Cortés no Espelho (XVII)

novembro 6, 2011

Zzzuuuuuuummmmmmm….

Zonzo sob zumbidos, acabara de ver entreaberta a porta que dá para a  máquina do mundo. A pleno vapor. Cléo me fez enxergar outra parte desse extenso enigma. Minha cabeça estava a mil, e titânica me parecia a tarefa de encadear sequencialmente as ideias que advinham aleatórias, brotavam espontâneas e distintas, como num Aleph mental. Era-me no entanto necessário esse esforço, no afã (duplo) de dividir meus pensamentos sem passar por louco. Cléo, não sei se por curiosa ou  assustada, resolveu seguir-me.

- Queremos ir juntos!

Na soleira da porta estava Pintassilgo abraçado a uma sósia em tudo idêntica a Cléo.

- Ouvimos tudo o que vocês estavam falando, e queremos ir juntos!

- Você não tinha mais o que fazer a não ser nos bisbilhotar? Guim, essa é minha irmã, Lavínia.

Fiquei pasmo. Minha perplexidade era evidente e tampouco procurei escondê-la.

- Você então tem uma irmã gêmea, Cléo?

- Sim… E ela é meu espelho, Guim…

- Confesso que por um momento fiquei confuso ao vê-los ali na cozinha, abraçados. E você se chama Lavínia… Espera: Cleusa e Lavínia não são as duas mulheres de Enéas?

- Sim. Meu pai, professor de latim, era sobretudo um esteta, um literata.

- Não, Cléo. Nosso pai era antes de tudo um misógino! Se uma terceira filha tivesse tido, teria-lhe dado o nome da amante, Dido.

Pintassilgo parecia alterado e não demonstrava um átimo sequer do melindre do qual fora vítima diante de dona Salomé e Teresa, duas horas antes. Parecia divertir-se com minha estupefação. Nenhuma novidade nisso, aliás. Mas dessa vez parecia feliz, realizado: tinha nos braços uma bela garota, tinha a noite ganha e nos lábios malicioso sorriso expelindo a seguinte fala:

- Guim: iremos juntos. Esta festa já era. Todos estão demasiadamente loucos. Ademais, consignei uma garrafa de mezcal de Carvajal. Ei-la! Arriba, arriba! E de Ostrogodo consegui um daqueles famosos cigarrinhos…

Risadinhas tácitas de Lavínia. Ela era belíssima como a irmã, mas havia nela uma certa vulgaridade que a tornava insípida. Ademais, odiei aquela cumplicidade recém-adquirida, aquele subentendimento superficial entre os dois.

Tinha Cléo a meu lado, apesar de tudo. Apesar de não saber exatamente o que ela pensava sobre mim e sobre as coisas que lhe contei, apesar de não saber se ela me achava simplesmente um louco divertido, apesar de não entender o que me diziam aqueles indecifráveis olhos de galáxia. Amava-a, somente, e sentia-me preenchido pela sua presença. Definitivamente eu estava confuso e não tinha, ao contrário de Pinta, a noite ganha.

Não podia entretanto abalar-me. Eu tinha que ser pragmático. O tempo corria contra mim e eu precisava entender logo algo que era muito mais importante do que o que acontecia ali. Afinal era aquele o dia! E em pouco tempo terminaria!

- Bem, vamos então.

Descemos as escadas. Ao sairmos pelo portão, deparamo-nos com Buiú, Panda, Chacal, Carvajal e Ostrogodo olhando para o alto, admirados.

- O que foi?

- Olha lá!

Viramo-nos em direção ao Pilar e vimos raios de luzes vermelhas e brancas dançando no céu acompanhadas de um longínquo som de coro e órgão.

- O que está acontecendo, Buiú?

- Faz parte das festividades. É uma apresentação de um organista famoso, tcheco ou alemão, creio eu. Sei lá. É coisa pra grã-fino.

Cléo disse, encantada:

- O órgão da igreja do Pilar é simplesmente incrível.

Despedimo-nos: “Salud y pesetas!” de Ostrogodo. Pintassilgo abraçava muito amistosamente Carvajal prometendo decerto restituir sua garrafa algum dia. Chacal, evidentemente bêbado, fitou-me um longo instante murmurando palavras soltas: “a fera… aquela que está em você…”. Adeus.

Já subíamos metade da ladeira quando Panda esbaforido liquefazendo-se alcançou-me e puxou-me pelo braço, dizendo:

- Você não me perguntou o porquê, James!

- O porquê do quê, Panda?

- Do quarenta e três ser o meu número primo preferido.  Pergunte-me o porquê, James!

- Ok.  Por quê?

- Porque é o décimo quarto número primo, James. Simples!

- Ah tá. E?

- Como assim “e”? Então não era você o amarradão por números que ontem mesmo nos fez engolir um monte de sandices? Faça as contas: quatorze menos um – você, que existe sem existir! – dá treze.

- Um dos números sagrados.

- Agora faça quarenta e três menos quatorze.

- Dá vinte e nove.

- Exatamente: vinte – Panda fez um gesto apanhador com a mão direita – e nove – e repetiu o gesto com a mão esquerda.

- Os outros dois números sagrados!

- Não é incrível?

- É meio forçado, mas não deixa de ser fascinante.

- Sabia que você iria gostar! Avanti, piccoli diavoli!

E virou-se de relance, descendo a ladeira a milhão sob efeito combinado da gravidade, do próprio peso e do álcool. As duas irmãs riam, maravilhadas pelo cômico da cena. Eu já não conseguia mais rir. Sentia minha cabeça pesando tanto quanto um bloco de hematita, invadida por um zumbido que teimava em permanecer. Eu precisava urgentemente expeli-lo.

Ao chegarmos diante da porta da pensão, Cléo estancou, observando com curiosidade a placa de ferro fundido que rangia sobre o batente e que anunciava há muito tempo, dado o seu deplorável estado tetânico, o nome da pensão.

- Sabe o que significa “Boanerges”, Guim?

- Não. Não faço ideia.

- Pois devia. Tem relação direta com o seu nome.

- Como assim?

- “Boanerges” é o nome pelo qual Jesus se referia ao discípulo Tiago, também conhecido por São Tiago Maior, ou ainda por São Tiago de Compostela.

- E o que significa?

- Em grego antigo significa “Filho do Trovão”. Ele era assim chamado por conta de seu caráter enérgico, cheio de ímpeto.

- Eu… não entendo. “Boanerges” é o que está escrito abaixo de “Goméz de Alvarado” no brasão da família de Dona Salomé. Não consigo ver qual a relação entre ambos.

 Pintassilgo intrometeu-se.

- Vamos subir, por favor, gente? Ou vocês querem ficar congelando aqui nesse vento?

Receoso de acordar Dona Salomé ou Teresa, subimos delicadamente as escadas e entramos no quarto em completo silêncio. Discretamente empurrei as badernas sobre a cama para trás dela, e empilhei os livros da escrivaninha num canto. Enquanto isso, Pinta completamente dono da casa conectara o seu player às caixas de som, servira a todos mezcal em copos de plástico encontrados Deus sabe onde e revirava os bolsos na esperança de encontrar isqueiro. Cedi-lhe o meu e em troca sequestrei-lhe um cigarro. Lavínia enrolava-se entre os braços de Pinta. Eles estavam realmente à vontade, o que me deixou, para dizer a verdade, bastante constrangido.

You know the day destroys the night

Night divides the day

Também Cléo sentou-se confortável em minha cama, e apoiou suas costas na parede. Era naturalmente linda, mas naquela noite estava particularmente deslumbrante. Eu, envergonhado, sentei-me ao lado dela, rígido. Acendi o cigarro e ofereci a ela compartilhamento. Ela aceitou e deu uma profunda tragada com os olhos fechados, como se estivesse refletindo. De repente estacou, abriu os olhos e virou-se para mim:

- Espera aí. Como você disse que se chama a dona da pensão?

- Dona Salomé.

- Hmmm… Interessante. Aí está a relação que você procura. Está em Mateus: Salomé é o nome da mãe de São Tiago.

- Não vejo nenhuma ligação. Dona Salomé nunca teve filhos. Ou você por acaso insinua que ela pode…

Pintassilgo, que até então segurava no peito um longo trago, soltou uma grande baforada em direção a Lavínia e disse, voz macerada pela rouquidão:

- Guim, não é por nada não, mas a Dona Salomé lhe trata como um filho.

- Ok, pode ser, mas ela não é minha mãe, cara!

- Você nunca me falou de sua mãe, Guim.

- Não tenho muito o que falar. Não a conheci, eu era muito novo quando ela morreu. Acho que não devia ter dois anos. Desde que me conheço por gente, sempre fui criado por meu pai.

Cléo, amaciando meus ombros com a mão, perguntou-me, sensibilizada:

- E como é que se chama seu pai?

- Zebedeu. Ou Zebe, como ele prefere ser chamado.

- Guim! Você está brincando comigo!

- O quê?

