, meu confidente, e como eu admirava tua bravura, tua destreza, tua lealdade!

Se eu tivesse exata consciência do que viria, talvez não teria hoje meus olhos tão embotados, nem meu coração desse jeito, em brasas. Tu não te lembras então daquela noite em que fomos ter com o sacerdote? Todos os maus presságios que ouvimos me deixaram com frio na espinha por duas semanas… Lembras-te do que falara sobre os perniciosos demônios barbudos vindos do oeste? Dos monstros de seis patas e duas cabeças? Das inúmeras traições que nos atingiriam de todos os lados, como um mar de flechas? Mas diz-me: mesmo antevendo o pior, seria possível adivinhar uma desgraça tamanha insensata e infinita como a que tem sido? Seria possível supor que o Sol pararia de girar sobre nossas cabeças, que nosso Imperador seria humilhado e trucidado como um cervo em sacrifício, que nosso povo seria liquidado e pisoteado por uma horda de loucos demônios, ávidos engolidores de metal?

No entanto minha imaginação, por mais fértil que fosse e por mais premunida que estivesse, jamais poderia conceber que tu um dia poderias juntar-se aos demônios, compactuar com eles em troca de promessas vazias e honrarias que não valem a saliva de uma serpente! E finalmente, que pudesses um dia pensar em me trair como hoje o fazes… Mas as obras divinas somente trabalham acima de nossa compreensão.

A flecha que atingiu a dama-vulcão Iztaccíhuatl e a fez adormecer hoje me atinge. Não ouso blasfemar-te. A hora aproxima-se do zênite e é exatamente neste dia que o que tem de ser feito deve ser feito. E que seja feito por tuas mãos, nobre príncipe. Da borda do imenso Popocatépetl que vela pela amada adormecida, eu saltarei do mundo dos vivos e entrarei em rasante no mundo dos ares infinitos.

E tu, honorável inimigo, tu ficarás aqui em cima, sobre o vulcão, e velarás pelo meu voo.