Zzzuuuuuuummmmmmm….
Zonzo sob zumbidos, acabara de ver entreaberta a porta que dá para a máquina do mundo. A pleno vapor. Cléo me fez enxergar outra parte desse extenso enigma. Minha cabeça estava a mil, e titânica me parecia a tarefa de encadear sequencialmente as ideias que advinham aleatórias, brotavam espontâneas e distintas, como num Aleph mental. Era-me no entanto necessário esse esforço, no afã (duplo) de dividir meus pensamentos sem passar por louco. Cléo, não sei se por curiosa ou assustada, resolveu seguir-me.
- Queremos ir juntos!
Na soleira da porta estava Pintassilgo abraçado a uma sósia em tudo idêntica a Cléo.
- Ouvimos tudo o que vocês estavam falando, e queremos ir juntos!
- Você não tinha mais o que fazer a não ser nos bisbilhotar? Guim, essa é minha irmã, Lavínia.
Fiquei pasmo. Minha perplexidade era evidente e tampouco procurei escondê-la.
- Você então tem uma irmã gêmea, Cléo?
- Sim… E ela é meu espelho, Guim…
- Confesso que por um momento fiquei confuso ao vê-los ali na cozinha, abraçados. E você se chama Lavínia… Espera: Cleusa e Lavínia não são as duas mulheres de Enéas?
- Sim. Meu pai, professor de latim, era sobretudo um esteta, um literata.
- Não, Cléo. Nosso pai era antes de tudo um misógino! Se uma terceira filha tivesse tido, teria-lhe dado o nome da amante, Dido.
Pintassilgo parecia alterado e não demonstrava um átimo sequer do melindre do qual fora vítima diante de dona Salomé e Teresa, duas horas antes. Parecia divertir-se com minha estupefação. Nenhuma novidade nisso, aliás. Mas dessa vez parecia feliz, realizado: tinha nos braços uma bela garota, tinha a noite ganha e nos lábios malicioso sorriso expelindo a seguinte fala:
- Guim: iremos juntos. Esta festa já era. Todos estão demasiadamente loucos. Ademais, consignei uma garrafa de mezcal de Carvajal. Ei-la! Arriba, arriba! E de Ostrogodo consegui um daqueles famosos cigarrinhos…
Risadinhas tácitas de Lavínia. Ela era belíssima como a irmã, mas havia nela uma certa vulgaridade que a tornava insípida. Ademais, odiei aquela cumplicidade recém-adquirida, aquele subentendimento superficial entre os dois.
Tinha Cléo a meu lado, apesar de tudo. Apesar de não saber exatamente o que ela pensava sobre mim e sobre as coisas que lhe contei, apesar de não saber se ela me achava simplesmente um louco divertido, apesar de não entender o que me diziam aqueles indecifráveis olhos de galáxia. Amava-a, somente, e sentia-me preenchido pela sua presença. Definitivamente eu estava confuso e não tinha, ao contrário de Pinta, a noite ganha.
Não podia entretanto abalar-me. Eu tinha que ser pragmático. O tempo corria contra mim e eu precisava entender logo algo que era muito mais importante do que o que acontecia ali. Afinal era aquele o dia! E em pouco tempo terminaria!
- Bem, vamos então.
Descemos as escadas. Ao sairmos pelo portão, deparamo-nos com Buiú, Panda, Chacal, Carvajal e Ostrogodo olhando para o alto, admirados.
- O que foi?
- Olha lá!
Viramo-nos em direção ao Pilar e vimos raios de luzes vermelhas e brancas dançando no céu acompanhadas de um longínquo som de coro e órgão.
- O que está acontecendo, Buiú?
- Faz parte das festividades. É uma apresentação de um organista famoso, tcheco ou alemão, creio eu. Sei lá. É coisa pra grã-fino.
Cléo disse, encantada:
- O órgão da igreja do Pilar é simplesmente incrível.
Despedimo-nos: “Salud y pesetas!” de Ostrogodo. Pintassilgo abraçava muito amistosamente Carvajal prometendo decerto restituir sua garrafa algum dia. Chacal, evidentemente bêbado, fitou-me um longo instante murmurando palavras soltas: “a fera… aquela que está em você…”. Adeus.
Já subíamos metade da ladeira quando Panda esbaforido liquefazendo-se alcançou-me e puxou-me pelo braço, dizendo:
- Você não me perguntou o porquê, James!
- O porquê do quê, Panda?
- Do quarenta e três ser o meu número primo preferido. Pergunte-me o porquê, James!
- Ok. Por quê?
- Porque é o décimo quarto número primo, James. Simples!
- Ah tá. E?
- Como assim “e”? Então não era você o amarradão por números que ontem mesmo nos fez engolir um monte de sandices? Faça as contas: quatorze menos um – você, que existe sem existir! – dá treze.
- Um dos números sagrados.
- Agora faça quarenta e três menos quatorze.
- Dá vinte e nove.
- Exatamente: vinte – Panda fez um gesto apanhador com a mão direita – e nove – e repetiu o gesto com a mão esquerda.