- Zebedeu é o nome do pai de São Tiago!

Arregalei os olhos. Minha cabeça balançava negativamente, o zumbido não cessava, pelo contrário: tornava-se mais e mais ensurdecedor.

Tried to run!

Tried to hide!

- Não… Não… Isso não passa de uma coincidência.

Nesse momento fui interpelado por Pintassilgo:

- Qualé Guim. Você mesmo me disse há algumas horas atrás que não existem coincidências! Esqueceu-se?

Cléo aproximou-se ainda mais e falava tão próxima a mim que senti sua boca colada em meu ouvido.

- Além do mais, querido, não estamos falando de José e Maria. Salomé e Zebedeu são nomes que não se veem todos os dias…

Levantei-me bruscamente. Os presentes me olharam, chocados. Mesmo Pinta, que calmamente devolvia às narinas de Lavínia a fumaça do pega que inalara, assustou-se ao me ouvir tão contundente.

- Isso é demais para mim! Ouçam-me com muita atenção, por favor. Vocês julgarão se o que eu tenho a dizer é pura obra da insanidade ou se das coisas que me acometem existe algo que tem e exige explicação!


Cortés no Espelho (XVI)

outubro 8, 2011

- Você estava esse tempo todo aí, me olhando?

- Vim guiado pela sua voz…

- Continua com medo da própria imagem?

- Tenho descoberto cada vez mais coisas sobre ela. E sim, isso me aterroriza.

- Sabe jogar xadrez?

- Um pouco…

- Quer jogar comigo?

- Depois da surra que você deu no Chacal, sei não…

[Era claro que eu queria! É no entanto de meu feitio - meu dever e minha salvação - dizer tortuosamente as coisas que sinto.]

- Senta aí. Quer começar?

- Não, pode ficar com as brancas.

[As simbologias começavam a ficar um tanto óbvias, mas preferi não desafiar o enigma e suas caprichosas implicações com teimosia tardia. Estava destinado às pretas, por ser exatamente o Tezcatlipoca. Claro, daí a deduzir que minha bela oponente simbolizasse o Quetzalcoatl talvez fosse um passo longo demais. Fosse talvez preferível não precipitar nenhuma conclusão.]

- Não vai arrumar suas peças?

- Vou, eu vou…

[Inverti cavalos com bispos.]

- Espera aí. Você não sabe jogar xadrez, sabe?

- Sei sim, quero dizer, não muito… Cléo, me diz uma coisa: como é que você fez aquilo?

- Aquilo o quê?

- Prever um mate dois lances antes. Como é que você sabia o que o Chacal iria jogar?

- Não tem nada de misterioso nisso. Antecipei algumas jogadas mentalmente e adivinhei que Chacal não teria escolhas a não ser defender seu rei com o peão. Vi que Chacal estava confiante demais por ter tomado a rainha que eu lhe dei e desprotegeu-se. Armei um jogo com cavalos e em 10 jogadas arrematei.

- Você deu a ele a rainha?

- Claro! Precisava lhe dar alguma vantagem, ou o jogo ficaria muito monótono… sabe como é. Comecei.

[Minha perna sacudia nervosamente até então. Quando ela falou aquilo, decidi relaxar: percebi que a partida estava perdida a priori. Ela, no entanto, fez questão de jogar comigo. Decerto porque queria que eu estivesse ali! Ou talvez fosse mero amor ao jogo...]

- Eu acho isso incrível! Como é que você conhece tanto de xadrez?

- Jogo em família desde pequeno. Amo xadrez!

[Segunda opção...]

- É mesmo?

- Aprendi vendo meu pai jogar com minha mãe. Comecei jogando partidas com minha irmã, daí passei a jogar com meu pai. No começo, para me incentivar, ele me deixava ganhar. Se soubesse que nunca mais ganharia uma partida de mim, talvez não tivesse me dado moleza no início! Sua vez.

[Em poucas rodadas, quando dei por mim vi um cavalo e uma rainha perigosamente posicionados no meu lado do tabuleiro. Antes de um iminente cheque e na desesperada tentativa de atrasar o jogo, fiz roque.]

- Não podia imaginar que você se interessasse tanto por xadrez, Cléo.

[Ela interrompeu intempestivamente o jogo e alcançou sua bolsa que estava no chão, ornada de mil flores crepons. De dentro, sacou uma apostila encadernada e colocou-a diante de meus olhos. Atônitos.]

- O que é isso?

- Meu TCC.

- Que interessantíssimo! ”Xadrez na literatura: de Rudrata a Perec“. Perec? Georges Perec? Conheço!

- Sério? Você conhece Perec?

- Há um conto dele que eu li umas dez vezes, “Quel petit vélo à guidon chromé au fond de la cour?”. Adoro aquela parte em que os amigos do Karacoisa - aquele a quem chamam Youghourtophage - comentam sobre o livro do Lowry: “Ça, c’est un bouquin!“. Um encontro fortuito porém magnifico de dois gênios do escabroso!

[Empolguei-me? Cléo me olhou de um jeito que me desconcertou completamente.]

-  Você não para de me espantar, Guim, James, Tiago, ou seja lá você quem for!

- Pode me chamar de Guim, se você quiser. O que mais me espanta nesse livro é semelhança entre a triste condição de Karatruc e a minha… Face a um destino monstruoso completamente incapaz de conduzir, rodeado de personagens tragicômicas que tentam pateticamente salvá-lo. Mas não há salvação possível! No fundo Karachose é o único a saber disso desde o início, e só a ele a realidade severa se lhe apresenta incontornável. E no entanto, seu sonho era simples e magnífico: rester dans les bras de celle pour qui son cœur bat.

- Mate em três lances!

- O quê? Como?

[Depositara sem piedade um bispo em cúmplice diagonal de torre irresistível. Analisei a partida, perplexo, ainda voltando de meus devaneios não-correspondidos. Qualquer movimento de defesa pressentia-se inútil. Era de fato inevitável. E ao mesmo tempo totalmente previsível. Cléo enigmática guardava um micro-sorriso no canto da boca. Ela era realmente brilhante. E sua inacreditável beleza não conseguia deixar de transparecer um algo de malévolo que me intrigou - e aterrorizou, eis a palavra - por instantes.]

- Leu Un homme qui dort, leu Les choses? Ao menos o La disparition?… Então você ainda não conhece Perec, Guim. Não há gênio igual! Amo-o! No Oulipo foi o maior dos deuses,  escreveu sobre as coisas, sobre um homem que dorme, sobre a guerra da Argélia, escreveu o maior palíndromo em língua francesa, criou cabalas, escreveu um romance inteiro sem a vogal ‘e’ e uma resposta a esse usando como vogal somente aquela. Finalmente, escreveu seu hiper-romance “Vie, mode d’emploi” tendo como base a dança do cavaleiro em tabuleiro 10 por 10.

[Epa.]

- O que é a dança do cavaleiro?

- É um problema matemático que envolve o movimento do cavalo no tabuleiro. O cavalo é colocado no tabuleiro vazio e, seguindo as suas regras de movimentação no jogo, precisa passar por todas as casas exatamente uma vez. Vem de Rudrata, poeta indiano do nono século, a mais antiga referência ao xadrez, bem como a mais antiga solução ao problema. São dele os seguintes versos [retira gentilmente o encadernado de minhas mãos, vira algumas páginas e lê o que segue:]

Segue frenética a dança dos cavaleiros

Onde cada salto é dom e sacrifício

Sua justiça aplaca a fúria do Darma.

Quando o ciclo afinal completar-se

Seus antepassados poderão enfim dormir…

Em seguida, para meu maior assombro, Cléo retirou todas as peça do tabuleiro, uma a uma, tomou um cavalo [branco] e o fez saltar em L pelas casas. Deu-me intenso arrepio vê-la fazendo os mesmos movimentos que vira sair das mãos de Moctezuma. Nesse momento lembrei-me de suas palavras enigmáticas: “Quetzalcoatl tem o cavalo mas eu sou o Rei. Nunca haverá mate.”

- Existem trilhões de caminhos que solucionam esse problema, como prova Euler 900 anos mais tarde. Mas a primeira documentada vem do Islã. Uma pequena elipse de tempo separa os ornamentos sobre a capa dos poemas de Rudrata dos estudos pioneiros de Al-Adli sob o califado de Al Wathiq.

[Meu Deus como falava lindamente! Meu Deus, que medo enorme de morrer nesse exato instante!]

- Mas segundo Moctezuma, Alvarado, o diabólico ‘El Sol’ que o ensinou – malgré tout - a jogar xadrez, rendia “Justiça” aos mouros. Logo deve estar falando da escola árabe.

- Querido [Querido?], o xadrez chegou ao mundo ocidental, e especialmente ao nosso mundo ibérico pelas mãos escurecidas dos árabes. Com certeza seu amigo, quem quer que seja, deve estar falando de al-Adli, pois que seu nome significa em árabe, fundalmentemente, “Justiça”.

