Cosmogonia – Atlas e outros deuses

março 30, 2010

Antes de aprender a ler, eu já vasculhava mapas, fascinado. Havia em casa um grande atlas escolar de cuja capa ainda me lembro bem, assim como de suas cores, das bandeiras nas contra-capas e da fita crepe segurando suas folhas soltas.

Era de fato um atlas antigo: os mapas de relevo não revelavam gradientes de cores como os que se veem hoje no Google maps, e tampouco esse era o [meu] foco: a maioria dos mapas eram políticos, com os continentes divididos por uma massaroca de cores e envoltos num oceano azul como o que pinta os hiperlinks, uniforme e irreal.

As cores definitivamente não me agradavam. Não faziam o menor sentido, e realmente me incomodavam. Era talvez a arbitrariedade das escolhas, as cores pouco vivas, a falta do vermelho, a falta do azul, o excesso do rosa… O Brasil era rosa! Uma grande mancha rosa! Assim como o Chade, o Canadá e a União Soviética! Não conseguia ver nenhuma conexão entre esses países e a cor rosa! Minha implicância era ainda maior em se tratando do Chade, que eu sabia ser deserto em sua maioria. Por que não pintá-lo de laranja como os Estados Unidos, que eu sabia ser deserto em sua minoria? E o Brasil não mereceria um verde, já que é floresta em sua maioria? O certo é que, apesar de estar matematicamente provado que qualquer mapa pode ser totalmente pintado com apenas quatro cores sem que dois vizinhos partilhem a mesma cor, é raro ver um mapa político com menos de seis cores.

Não entendia bem o que significavam aqueles desenhos sem critério: não havia naquelas linhas que dividiam os países nada que sugerisse objetos do mundo real (e no esforço de minha imaginação infantil consegui enxergar, além da óbvia bota italiana, a Espanha como um pião e uma chuteira no lugar do Mar Negro – embora esse eu não pudesse contar como país!). Demorei para entender (e talvez ainda hoje não entenda) que a determinação de cada uma daquelas linhas sempre envolveu no mínimo dois lados em contendas que vão de tratados arbitrados diplomaticamente à guerras sangrentas, genocídios e fratricídios. Também à época não imaginava que muitas daquelas linhas sequer eram reconhecidas por todos os povos, que eram frutos de invasões ou ríspidos desrespeitos. Ali, na época, eu simplesmente achava engraçado o fato de haver tantas linhas retas na África, e tão poucas na Europa. Não podia imaginar que esta havia dividido aquela, nem ousava pensar no porquê. Eu simplesmente acreditava naquele desenho, embora não o compreendesse, e via naquelas linhas verdades estáticas. No fim daquela mesma década, graças a queda do muro de Berlim e a um careca com uma mancha na testa, descobri ao vivo que não era bem assim que as coisas funcionavam…



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