- Os outros dois números sagrados!
- Não é incrível?
- É meio forçado, mas não deixa de ser fascinante.
- Sabia que você iria gostar! Avanti, piccoli diavoli!
E virou-se de relance, descendo a ladeira a milhão sob efeito combinado da gravidade, do próprio peso e do álcool. As duas irmãs riam, maravilhadas pelo cômico da cena. Eu já não conseguia mais rir. Sentia minha cabeça pesando tanto quanto um bloco de hematita, invadida por um zumbido que teimava em permanecer. Eu precisava urgentemente expeli-lo.
Ao chegarmos diante da porta da pensão, Cléo estancou, observando com curiosidade a placa de ferro fundido que rangia sobre o batente e que anunciava há muito tempo, dado o seu deplorável estado tetânico, o nome da pensão.
- Sabe o que significa “Boanerges”, Guim?
- Não. Não faço ideia.
- Pois devia. Tem relação direta com o seu nome.
- Como assim?
- “Boanerges” é o nome pelo qual Jesus se referia ao discípulo Tiago, também conhecido por São Tiago Maior, ou ainda por São Tiago de Compostela.
- E o que significa?
- Em grego antigo significa “Filho do Trovão”. Ele era assim chamado por conta de seu caráter enérgico, cheio de ímpeto.
- Eu… não entendo. “Boanerges” é o que está escrito abaixo de “Goméz de Alvarado” no brasão da família de Dona Salomé. Não consigo ver qual a relação entre ambos.
Pintassilgo intrometeu-se.
- Vamos subir, por favor, gente? Ou vocês querem ficar congelando aqui nesse vento?
Receoso de acordar Dona Salomé ou Teresa, subimos delicadamente as escadas e entramos no quarto em completo silêncio. Discretamente empurrei as badernas sobre a cama para trás dela, e empilhei os livros da escrivaninha num canto. Enquanto isso, Pinta completamente dono da casa conectara o seu player às caixas de som, servira a todos mezcal em copos de plástico encontrados Deus sabe onde e revirava os bolsos na esperança de encontrar isqueiro. Cedi-lhe o meu e em troca sequestrei-lhe um cigarro. Lavínia enrolava-se entre os braços de Pinta. Eles estavam realmente à vontade, o que me deixou, para dizer a verdade, bastante constrangido.
You know the day destroys the night
Night divides the day
Também Cléo sentou-se confortável em minha cama, e apoiou suas costas na parede. Era naturalmente linda, mas naquela noite estava particularmente deslumbrante. Eu, envergonhado, sentei-me ao lado dela, rígido. Acendi o cigarro e ofereci a ela compartilhamento. Ela aceitou e deu uma profunda tragada com os olhos fechados, como se estivesse refletindo. De repente estacou, abriu os olhos e virou-se para mim:
- Espera aí. Como você disse que se chama a dona da pensão?
- Dona Salomé.
- Hmmm… Interessante. Aí está a relação que você procura. Está em Mateus: Salomé é o nome da mãe de São Tiago.
- Não vejo nenhuma ligação. Dona Salomé nunca teve filhos. Ou você por acaso insinua que ela pode…
Pintassilgo, que até então segurava no peito um longo trago, soltou uma grande baforada em direção a Lavínia e disse, voz macerada pela rouquidão:
- Guim, não é por nada não, mas a Dona Salomé lhe trata como um filho.
- Ok, pode ser, mas ela não é minha mãe, cara!
- Você nunca me falou de sua mãe, Guim.
- Não tenho muito o que falar. Não a conheci, eu era muito novo quando ela morreu. Acho que não devia ter dois anos. Desde que me conheço por gente, sempre fui criado por meu pai.
Cléo, amaciando meus ombros com a mão, perguntou-me, sensibilizada:
- E como é que se chama seu pai?
- Zebedeu. Ou Zebe, como ele prefere ser chamado.
- Guim! Você está brincando comigo!
- O quê?
- Zebedeu é o nome do pai de São Tiago!
Arregalei os olhos. Minha cabeça balançava negativamente, o zumbido não cessava, pelo contrário: tornava-se mais e mais ensurdecedor.
Tried to run!
Tried to hide!
- Não… Não… Isso não passa de uma coincidência.
Nesse momento fui interpelado por Pintassilgo:
- Qualé Guim. Você mesmo me disse há algumas horas atrás que não existem coincidências! Esqueceu-se?
Cléo aproximou-se ainda mais e falava tão próxima a mim que senti sua boca colada em meu ouvido.
- Além do mais, querido, não estamos falando de José e Maria. Salomé e Zebedeu são nomes que não se veem todos os dias…
Levantei-me bruscamente. Os presentes me olharam, chocados. Mesmo Pinta, que calmamente devolvia às narinas de Lavínia a fumaça do pega que inalara, assustou-se ao me ouvir tão contundente.
- Isso é demais para mim! Ouçam-me com muita atenção, por favor. Vocês julgarão se o que eu tenho a dizer é pura obra da insanidade ou se das coisas que me acometem existe algo que tem e exige explicação!
Escrito por nosdomundo 