[Amo-a! Amo-a! Deus, existes? Deus, sei que não existes! Sei que  a vida não tem nenhum sentido. Entretanto amo-Vos! Pois amo-a!]

- Cléo, eu não sei o que está acontecendo, mas agora vejo diante de mim quase todas  as peças de um grande jogo de xadrez! Você é um presente de Deus! Vem comigo, eu preciso de você, só você, de certa forma, entenderá o que tenho a lhe mostrar!


Cortés no Espelho (XV)

março 12, 2011

Mais uma vez a noite anunciava-se gélida. O vento era minuano capilar, arrepiava qualquer espinha e esvaziava qualquer que fosse a rua. A Lua ovular ameaçava encrustar-se no céu alvejado de estrelas, enquanto desgarrava-se das montanhas indescentemente vasculhadas pelas mãos da história, sedentas de ouro e glória. Atrasada de quase uma hora do dia anterior (51 minutos exatamente), anunciava-me que aquele dia em breve chegaria ao fim.

Não poderia terminar, entretanto, sem que eu antes pudesse compreender o enigma que a mim – graça divina? – e só a mim fora proposto. As peças estavam a postos, o insondável jogo do qual eu acreditava fazer parte estava prestes a tecer seu proprio desfecho. Minha ignorância acerca das monstruosidades que o destino reservava-me ditava minha crescente curiosidade detetivesca e minha justificavel arrogancia: era eu – e não outro – o detentor de um grave mistério; portava em mim (sem que sequer imaginasse) sua solução.

Saí de casa convencido de que encontraria respostas. De onde nascem certas certezas em mim nunca fui muito bom em explicar.

Desci ao Rosário. Lá embaixo, no começo da ladeira, entrevi movimentação em frente ao velho casarão que abriga a República dos Senhores da Noite. Buiú, Panda e Carvajal estavam reunidos diante do portão escancarado, Ostrogodo mais a frente conversando no celular. Aproximei-me do grupo, Buiú com copo esvaziado explanava sérios delírios ao Carvajal que servia mezcali ao Panda.

- Vê aquela praça? Nossa Senhora do Rosário? Sob a égide da inquisição, mais de 300 auto-de-fés foram ali executados. Hereges, cristãos novos, saduceus, escravos fugidos, muçulmanos, traíras, sonegadores, biltres arredios, bugres estripadores, bruxas endemoniadas, monges anarquistas, muitos foram os que perderam suas vidas para as chamas que subiam aos céus e encontravam o vasto infinito!

Panda pirara sobre a deixa.

- Infinito! Eratóstenes prova e criva: o conjunto dos números primos é tão infinito quanto o próprio infinito! Para cada número do conjunto dos naturais existe um primo correspondente. Reparem na beleza do dezenove; sintam a gravidade de um vinte e três, observem o hermético mundo do vinte e nove! No entanto, entre todos prefiro o quarenta e três. Pergunte-me porquê, James!

Estupefato, olhei maliciosamente para Carvajal e lancei, radiofônico:

- Ce fut un petit diable qui vous a donné cette beverage…

Se das mãos de um deus o ou de um diabo Carvajal recebera aquele narcótico, não pude desvendar. Mas havia efetivamente algo de sacramental em seus gestos enquanto servia-me generoso copo de mezcali. Buiú Panda e Ostrogodo haviam já entornado um ou mais copos e estavam alucinados.

- Diga o que quiser, James: o que está bebendo é sagrado e melhor seria se o tratasse como tal.

- Ah! Carvajal! El amor! No se puede vivir sin amor!

Ostrogodo, gigantesco, voltara gritando de seu exílio, o celular na mão agitando-o aos céus. Viu-me e exclamou:

- James! Sacrossanto sócio e cunhado! Só faltava você: agora nossa academia está completa!

Expansivo (intrusivo é palavra mais cabível), pôs a mão em meu ombro e praticamente ordenou:

- Vamos! Entorne o copo, James, de uma vez! Arre, é um homem ou um verme, afinal?

Meio sem jeito, engoli dose homérica de mezcali; desceu-me pela goela feito madeira. Meu peito ardia, a garganta em fogo, demandei:

- Carvajal, desce mais uma.

- Ah garoto, agora sim! Gostei de ver!  Salud y pesetas!

Ostrogodo levantara mais um copo repleto em direção a Carvajal, que respondera:

- Y tiempo para gastarlas! Por supuesto! Mas sabes que a saudação completa inclui ainda fuerza en los brazos y amor. Significativo que Lowry não a cite inteiramente.

O efeito da algoz bebida é praticamente instantâneo. Passei a ver, no lugar dos rostos de meu amigos, fantasmas. As vozes tornaram-se graves, ruidosas como chiado de estática, e todo o entorno passou a girar. Perguntei por Pintassilgo. Buiú respondeu-me, solícito:

- Está lá em cima, na casa. Aliás, sua amiga Cléo também está lá…

Como assim? Cléo? Meu Deus! Cléo está ali em cima? Um vácuo abriu-se dentro de mim, um frio incontrolável ameaçou tomar conta de meu corpo. Estava intacto, imóvel, chorava por dentro: como por tanto tempo pude haver esquecido de Cléo! Mas Ostrogodo chamou-me a ação:

- Vai lá, cara, sobe lá!

Imediatamente acordei do transe e subi as escadas, ainda manco. Antes de adentrar a porta que levava à cozinha, escutei a galhofada geral da rua e a voz de Panda, barítona:

- Pergunte-me porquê, James!

Entrei na cozinha. Estava escura, era uma típica cozinha de república, louça por fazer espalhada, o chão cheio de latas e restos de comida, a geladeira entreaberta abarrotada de cerveja. Pude ver entre as sombras dois vultos encoxando-se sobre a pia e desacreditei: era Pintassilgo beijando Cléo!

Subiu-me pela garganta ódio devastador que empatou-me fala e ação. Não podia ser verdade! Deus: não poderia haver dor maior! Como pude deixar isso acontecer? Onde estava esse tempo todo?

“Mate em dois lances.”

Nesse momento ouvi uma voz perfumada, feminina, desafiadora. Era a voz da mulher pela qual houvera acabado de descobrir o quanto estava enamorado. Parecia tanto a voz de Cléo! E vinha da sala ao lado.

Mas algo não estava certo: Cléo estava ali, diante de mim, traindo o amor que até então nunca tinha dito seu nome. E com meu grande amigo! Meu melhor amigo! Irmão e guia das auroras!

O mesmo que, percebendo minha presença e sem dar-se por incomodado, sem sequer deixar de abraçá-la, olhou severo para mim e esticou o braço mostrando a sala contígua. Era aquele mesmo olhar que no museu obrigara-me a prestar atenção à obsidiana do Cabral.

“Mate em dois lances”

Certeza! Era sem dúvida a voz de Cléo! Atravessei a cozinha em direção à claridade vinda da porta da sala, antes atraído pela voz que repetia o desafio do que obedecendo à ordem de Pintassilgo.

Aquela sala pareceu-me o avesso da cozinha: iluminada, primava pela ordem e limpeza, não parecia pertencer à mesma República. Um perfume de jasmim encheu-me as narinas e fez marejar meus olhos. Esse perfume é o dela ou é simplesmente ela?

Era ela. Cléo, sentada num velho sofá de couro, diante de uma mesinha, jogava com as brancas sobre um grande tabuleiro de xadrez. Do outro lado estava Chacal – desleixado, sem camisa, com uma lata de cerveja na mão – debruçado sobre o jogo, compenetradissimo mas visivelmente desesperado.

Eu, aliviado mas ainda chafurdado em vívido estado confusional (Preciso lembrar o quão louco eu estava?), escorei na soleira da porta mansamente. Fiquei ali, em silêncio, olhando a cena, analisando o jogo: de onde ela tirou esse mate em duas jogadas? Afinal, Chacal tinha a rainha, Cléo não.

Chacal jogou uma torre por necessidade, ao que parecia. Cléo calada virou-se, descobriu-me ali quieto e sorriu, simplesmente. Um sorriso esplendoroso. Depois mexeu um cavalo e fez cheque. Chacal não tinha outra escolha senão defender-se com um peão. Cléo moveu outro cavalo e com um peão que aquele escondia completou o mate que anunciara.

Chacal afundou-se na poltrona e sorriu para Cléo. Calmamente cumprimentou-a, levantou-se, olhou-me e disse, mineirês, em tom profetico:

- A fera que está em você deve agir em silêncio, James. Em silêncio!

E saiu pra buscar mais cerveja.


Cortés no Espelho (XIV)

fevereiro 12, 2011

Quando a verdade advém de sinais tão evidentes, a realidade quotidiana, alheia aos signos, torna-se inverossímil. E se cada parede, cada casa, cada montanha, cada traçado das ruas, enfim o todo que me rodeia, se tudo isso tivesse significado oculto ainda por revelar-se num momento oportuno? Que tarefa hercúlea é arrancar a verdade das coisas que só estão aí para escondê-la! Tamanha abnegação não é digna de uma só pessoa; tampouco uma única geração seria capaz de realizá-la! Que dizer dos falsos alarmes ou dos pretensiosos olhos mal-preparados, que atrasam o trabalho da busca pela suprema verdade em anos, séculos, milênios: gerações inteiras, povos desaparecidos sob a égide da adoração a um falso deus! Pois que tempo e espaço combinam-se tão caprichosamente e permitem a um só olho preparado enxergar algum resquício da verdade, é possível chegar ao extremo de dizer que essa tarefa é mais infinita que o próprio Infinito!

Ali, diante do quadro em tecido embolorado, entrevi a verdade. Pude perceber algo muito maior do que até então concebia. Esfreguei os olhos de tal forma que vi aparecer azul mosaico de luzes sob as pálpebras. Não era preciso ter sólidos conhecimentos em heráldica para reconhecer as seguintes evidências:

a) O leão não era leão mas sim jaguar; tampouco era jaguar mas sim o nagual de Tezcatlipoca.

b) A cobra emplumada não podia ser outra coisa senão o nagual de Quetzalcoatl.

c) As quatro cores em cruz franchada representavam os quatro pontos cardeais astecas.

d) A imagem do leão pisando em uma cobra emplumada simbolizava a derrota de Quetzalcoatl por Tezcatlipoca.

E de onde quer que se originasse o patriarca da família de Alvarado, era sem dúvida alguém importante a ponto de poder conceder-se um brasão. Além disso, possuía profundos conhecimentos dos mitos astecas e era alguém pretensioso ou destemido o suficiente para haver-se colocado no papel de um Tezcatlipoca soberano sobre Quetzalcoatl.

Subi as escadas arrastando-me no corrimão, mas já não sentia mais dor em meu pé. Parecia flutuar. Entrei em meu quarto e vasculhei a Coletânea de Cronistas do Novo Mundo atrás de qualquer coisa que me remetesse a Alvarado. Não foi difícil encontrar. André de Olmos, Pedro de Gand, Toríbio de Motolínia, Bernardino de Sahagún, todos se referem a Pedro de Alvarado como grande conquistador e capitão da expedição de Hernán Cortés. Os povos que falavam o náhuatl o chamavam ‘Tonatiuh’ – o Sol – por conta de seu aspecto físico: era ruivo e de elevada estatura.  Olmos salienta que tanto Alvarado quanto Cortés eram deificados pelos mexicas, que consideravam as gentes ruivas e barbudas como signo do regresso dos deuses do leste.

Praticamente todas as referências a Alvarado mencionam pelo menos seu caráter enérgico; a maioria o eleva a crueldade. Muitas vezes seu nome é associado a genocídio, tanto por sua iniciativa no que ficou conhecido como a Matança de Toxcatl, como por sua posterior participação no sítio de Tenochtitlán e no massacre do Templo Maior (Noite Triste), mas sobretudo pela violência extrema de suas ações na Guatemala e em Honduras. Não por acaso, enquanto Cortés era associado ao generoso Quetzalcoatl, Alvarado era a personificação do cruel e justiceiro Tezcatlipoca.

Daí lembrei-me de Moctezuma no espelho: Alvarado é ‘el Sol’, o diabólico ‘contador’ de Cortés  a quem Moctezuma se referia. Logo, foi o cruel Sol ruivo que o ensinou a jogar xadrez durante seu cárcere privado. E é ele quem, segundo Moctezuma sobre o jogo que jogavam, aos mouros rendia Justiça, o que quer que isso signifique.

Frei Bernardino de Sahagún é o único a insinuar que Alvarado, pouco tempo após o massacre da Noite Triste, tornou-se soturno, ensimesmado e sombrio. Rezava compulsivamente, mantinha-se de joelho por horas a fio com o rosário nas mãos. Dizia-se, entre outras coisas, que fora amaldiçoado e que todas as suas futuras gerações sofreriam fim violento. Sahagún sugere que Alvarado estivesse dominado por demônios cujas vozes o perseguiam e que para tentar aplacar a fúria celestial realizava rituais satânicos. A respeito desse assunto, chegou a tecer considerações sobre a urgente necessidade de um tribunal de Inquisição no Novo Mundo, de forma a “garantir punição para heréticos e apóstatas e assegurar a pureza da fé católica”.

Uma série de tragédias sobreveio. Durante uma expedição desastrada ao que hoje é o estado mexicano de Zacatecas, Alvarado sucumbiu diante do exército indígena. Sua terceira mulher, Doña Beatriz de la Cueva, conhecida pelo cognome ‘desaventurada’, assumiu o posto de Governadora da Guatemala, mas morreu um ano depois graças à violenta erupção do Vulcão de Água, que soterrou a antiga capital. Alvarado teve três filhos com Luísa de Tlaxcala, sua primeira mulher, asteca convertida a fé cristã: Leonor, Pedro e Diego. Leonor morreu massacrada pelos índios; Pedro desapareceu numa caravela em alto-mar; Diego morreu na guerra civil que assolou o Peru. O ferrenho conquistador, ademais, colecionou alguns filhos ilegítimos, dos quais não se tem notícias. Domingos de Juarros menciona somente um nome:  Goméz de Alvarado.

Goméz de Alvarado é o elo perdido entre o México das conquistas e a Ouro Preto colonial. Eis, presumivelmente, sua história: foi ao Peru atrás de novas conquistas; ou seguiu o Adelantado Ponce de Léon até os pântanos da Flórida. Participou da expedição de Gonzalo Pizarro e Lope de Aguirre pela selva peruana atrás do país da canela; ou foi com Pedro de Valdívia até os mais remotos rincões do Chile. Provavelmente tomou parte da guerra que dividiu a Nova Espanha entre almagristas e pizarristas; foi pela legalidade ou defendeu o direito dos conquistadores. Sua descendência voltou a Espanha, desgostosa do Mundo Novo que se anunciava tão velho; ou subiu com Cabeza de Vaca o Rio da Plata e descobriu a intransponibilidade do Iguaçu. Pode ser que tenha tomado posse em algum cargo burocrático em Medina del Campo ou Sevilha; mais provavelmente fez parte da armada de Dom Flores de Valdéz, que trouxe vários espanhóis ao Brasil durante a União Ibérica, entre os quais um certo Bartolomeu Bueno, estabelecido na vila de Piratininga. Ambas as descendências, sedentas do ouro e da fama (não fora o sobrinho daquele Bueno rei de São Paulo por dez minutos?), desbravaram os sertões de São Paulo e subiram as serras a partir de Taubaté. Ou foram rumo ao Goyaz e outras bandas. O praticamente certo é que algum Goméz de Alvarado chegou às Minas Geraes na primeira leva de descobridores, junto de Antônio Dias e Bartolomeu Bueno Neto, o Anhangüera. Chegou e fez fortuna; era no entanto aos olhos de Deus e de si próprio desafortunado. Trouxe consigo seu brasão e a sina de carregar fardo tão pesado e inglório.

Numerosa e contínua descendência trouxe seu nome aos tempos hodiernos, à dona da casa na qual tive eu a sorte (ou desventura?) de habitar. As histórias de Dona Salomé, antes tão inverossímeis, faziam doravante total sentido. A minúscula janela da Verdade começava a se abrir para meus olhos. Tezcatlipoca e Quetzalcoatl travavam sua eterna batalha e eu era possivelmente o único espectador. Espectator: ator-espectador – não somente assistia a luta; eu era a luta! Especulus: vislumbrava a realidade a partir de um espelho.  Locus: o espelho era o lugar. Tempus: o dia era aquele, o tempo é hoje! Mas sentia meu coração oprimir-se: descobrira muito, mas ainda faltava-me outro tanto a saber.


Cortés no Espelho (XIII)

janeiro 19, 2011

Ainda hoje, passados muito anos, lembro-me daquela cozinha, do cheiro de coisa antiga que emanava das paredes úmidas, do assoalho acomodado, dos móveis imóveis em madeira maciça. A luz rala e opilada derivava de uma única incandescência bem acima de nossas cabeças, separadas pelo alto pé-direito.  O conforto que ali sentia era estranhamente aterrador. Tudo convidava-me a uma espécie de melancólica introspecção. Era como eu pertencesse àquela cozinha, àquele universo de coisas deterioradas e simpáticas.

- Você tem estudado muito meu filho. Que olheiras enormes!

A comida Dona Salomé fazia com prazer vívido e convocava-me sem que houvesse nisso qualquer exigência, mas antes compartilhamento. Nunca cobrara um centavo por isso, mesmo diante de minhas indecisas insistências. Havia uma real satisfação em seu rosto ao trazer à mesa fumegante panela com frango em molho pardo.

- É… Pois é, não tenho feito outra coisa…

Não deixava de ser verdade. Pinta encarou-me desaforado. Dei de ombros e enfiei grande garfada boca adentro.

- Igualzinho a seu pai. Zebe ficava noites inteiras sem dormir, debruçado em livros. Que devoção! Lembra dele, Teresa?

No canto da mesa estava Teresa. Encurvada sobre o prato de sopa quente, parecia controlar o rastro vertical de vapor que dele saía. Estava sempre na casa, nunca a vi sair. Morava ali, às vezes cozinhava, às vezes via novela na televisão social.  Teve uma vez que entrei no quarto e a vi rezando o terço na salinha, resmungativa. Saí três horas depois e lá estava ela, na mesma posição, tecendo aves à Maria. Poucas vezes trocamos palavras. Não foi sem surpresa, portanto, que a ouvi responder, misteriosa, absorta:

- Lembro-me muito bem…

- Pintassilgo, me dê seu prato. Assim tá bom de arroz? Quer milho? Frango, quer mais tem aqui. Mais caldo?

- Obrigado Dona Salomé.

Comíamos em silêncio. Pinta afundou os olhos na comida que devorava.

- Zebe se parece tanto com o meu falecido pai. Era ruivo como ele, garboso, tinha a mesma maneira de falar, de sentar. Parecia sempre tão sério, tão altivo, tão compenetrado: espanhol autêntico!

Fiquei meio envergonhado desse palavreado liberal de Dona Salomé a respeito de meu pai.  Teresa levantou sua cabeça do prato e proferiu austera, cuspindo em minha direção:

- Ruivos trazem má-sorte. Amaldiçoam as casas por onde passam. O cabelo do traidor de Nosso Senhor, Judas Iscariotes, era vermelho como o seu! E o de Caim, o assassino, era puro fogo e sangue!

Terror. Trevas absolutas. Nunca tinha ouvido nada assim tão virulento. Eu assustei-me, Pintassilgo quase pulou da cadeira. Com o prato vazio diante de si preparava-se para partir, os pés virados para a porta.

- Guim, eu tenho que ir, tenho compromisso…

- Calma, Pinta, fica. Não faça caso, ela é meio louca assim mesmo.

Dona Salomé levantou-se:

- Ah meu Deus! Teresa, por favor tenha modos! Isso é uma grande bobagem! Não liguem para ela, por favor. Ela está afundada em rancor e é uma ingrata! Você é uma grande ingrata Teresa!

Teresa baixou sua cabeça resmungativa, os olhos ao prato voltou a sorver voraz líquido advindo de colher. Não nos olhou mais. Rezava?

- O povo tem essa superstição rídicula. Se assim fosse, esta casa onde estamos seria renegada por Deus há muito tempo. Afinal, abrigou quatorze gerações de Alvarados! Está vendo aquele brasão ali no corredor?

Virei-me. É verdade, o brasão no corredor, passava por ali todos os dias e até então nunca reparei em ver seus detalhes.

- Esse é o brasão de minha família, os Alvarados. Goméz de Alvarado faz já uns trezentos anos chegou aqui na primeira bandeira, junto de Antônio Dias e Bartolomeu Bueno, o sevilhano. De onde veio não se sabe. Não se sabe se já chegou rico ou se por conta do ouro daqui tornou-se. Falava castelhano desvirtuado e era ruivíssimo. Contam que a devoção dele a Santa do Pilar nasceu daí, já que o pilar de onde ela apareceu a Santiago é de puro jaspe rubro. É uma brincadeira, claro: como todo espanhol da época, era devotadíssimo à Virgem do Pilar. Dizem, aliás, que por conta de sua devoção ajudou a construir a Matriz. Já não te contei isso, meu filho?

Pintassilgo impaciente mirradinho todo sem jeito levantou-se:

- Bem… Vocês por favor me desculpem, mas devo ir. Muito obrigado pelo jantar, Dona Salomé!

- Pintassilgo, já vai? Está cedo. É  sempre um prazer recebê-lo! Volte mais vezes, com mais tempo.

Em privado Pinta disse-me que estava indo à República dos Senhores da Noite lá no Rosário e que eu fosse mais tarde, e vamos ver, até mais, té mais, ciao, ciao.

Levantei-me também, cortesmente:

- Obrigado pelo jantar, Dona Salomé. Estava delicioso.

- Quantas vezes já lhe falei para não me chamar de Dona, meu filho!

Cumprimentei Teresa com um aceno e um boa noite sem obter, evidentemente, resposta.

Andei até o corredor e aproximei-me do quadro na parede. Era um brasão de família, acima escrito “Goméz de Alvarado” e abaixo escrito “Boanerges”. No centro do quadro um escudo franchado em cruz separando quatro cores: preto no alto, branco à direita, azul embaixo e vermelho à esquerda. No meio, um leão amarelo em posição saliente pisando e dilacerando uma cobra emplumada.


Cortés no Espelho (XII)

dezembro 20, 2010

- Guim! Guim!

Com dificuldade arrastei-me até a janela, donde vi um Pintassilgo carrancudo encarando-me hostil. Perguntei-lhe, com calculada petulância:

- Tem cigarros?

- Tenho.

- Sobe aí.

Abriu a porta da entrada com violência e subiu as escadas pulando degraus. Entrou no quarto jogando sua mochila sobre a cama. Estava fulo.

- Porra Guim! Quando é que você se apruma? Eu juro que é a última vez que assino a lista pra você!

- Calma, Pinta. Deixa disso camarada, me dá um cigarro.

- Toma, pega. Que que aconteceu com seu pé? - Estava de fato feio de ver.

- Dei com o dedão num paralelepípedo.

- Por que é que você foi embora no meio da aula? Justo nessa aula? Não falei que o Cabral ia encrencar contigo? Pois ele procurou por você no final da aula, não viu viva alma e anulou a presença que eu, EU, tinha assinado por você! Porra! Você está em depê de bobeira! De bobeira, Guim!

Eu, diante daquele palavrório todo, calmamente acendi o cigarro que Pintassilgo me havia dado e traguei deliciosamente, dispensando a fumaça pela janela. De costas para ele, disse:

- Nada é bobeira, Pinta. Tudo tem significado e significância! As coisas que tenho descoberto nessas horas valeram-me mais do que mil horas de explanação do sagrado totem do Departamento de Geologia. Estou em exame, ok, vá lá, mas sei agora quem sou e compreendo muitas coisas dos enigmas que me foram propostos. Mas ainda faltam tantas lacunas!..

- De que porra você tá falando, Guim? Você anda tão estranho, cara…

- Agradeço-lhe imensamente por ter-me feito ir a essa aula. Embora detestável espetáculo, deu-me linha mestra para todos os pensamentos que agora me devoram e exigem concatenação!

- Deus do céu, brother, do que é que você está falando?

- Eu estou falando de uma missão que me foi designada por deuses que não são dessas bandas! Vieram de muito longe dizer-me o que sou e o que vim fazer no mundo. Mas não falam linguagem humana compreensível; falam por códigos, associações, sonhos, números, pedras… a educação pela pedra! Estou falando da Obsidiana!

- Que que tem a Obsidiana?

Viro-me num repente para Pintassilgo e do grosso tomo mostro-lhe esta imagem:

- Eis o Deus da Negra Obsidiana, o Espelho Fumegante, a antítese do Generoso Quetzalcoatl, a serpente emplumada! Eis o Deus-homem que tem em si todas as chagas e curas da Humanidade! O Deus que contém em si todos os tempos, os passados e os porvires! O que retém em si todos os dias do calendário sagrado: Tezcatlipoca!

- E…?

-  Vê essa imagem? Ela representa o Calendário sagrado asteca, o Tonalpohualli. É um calendário estranho, possui 260 dias, dividido em 20 trezenas. Cada trezena é representada por um glifo, esses desenhos que você vê espalhados pelo corpo de Tezcatlipoca. Cada dia dessa trezena é um ponto que deriva do glifo correspondente. Tampouco sei qual esperto arqueólogo cartesiano imaginou esse calendário como um sistema de duas engrenagens engatadas, uma com 20 dentes, outra com 13, de tal maneira que o dia é reconhecido pelo seus respectivos número e glifo. Assim, o ano sagrado inicia-se com o 1-Caiman, o dia seguinte é o 2-Vento, o seguinte 3-Casa e assim por diante até o 13-Jaguar, fim de trezena do Caiman e início da próxima, a trezena da Águia, com 1-Águia.

- Interessante tudo isso, Guim, mas que que tem que ver com suas calças?

- Pinta, já está na hora de você decidir de que lado está: ou acredita em mim e nas coisas que compartilho contigo, ou não acredita em nada e fica flutuando em nuvens de derrisão. Seja homem e decida-se!

- Calma Guim, calma! Ok, ok, escuto o que você tem a dizer. Essa é boa: quem deveria estar nervoso era eu!

- Preste atenção: eu lhe disse sobre o que vi no espelho, e sobre os enigmas que me foram propostos. Contei-lhe sobre o Cortés que vi no espelho, sobre como primeiramente saudou-me tal a um Deus para em seguida achincalhar-me chamando-me catoptrofóbico. Não entendi o que significava isso, mas graças a Cléo descobri que significa ‘medo de espelho’.

- Cléo, que Cléo? A Cléo de Letras? Aquela que…

- Mas ‘medo de espelho’, numa segunda iteração etimológica, pode significar medo de sua própria imagem. Ou seja, segundo meu detrator, eu seria um Deus com medo de minha própria imagem, uma espécie de Narciso às avessas. Tendo ele comparado-me a deuses supostamente faltantes de seu próprio elemento (tal como o Cronos necrófobo ou o Hermes iletrado), deduzi que, segundo Cortés, eu deveria ser uma espécie de Deus cuja força elementar é a própria imagem, ou em simbologia mística, o  espelho.

- …

- Somou-se a essa extrapolação a aparição que sucedeu a de Cortés, Moctezuma, o último Imperador Asteca. Bernardino de Sahagún afirma que Moctezuma, maior autoridade religiosa dos astecas, acreditava ser Cortés encarnação de Quetzalcoatl. Moctezuma apareceu-me no espelho e não somente confirmou-me isso, como também passou a duvidar dos deuses em que tanto acreditava. Ou seja, se Cortés era para Moctezuma a serpente emplumada, o Quetzalcoatl, e eu era para Moctezuma o que Quetzalcoatl não é, eu logo só posso ser sua antítese no panteão asteca, o Deus do Espelho Fumegante, Tezcatlipoca!

- Você é Tezcatlipoca!

- Sim! E outros sinais confirmam isso: Cortés, o Quetzalcoatl, chama-me de irmão. De fato, Quetzalcoatl e Tezcatlipoca são filhos do mesmo Deus, o criador dos mundos, Ometeotl. Além disso, seu escárnio e ódio é totalmente comprensível: nas origens do mundo, Tezcatlipoca – eu! – destruí o Sol do Vento – o segundo da lenda dos Cinco Sóis –  e todo o Universo regido por Quetzalcoatl. Ademais…

- Ademais o quê?

- Você pode ver pela imagem que Tezcatlipoca não possui o pé direito, perdido em uma batalha contra o grande Caiman. Pois bem, veja meu pé trucidado: é também o direito!

- Aí você já está forçando a barra, Guim…

Tomei outro cigarro do maço de Pintassilgo e dei-lhe as costas. Virei as folhas do calendário de papel esquecido sobre a escrivaninha, três meses desatualizado. E verifiquei que aquele dia era o dia vinte e seis de outubro do vigente ano.

- Vamos ver uma coisa. Você está com seu computador aí? Pode ligá-lo para mim?

Enquanto dava-se o boot, retirei generosas baforadas do cigarro confiscado e com rara calma passei a explicar-lhe:

- Embora o poder asteca tenha ruído naquela Noite Triste na qual morre o Zangado Imperador, sempre haverá algo que deles sobreviva enquanto o tempo continuar escorrendo: o Calendário Sagrado. Cada dia desse calendário é regido pelas forças de um dos Senhores do Dia. C. G. Vaillant informa-nos que dia sagrado regido por Tezcatlipoca é o 10-Bambu. Já Quetzalcoatl é Senhor do dia 9-Vento.

- O computador está ligado.

- Abra agora uma planilha.

- Ok.

- Sahagún conta-nos que Moctezuma encontrou-se com Cortés no dia 8 de novembro de 1519 do Calendário Juliano, equivalente ao dia 8-Vento do ano 1-Bambu. Crie três colunas: a primeira coluna para datas em ordem crescente, a segunda coluna para as trezenas com números crescentes de 1 a 13 e a terceira coluna para os glifos. A partir daí, Pinta, não deve ser difícil encontrar a próxima data regida por Tezcatlipoca.

Do grande tomo azul de Vaillant mostrei-lhe a ordem dos glifos no Tonalpohualli.

- De fato. Basta estender a ordem dos números e glifos às células abaixo. Encontro décimo dia da trezena Bambu no dia 1° de fevereiro de 1520, Calendário Juliano.

- Maravilha. Na quarta coluna, crie a seguinte fórmula:

=SE(E(B1=10;C1="Bambu");"T";SE(E(B1=9;C1="Vento");"Q";""))

- Estenda agora a fórmula aos dias atuais. Você encontrará os dias regidos por Tezcatlipoca e Quetzalcoatl de 1519 até o ano atual. Atenção a mudança para o calendário Gregoriano. Ao adentrar em 1582, retire 10 dias da contagem.

- Ok.

Enquanto abusava de um novo cigarro vindo da alheia cartela, reparei que Pintassilgo paralisara, totalmente absorvido. Escolhera o meu lado, afinal de contas?

- E aí? Conseguiu?

- Consegui, Guim. Mas não estou acreditando.

- O quê? O que que aconteceu? Deixe-me ver!

- O dia de Tezcatlipoca – o 10-Bambu – cai em vinte e seis de outubro deste ano, a exata data do dia de hoje!

- É inacreditável! É maravilhoso!

- É muita coincidência!

- Não! Não há coincidências, Pinta! Não há coincidências… Então não percebe que há sinais demais flutuando por aqui para que sejam simples coincidências? Será que você não consegue acreditar em mim?

Nisso Dona Salomé chamou-nos: é hora da janta. Olho para a janela: o dia passou inteiro diante de nós.


Cortés no Espelho (XI)

novembro 23, 2010

Cego de luz tropecei em um pedra solta do chão e torci o tornozelo. Joguei-me sobre a escadaria do museu urrando de dor. Enterrei minha cabeça entre as pernas e paralisei, alucinado. Quem passava pela praça Tiradentes via-me em patética cena e das duas uma: compadecia-se ou ria. Preferi (e guardei para mim) a primeira versão.

Lentamente fui recuperando a força e levantei-me segurando o corrimão. Mancando, desci a calçada irregular da ladeira à direita, apoiando-me nas paredes até chegar à pensão. Subi com esforço as escadas de madeira, entrei em meu quarto e tranquei a porta. Tirei meus tênis e estirei-me na cama. Quase chorei: o que é que está acontecendo comigo, meu Deus?

Quis fumar. Procurei na mochila pelo maço de cigarros. Em vão. Vasculhei meus bolsos em busca de avulsos. Nada. Embaixo da cama, sobre a escrivaninha, nada, nada! Sem dinheiro, mancando, sem cigarro, decidi apelar para o cemitério das guimbas. Do cinzeirão com a esfinge de Manco Capac sobre a soleira externa da janela, catei uns três cigarros mal-terminados, desamassei um deles, limpei a parte queimada e o acendi, tragando. Meu coração acelerou-se, emocionado, agradecendo.

Sentado em frente a escrivaninha, pé latejante escorado sobre a cama, abri o imenso tomo azul de Vaillant sobre mitologia americana. Diante de meus olhos, fiz deslizar lentamente as folhas do livro, procurando por imagens, desenhos, descrições que trouxessem algum sentido ao redemoinho de ideias febris que me dominavam. Parei em uma página.

Apaguei o que restava da guimba. Havia naquela página uma figura de várias pedras pretas em diversos estágios de lapidação com a legenda “Obsidiana: espécie de vidro vulcânico utilizado pelos povos pré-colombianos como arma, ferramenta e espelho. Também utilizado na arte escultórica e em rituais que exigiam sacrifícios humanos.”

Virei a folha seguinte. E ali estava, ocupando-a inteira, esta imagem e sua legenda “Codex Mayer-Fejervary (ou Codex Tezcatlipoca), pág. 1: As cinco regiões do mundo e suas divindades, segundo a mitologia Asteca. Ao centro o Deus do Sol, Xiuhtecuhtli. Sustentando as pontas da cruz maltesa, as quatro árvores sagradas que sustentam o mundo. Espalhados em quatro colunas estão o sangue, os ossos, a mão e a cabeça de Tezcatlipoca, o Senhor do espelho fumegante.”

E na página ao lado o título: “Tezcatlipoca.” “Em nahuatl, língua-mãe dos povos Mexicas, ‘Tezcatl’ significa ‘refletir’, ‘espelhar’; ‘Poca’ é ‘fumo’, ‘fumaça’, ‘fumegante’.” O Senhor do Espelho Fumegante! “Tezcatlipoca possui o corpo todo negro, exceção para as faixas amarelas que cobrem seu rosto e que o associam a seu nagual – duplo animal – o jaguar. Ele é geralmente representado sem o pé direito, substituído por um espelho de obsidiana ou de uma cobra – uma alusão ao mito da criação em que ele perde o pé em luta com Cipactli, mítico monstro das origens da Terra.”

“Tezcatlipoca é a um só tempo o deus da noite, dos ventos noturnos, da discórdia, da advinhação, da bruxaria, do SACRIFÍCIO. Vigilante das consciências, carrega no peito um espelho de obsidiana com o qual enxerga o futuro e o coração de todos os homens. E é, não obstante, o deus da reconciliação entre os deuses e os homens, pois foi o deus que criou a música, a prece e o sacrifício para que os homens se reaproximassem de seus deuses através de rituais.”

“Em uma das inúmeras versões do mito asteca sobre a origem do mundo, Ometeotl, o Criador-de-Si-mesmo, fez-se macho e fêmea e deu a luz a quatro irmãos, os quatro Tezcatlipocas: cada um deles governa  um ponto cardeal. Sobre o Oriente governa o Tezcatlipoca branco, Quetzalcoatl, a serpente emplumada, deus de misericórdia e luz . Sobre o Sul governa o Tezcatlipoca azul, Huitzilopochtli, o colibri, o deus da guerra. Sobre o Ocidente governa o Tezcatlipoca Vermelho, Xipe Totec, o deus da agricultura, do ouro e da Primavera. E sobre o Norte governa o Tezcatlipoca Negro, o verdadeiro, o conhecido tão somente por Tezcatlipoca.”

“Tezcatlipoca e seu irmão Quetzalcoatl mantêm um jogo dúbio: Ora aliados ora adversários, esses dois deuses uniram-se para criar os céus e as terras e todas as criaturas que existem entre um e o outro. No entanto, enquanto Quetzalcoatl é frequentemente retratado como um deus-herói benevolente, identificado com harmonia, vida e temperança, Tezcatlipoca representa a discórdia, a mudança através do conflito, o deus cognominado ‘de Quem somos escravos’ ou ‘o Adversário’ pelos povos do planalto mexicano.”

“Não se pode esquecer que assim como Quetzalcoatl houvera destruído o grande Sol da Terra governado por Tezcatlipoca, este também não poupara o Sol do Vento do qual aquele era Senhor. No entanto já estamos sob a égide do quinto Sol, e outros virão. Há na mitologia asteca um contínuo ciclo de vingança e restituição do qual são protagonistas dois irmãos em batalha infinita.”

Desamassei a segunda guimba, acendi-a e traguei fundo: meu coração trotava. Olhei para o espelho distante no fundo do banheiro. Não acreditava no que acabara de ler: advinha em mim epifania comparável à de Arquimedes nu em sua banheira.

- Hernán Cortés, o Quetzalcoatl que nem mesmo o grande Imperador Asteca reconhecera, toma-me por irmão e provoca-me todo o tempo, rebaixando-me ao status fóbico. Do alto de sua arrogância, o ‘benevolente’ equipara-me a um deus manco e chama-me catoptofóbico. Como se eu temesse o espelho e não a imagem nele refletida! Como se eu tivesse do copo receio, e não do veneno que este contenha!

- Mas agora eu vejo: Cortés, o Quetzalcoatl, não podia entender como o deus que vê através de um espelho toda a sua criação haveria de ter receio do que estava vendo.

- Sim, eu agora vejo: Moctezuma bem me disse “Sois a antítese de Quetzalcoatl. Sois o que Quetzalcoatl não é!” Nesse imenso tabuleiro que é o Cosmos, Quetzalcoatl é a peça branca, e eu sou a peça negra!

- E agora entendo: Cortés, o orgulhoso Quetzalcoatl, desconhecia que eu desconhecia quem de fato sou! Eu sou Tezcatlipoca, o deus Jaguar! Eu sou “Ilhuicahua Tlalticpaque” – o dono dos céus e das terras! O deus manco! O deus sem o pé direito!


Cortés no Espelho (X)

novembro 8, 2010

– SEGUNDA PARTE –

Agora vemos por espelho,

como em um enigma,

mas então veremos face a face.

Agora conheço em parte,

mas então conhecerei plenamente,

como sou plenamente conhecido.

I Coríntios 13:12

Oito e cinquenta e dois. Como um zumbi enfiei-me no museu anexo à faculdade. A escuridão lá dentro contrastava com o dia perfeito que raiava, e isto cegou-me momentaneamente. Rodeado de alunos com mochilas nas costas e cadernos abertos nas mãos, um alto senhor portando óculos redondos de vidros grossos e cabelos muito brancos e longos unidos por um amarrador falava e gesticulava animadamente. Eu estava atrasado, a lista de presença já havia circulado e àquela hora já devia estar na mão do Professor. Havia decerto Pintassilgo cumprido o que ameaçara…

- Coleguinhas, adentramos agora a seção das sílicas. Tentem não tocar nos brinquedinhos à frente, vamos combinar?

Cabral. Professor Cabral. Porfírio Gonzaga Talmude Querosene Cabral. Era deprimente fazer parte da caravana de ovinos que perseguia com os olhos sujos de dormir aquele ser aliciador e diminutivesco. Como a um sacro ídolo as pobres criaturas davam graças com as mãos levantadas em expiação. Seus rostos imberbes espasmavam expressões de espanto e dúvidas dignas d’El Greco. Eu zombava internamente o pastor e seus discípulos (o nada-me-faltará-se-me-conduzis…) em resposta instantânea à zombaria volátil dos deuses: odiava aquele mundo e queria deixá-lo evidente.

- … os coleguinhas decerto sabem que a sílica é o óxido mais difundido da superfície terrestre. Devido à tetravalência do silício, seu óxido resultante tem por fórmula SiO2. O quartzo é seu representante mineral mais abundante e tem configuração trigonal composta por SiO4 tetraédrico. Entre suas ocorrências cristalinas, o coleguinha pode destacar o quartzo azul, o quartzo com dendritos, o quartzo com goethita, o quartzo com turmalina, o quartzo esfumaçado…

Como perdoar Pintassilgo por sua covardia? Lá está ele, como ele vem faceiro, todo de branco com o seu bonezinho… E como não perdoá-lo? Sua carreira será vitoriosa e sem riscos, enquanto que a minha…

- …o quartzo mórion – estão vendo? – o quartzo rosa, o quartzo rutilado, o quartzo olho-de-gato, o olho-de-lince, o olho-de-tigre…

Olhos! Olhos! Pra que tantos olhos? Já não bastassem os olhos que Cléo cravara em mim e que não me saem da cabeça? O mundo inteiro é um estorvo, tudo o que está entre mim e o que quero…

- Sabem os coleguinhas que a sílica possui 17 formas cristalinas, entre elas a que vemos aqui: a ágata. Mais adiante está a ametista. Vêem os coleguinhas? Vem dos gregos a crença de que a amestista protegia seu portador contra a embriaguez. Daí o nome: “a” – não – e “mesthusken” – embriagar. Interessante anedota, coleguinhas não concordam?

Minha pedra é ametista; minha cor o amarelo…

Matosinhos pôs-se ao meu lado e com a mão na boca completou, cantando galhofeiro:

Mas sou sincero, necessito ir urgente ao dentista…

- Observem de perto, caros coleguinhas, o ônix,  essa negra e bela calcedônia, variante criptocristalina do quartzo. Serve de amuleto em muitos povos – da Anatólia à grande Índia! – contra a bruxaria e elementos telúricos…

Nada como um artista para ver flores nesse ofício tão duro e sujo! Bilac o ônix prefere a ferir a pedra, carrara (ou qualquer que) seja. Que pesadelo é sê-lo! Sou mais um outro Cabral, o de Melo Neto a “aprender da pedra, a frequentá-la, a captar sua voz inenfática, impessoal…”.

- Adiante, bravos coleguinhas, adiante! Sabem o que vemos ali mais à esquerda? O ônix-real. Uma salva de palmas ao Professor Bournier, seu descobridor! Que honra é tê-lo entre nossos quadros!

Estou sonhando? Ouço de fato palmas? Eis o bezerro de ouro! Adorem-no, rebanho de idólatras! Que patético…

- Vêem ali? Oh coleguinhas! É o jaspe vermelho! Trata-se de uma variedade opaca impura de sílica.  Deve sua cor a incrustações férreas em seu aparato cristalino. Do rubro jaspe edificou-se a coluna mágica que elevou a imagem da Virgem do Pilar aos olhos santificados do apóstolo.

Pintassilgo nesse instante virou-se e olhou para mim. Como ousa? Gesticulei com a mão ao alto, como quem assina algo, perguntando-o à distância sobre a lista de presença. Deu-me as costas, o patusco! Petulância!…

- Eis aqui, coleguinhas, outra formação impura e não-cristalina da sílica: a obsidiana. Com 70% de SiO2, a obsidiana é basicamente um negro vidro vulcânico, logo pouco encontrado por essas bandas. Forma-se no ligeiro esfriar da lava, por exemplo ao fluir sobre água. Os povos pré-colombianos da América Central utilizavam a obsidiana de forma extensa e sofisticada. Dela faziam lâminas pontiagudas e extremamente afiadas usadas em lanças.

Pintassilgo olhou para mim novamente. Mas dessa vez indiretamente, através do reflexo do vidro que separava o grupo das pedras. Olhava-me de forma severa, como se quisesse prender minha atenção para o que dizia o Cabral…

- Principalmente, coleguinhas, a obsidiana torna-se límpido espelho fumê se bem polida. Foi o espelho primitivo de muitos povos, em velho e novo mundos. Maias e astecas acreditavam que certos deuses viam o mundo e a Humanidade através de um espelho de obsidiana…

O espelho! O espelho asteca é feito de obsidiana! Claro! Obsidiana! A obsidiana! Eu vira uma imagem semelhante em algum lugar…

Procurei ansioso os olhos de Pintassilgo refletidos no vidro, mas ele e o grupo já haviam se retirado, perseguindo Cabral totêmico. Alguém desligara a luz e permaneci por um breve instante sozinho na sala escura.

Cheguei perto do vidro e observei a pedra. Obsidiana! Obsidiana! Aproveitei minha repentina solidão e resolvi ir embora. Dei meia volta e na saída do museu reparei numa pequena mesa. Estava ali antes? Sobre a mesa havia um chumaço de papel grampeado e uma caneta. Era a lista de presença. Virei as folhas e na última página encontrei ao lado de meu nome um rascunho do que parecia ser minha assinatura.


Cortés no Espelho (IX)

outubro 21, 2010

O que vem a seguir é confuso, barulhento e sem sentido. Mas não é exatamente assim a vida? Lembro-me de ter tomado a minha cerveja e a de Pintassilgo que esquentava no balcão e de ter demandado uma outra à Cléo tão gentil enquanto conversavámos. E para mim conversamos por horas, enquanto fixava-me em seus olhos, que remetiam a explosões de estrelas. Mas talvez fossem apenas alguns minutos, pois logo viera Pintassilgo procurar-me, resfolegando. De longe ouvira seu grito “Guim”, que fez Cléo perguntar-me pelo meu verdadeiro nome, pois conhecia-me por James e bem via que tinha muitos apelidos. Quando respondi ela pareceu assustar-se: arregalou os olhinhos oferecendo aos céus mais galáxias cintilantes. Devo ter chorado. “Guim! Deu briga Guim!”. “Que que deu?”. “Os da Baixa Conceição apareceram…”. “Já vou, já vou… Já volto, Cléo.”

Junto de Pintassilgo fui até a cena: os Senhores do Dia trombaram-se com os Senhores da Noite e do que eram no início gracejos passaram a trocar injúrias. Aproximei-me ao meio de chacotas. Zé Pereira – ou Levedo, não me lembro bem quem – clamara, oco: “Seus sonhos não durariam um segundo diante do peso da realidade!”, ao que respondi: “Mas ao contrário desta, mermão, sonhos não envelhecem!”.

Saquei qual era a do imbróglio. Brotava a Política dos poros daquela insanidade juvenil. Eu fazia parte daquilo. Eu me sentia parte daquilo. Mas eu era mais do que aquilo, pressentia. Ali tive um estalo: éramos antagônicos, contrários em tudo; não obstante via a trama invisível que o Universo costurava e que nos atava irremediavelmente a um destino único. Ali enxerguei que as coincidências querem de fato dizer-nos coisas.

“Amigos: são 13 os Senhores do Dia! Amigos: são 9 os Senhores da Noite! Essa soma perfaz 22. No entanto faço parte de ambas agremiações; a soma sem minha presença é 20. Amigos: são 20 os signos dos dias, as forças da Natureza!”

“E…?”

“9, 13, 20 são os números sagrados! Não percebem? São os números que fazem girar a roda dos tempos! São os dentes das engrenagens que formam o calendário asteca! Amigos: juntos somos completos e nesse microcosmo representamos o Universo com todas as suas nuances passadas e porvindas. Isso não é coincidência!”

Silêncio.  O constrangimento durou alguns segundos…

“James: você existe sem existir!”

“De fato: quem está em dois lugares ao mesmo tempo periga não existir!”

“A não ser que seja o gato de Schrödinger!”

“Ou Santo Antônio livrando o pai da forca!”

Ouvi risos. Muitos risos. ”Só lamento”, respondi.

De intempestiva cizânia a galhofa generalizada. Vi pelo lado positivo: cumpri meu papel e uni dissidências. Mas não da forma como imaginara: uni-as contra mim. Pintassilgo protetor virou-se e disse:

- Não falte amanhã.

- Por quê? Você não tem marcado presença pra mim, Pinta?

- Marcar eu marco, mas ao Cabral você não engana mais. Ele marcou sua cara. Se faltar mais uma aula, entra em depê. Se ele desconfia que eu te dou presença, nunca mais viro representante de classe.

Merda, merda, merda, merda, merda…

Percebi-me exausto. Fui até a tenda de cerveja e dei um demorado beijo no rosto de Cléo. Zumbido me acompanhou de volta à casa. Do restante da noite, mais não lembro.

—-FIM DA PRIMEIRA PARTE —-


Cortés no Espelho (VIII)

outubro 4, 2010

Em frente a nós um palco imenso. Mil luzes percorriam aleatórias o palco e a multidão que se comprimia adiante. Estávamos mais atrás e podíamos mover-nos sem aperto. No meio do palco um homem empunhava violão e cantava enternecido:

Noite chegou outra vez
De novo na esquina os homens estão
Todos se acham mortais
Dividem a noite, a lua e até solidão…

Eu observava fascinado a composição pictórica feita de concerto, multidão, montanhas ao fundo… a lua entre halo – em retirada porém omnipresente – e estrelas. Milhões de estrelas. O campo estelado de Santiago. Os Senhores da Noite, no entanto, pareciam febris e comentavam jocosos :

- Solidão não se divide, rapaz, come-se quieto! – Carvajal injuriante.

- Soli(t)ário só no câncer! – Vilhena com sotaque de Juiz de Fora.

- Isso é ser mineiro! – Chacal enfático.

- Empaturra-te de solidão, ó vil glutão! – Buiú declamante.

- Come-te a ti mesmo, gelatina pasma! – Panda pirava.

- Isso é ser paulista! – Chacal novamente, lacônico.

Clique: Zzzzuuummmmmmm… Zumbido. Um leve tinido zumbi-zumbizava em meu ouvido e fazia igual chiado de microfonia. Como num brusco despertar virei-me, chacoalhando a cabeça.

- Guim, onde é que você vai?

- Vou buscar mais cerveja. Quer? Busco pra você também.

Mas agora eu quero tomar suas mãos
Vou buscá-la onde for…

A festa era o pessoal das Humanas quem organizava a festa, uma espécie de quermesse. Havia tendas espalhadas em todo o terreno, única planície em cidade saturada de ladeiras. Na barraca de cerveja, reconheci Cléo, estudante de letras que sorriu-me lindamente. Nem pedi, ela já retirava do fundo do pote gelado uma lata de cerveja.

- Oi.

- Oi.

- Cléo, esse é seu nome real?

- É Maria Cleusa, mas não gosto muito dele…

- E por quê?

- Sei lá, acho muito antigo…

- Não deveria… É um nome muito bonito. Em grego Cleusa significa Princesa. Condiz com você…

Senti rubor no rosto traindo-me. O zumbido só fazia aumentar… Ela surpreendeu-se.

- Uau! Poucos são os que sabem disso!

- Na ENEYDA de Virgílio, Cleusa é a esposa de Éneas, que lhe aparece em espectro para mostrar-lhe o caminho e assegurar-lhe de seu destino.

- E qual é seu destino?

- Quero estar vivo para descobrir…

- O seu ou o de Éneas?

Seu sorriso era uma maravilha. Também sorri. Vindo de longe consegui entreouvir:

Você não conhece o futuro
Que eu tenho nas mãos…

- São dois reais…

- Veja mais uma igual a essa, por favor.

- Claro!

Zzzuuummmmm… O zumbido vibrava em minha mente como a repetição de um longo mantra.

- Cléo, você que conhece etimologia das palavras antigas, sabe o que significa catoptrofobia?

- Sei. ‘Katoptros’ vem do grego ‘espelho’. Catoptrofobia significa medo de espelho. Mas ‘katoptros’ em sua origem é uma palavra composta. ‘Kato’ é prefixo para ‘volta’, ‘contrário’. Optro – optos – significa ‘olhar’. Olhar de volta. Olhar para si mesmo. Catoptrofobia também pode significar medo de olhar para si mesmo…

Cortés quis agredir-me chamando-me de catoptrofóbico ao mesmo tempo que insinuava que eu, tal como um deus diminuto, temesse meu próprio elemento. Quis por conseguinte dizer que ‘espelho’ é meu elemento? Por outro lado, o espectro, ao dizer que tenho aversão àquilo que o projeta a mim, sugere que eu reprima o que há de verdade em mim e recuse-me a ver-me tal como sou, já que recuso não o espelho, mas o que se reflete nele enquanto vejo-o, ou seja: Eu. Como assim? Cléo interrompera meus pensamentos com a batida da segunda lata sobre o balcão:

- Por que a pergunta? Você tem medo de olhar para si mesmo?

- Não quando me vejo refletido nos seus lindos olhos verdes…



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